Clique aqui e saiba tudo sobre as Satyrianas 2009.
Quem chegar por último é a mulher do padre Rafael!
Clique aqui e saiba tudo sobre as Satyrianas 2009.
Quem chegar por último é a mulher do padre Rafael!
Fotografar a praça não foi das atividades mais simples, ainda mais depois de descobrir que nem todos os mendigos de lá saem recitando Vinícius de Moraes para a gente.
Minhas desventuras em série resolveram se manifestar um certo tempo antes de eu pisar na praça com este intuito.
A começar pela câmera. Eu até tenho uma máquina fotográfica. Ela deve ter sido bem bacana um dia, visto que possui um adesivinho escrito “made in USSR” – e levando em conta o tempo desde que a União Soviética acabou, concluo que a máquina não é assim um primor da tecnologia.
Daí fui até a faculdade para retirar uma câmera no setor de multimeios. Eu sou oldschool, gosto do filme. Por mais que me digam que as câmeras atuais fazem isso e fazem aquilo, nunca consegui regular um obturador de máquina digital que não fosse reflex.
A Ana Raquel até tem uma super modernosa. Mas lá em Praga, que é onde ela deve estar neste momento, a câmera deve estar sendo empregada em assuntos mais nobres.
Chegando à faculdade, descubro que houve uma reformulação no processo de empréstimo de equipamentos do setor de multimeios, e eu precisaria da autorização do meu orientador. Ok, sem problema, vou lá, falo com o Rodolfo, contamos meia dúzia de anedotas, ele me puxa orelha por conta do atraso no projeto, subo lá com o papel na mão e pronto.
Mas não foi tão simples. Onde estava o sr. professor Rodolfo? Devia estar no aconchego do lar, com o notebook ligado, de olho nos textos antigos do In Utero. Certeza.
Após algumas escalas, volto eu para o meu não tão aconchegante lar para dar um oi para minha querida e antiga máquina Zenith. Um professor já tinha comentado comigo e, alguns anos depois, pude ter absoluta certeza: minha lente estava com fungos, o que a deixa com algumas manchinhas (que eu jamais imaginaria se tratar de fungos). Segundo ele, a situação estava feia, “quase um pântano. Jesus”. Tudo bem, nada que um paninho e um solvente não resolvessem. Foi o que ele disse. E muito cuidado na hora de desmontar (um outro mestre havia sugerido que não, Dado, não faça isso de jeito nenhum e leve sua máquina para um profissional. Mas eu cresci assistindo a Ana Maria Braga fazendo comida na TV e sou adepto do “faça você mesmo”, então vamo que vamo).
Lá vai o Dado e seu algodãozinho.
Até consegui tirar alguma coisa, mas o grosso do fungo estava por dentro da lente. Nada que umas minúsculas chaves de fenda que tem aqui em casa não resolvessem.
Peraí, chaves… minúsculas?
O quinto parafuso fez com que eu me sentisse como se tivesse acabado de comer um cogumelo gigante da Alice. Mesmo assim, algumas peças sobraram após a minha tentativa de remontar a objetiva.
Ó, meu pai. O jeito foi apelar para o meu irmão. Ele sempre descola uma máquina onde ele trabalha – para os mais nobres motivos, como a minha matéria sobre grafite, a minha matéria sobre musicoterapia, a minha matéria sobre prostituição… Já somos até íntimos, a máquina e eu.
Momento de glória: sábado à noite eu descubro que meu domingo não seria perdido (foi quando ele chegou com a tal câmera).
E lá vou eu numa nublada tarde dominical, nem ligando para o fato de que é dia de feira na rua João Guimarães Rosa, ou seja, na praça, e no meio da tarde ela estaria um pouquinho mais fedorenta do que o comum. Tudo bem, né gente. Pra quem já está acostumado com o odor dos dejetos fisiológicos dos moradores de rua, o que seria o chorume do fim da feira?
Consciente de que eu estava no centro de São Paulo, sozinho e fotografando a moradia de dezenas de indigentes, tomei um certo cuidado para ser discreto. De fato eu o estava sendo, evitando tipos suspeitos e tal. O lance é que eu estava na Praça Roosevelt, e “tipos suspeitos” e outros conceitos sociais não fazem muito sentido ali. Um ótimo exercício de sociologia, eu diria.
Após captar diversas imagens do fétido baixo da praça (como na foto que ilustra este post), quase chegando na rampa próxima à rua Augusta, um cara com um saco de latinhas grita “Ei, não pode tirar foto aqui não!” Ah, querido, nem te ligo. Fiz a egípcia mesmo. Ele continuou: “NÃO pode tirar foto aqui não!” Te desprezo.
Daí ele começou a chamar outros mendigos que estavam por ali e apontar para “o careca com cavanhaque e bolsa de jornalista” e dizer que “ele ali tá tirando fotos daqui”. “E não pode!”
Temendo pela minha integridade física e notando que de repente o baixo da Praça Roosevelt estava bem parecido com a cena do Thriller em que os mortos começavam a se levantar da tumba (só que no lugar de mortos-vivos, ali eram mendigos – embora parte do figurino muito se assemelhasse), decidi sair pela tangente o mais breve possível antes que alguma música começasse a tocar (afinal, quem estava prestes a dançar por ali era eu).
Saio loucamente pela Martinho Prado, entro na Avanhandava, subo uma mega escadaria que vai dar na Caio Prado, volto para a Consolação e resolvo dar por encerrada a minha jornada fotográfica dominical 27 fotos depois de tê-la iniciado.
No caminho, ainda cruzo com um professor que me deu aula há cinco anos (que nunca recuperou sua reputação depois de ter dito para uma turma de 30 garotos heterossexuais de 15 a 17 anos que morava “na avenida da Parada Gay”. Gente, era um curso técnico em Mecânica. Coitado). Resolvi continuar minha fuga. Afinal, depois dos zumbis, encontrar um fantasma não era exatamente o que me faria chamar aquilo de desfecho agradável.
(Brincadeira. Eu adorava esse professor. Vê-lo só me fez passar a tarde refletindo sobre uma série de coisas. Não tive coragem de ir falar com ele, mas isso é assunto para o meu outro blog.)
Enfim, amigos. Acho que precisarei tomar um pouquinho mais de cuidado quando for tirar fotos do que não consegui hoje. De uma coisa eu já sei: sozinho é que eu não vou mais!
Dado
Conheci dois mendigos na Praça Roosevelt no último dia 12, uma fria – e bota fria nisso – sexta, enquanto fuçava os fivros do Sebo do Bac.
Eram uma mulher e um rapaz. A mulher devia ter cerca de 1,60 m, cabelos raspados, uma blusa vermelha e, segundo ela, 39 anos (“Com essa cútis?”, perguntei, e ela: “É, mas com barriguinha de pochete”). Vestida com roupas simples, mas muito limpa.
Ela se apresentou, dizendo “Olá, eu sou Yvone, a mendiga mais chique de São Paulo”, e nos cumprimentou, se referindo a cada um como “moço bonito!”. Pediu um cigarro, um salgado, um dinheiro, uma cachaça, qualquer coisa. “Eu sou escritora, autora do livro Ninguém me quer: do Sergipe a São Paulo.” Eu, como sou chegado em gente com histórias pra contar, comecei a dar corda:
“Então você vem do Sergipe?”, “Venho. Meu pai abandonou a minha mãe. Viemos para São Paulo. Minha mãe conheceu meu padrasto. Fui estuprada pelo meu padrasto dos sete aos 14 anos…”, e por aí foi.
—
“Ainda peguei Aids. É mole?”
—
Enquanto falava comigo, o rapaz – que tinha chegado com ela – conversava com Anselmo (mas não recebia a mesma atenção que eu estava dando para Yvone). Dada a aparente impaciência do interlocutor, o rapaz começou a interromper a fala de Yvone. Ela ficou meio brava. “Puta merda, cara problemático. Olha só, eu sou prima desse moleque. Conheço ele desde que nasceu. Rapaz de 22 anos, problemático. 22 anos é assim mesmo, cara com problema.” Daí os dois começaram a gritar e ninguém mais conseguia se fazer compreender.
–
No meio da gritaria, só deu pra ver o rapaz levantar a barra de um dos lados da calça e mostrar a tatuagem feita na bela perna. “Isso aqui sou eu que desenho. Eu sou artista!”. Daí eu perguntei “Mas você tatuou em você mesmo?”, e ele, meio noiado “Eu fiz a metade e o outro fez a metade” – algo que eu não entendi muito bem, mas beleza. Alguns gritos depois, ele se cansou, levantou e saiu andando com um lado da calçca mais alto que o outro.
–
Yvone continuou comigo. “Vou escrever um negócio pra você. Um negócio bem chique. Vou te passar meu MSN e meu orkut.” Pegou um papel da mão do Anselmo e começou a rabiscar. “Toma. Lê”, me deu o papel. Mas quando fui guardar, ela disse “Lê agora!”. Li.
“Por favor, poderia me ajudar com um salgado?” No verso, dois endereços de MSN, um número de telefone, e a explicação: “Moradora de rua do Paissandu. Doença Grátis.”
–
Guardei o papel. Ela pegou meu braço e fez a feição mais desesperada que pôde: “A Prefeitura fechou oito abrigos públicos. Acho que o Kassab quer abrir um brechó: toda noite vem alguém roubar nosso cobertor!”.
–
Antes de ir embora, um último apelo: “Se tiver um cobertor sobrando, uma blusa de frio, um cachecou, manda pra mim, vai! Eu moro ali atrás da floricultura.”
–
“Vê se pode? Com uma vida dessas, ainda tenho leucemia.”
—
“É um desses todo dia?”, perguntei para o Anselmo. “Deus que me livre! Se fosse, eu já tinha saído daqui”, disse, pegando o livro que estava lendo (Pornopopeia) e indo para dentro do teatro.
—
A confusão com a chegada desses dois foi meio bizarra, mas depois que Yvone foi embora, a conversa que tive com o rapaz rendeu bastante. Como eu me perdi um pouco no pensamento dele - o pobre estava visivelmente sob efeito de drogas -, vou colocar algumas das frases que me fizeram conversar com ele por quase uma hora:
—
“Cara, eu fiz uma coisa que eu sei que tá errada.”, “Me conta”, eu disse. “Eu tava comendo uma mina, daí eu falei ‘vou ali tomar um conhaque’. Peguei vinte conto na bolsa dela, peguei o cartão dela, deixei minha cueca lá, saí e ela deve estar esperando até agora.”
“Como assim? A que horas foi isso?” Ele explicou: “Foi meio-dia. Peguei ela na Augusta” “Era puta?” “Não, mas era dada. Queria dar pra alguém.” “E foi bom?” “Mais pra ela do que pra mim.”
—
“Me paga uma pinga aê. Tou há quatro noites sem dormir. Preciso de uma pinga.”
—
“Eu tenho casa. Moro em Higienópolis. Faço faculdade.”
—
“Minha mãe é a única que ainda acredita em mim.”
—
Perguntei: “E porque você não vai para a sua casa?”
Ele diz: “Porque minha mãe não vai abrir a porta pra mim.”
E continua: “Por causa da droga.”
—
“Meu nome é Vinícius de Moraes. ‘Pergunte pro seu orixá: o amor só é bom se doer’. Tou te zuando. É Marcos Vinícius de Moraes.”
—
“Tem gente que não acredita. Eu faço viagem astral”
—
O que mais me deixou com pena: “Sabe, eu estou conversando aqui com você porque você me dá atenção.”
—
O que me fez rir contente: “Comprei essa rosa pra dar de presente pra uma mina. Porque é bom, né, fazer uma gentileza. As meninas gostam. Aquela ali é gatinha, né?”. Eu disse “Gostou? Vai lá, dá a rosa pra ela!” Ele foi. Ficou uns minutos lá. Deu a minha hora. Entrei no teatro.
Quando saí, duas horas depois, ele ainda estava conversando com a menina. Ela tinha a rosa na mão.
Sorri pra ele, como quem diz “ehe, garanhão”, mas acho que já não lembrava mais de mim.
Dado
Ivam Cabral, fundador dos Satyros junto com Rodolfo Garcia Vázquez, comprou uma bicicleta recentemente. Cor de alumínio, se não me engano. Sei disso porque ando lendo o blog dele – e também porque quase o atropelamos quando saíamos da praça Roosevelt certa madrugada, e nesta hora ele empurrava a tal bicicleta.
Sei também que ele está querendo perder oito quilos (Ivam, querido, perder ou eliminar?), e para isso, se matriculou na Associação Cristã dos Moços - sim, a famosa YMCA (em português é ACM, mas ninguém associa “ACM” ao Village People logo de cara, então nada de cortar o meu barato).
Parou de fumar e anda acordando mais cedo – mas chegou a comentar que adoraria voltar a fumar aos oitenta anos, quando planeja se mudar para o Maranhão, que conheceu recentemente.
Soube também que ele e o irmão, o Dimi, gostam de competir para ver quem conhece mais lugares no mundo (Dimi está na frente, não?) Começaram com esta brincadeira quando ainda eram meninos. Ivam já tinha ido à praia e o irmão só conhecia o interior - e a praia era mais longe. Nem precisava ter parado nas cidades por onde passaram: só de ter visto a placa com o nome já dava para um contar vantagem sobre o outro.
Ivam também foi ao show da Madonna – eu estava lá também, sabia? Foi de última hora e deu o furo em todo mundo, porque combinou de ir com todos mas acabou indo mesmo só com uma amiga (a Cleo?).
Vez por outra, enquanto conta suas experiências no blog, Ivam diz algo mais ou menos assim: “Ser feliz é bom demais”. Toda vez que eu leio esta frase, me dá uma alegria tão profunda de saber que algumas pessoas têm desses acessos de felicidade assim, com coisas cotidianas (como “coisas cotidianas” eu não incluo o show da Madonna, ok?).
Semana passada, enquanto eu pesquisava fotos no sistema do jornal onde eu trabalho (é, queridos, estamos nesta investigação há alguns meses – somos ou não somos stalkers de primeira?), encontrei algumas imagens capturadas na segunda-feira, dia 6, de Ivam na porta do Espaço dos Satyros 1. Eram fotos com caretas, sorrisos, braços abertos feito quem quer abraçar a praça inteira. Achei engraçado, aquela cara de quem quer aprontar molecagens. Mostrei as fotos para uma amiga, dizendo “este homem é louco. Meu TCC é sobre ele”, e ela respondeu: “Louco, não. Ele é uma pessoa feliz. E uma pessoa feliz não tem vergonha de parecer louca.”
Foi o que eu vi alguns dias depois, na sexta. Saí do trabalho no começo da tarde e fui fazer o que eu chamei de “Plantão na Praça”. Passei numa padoca deliciosa que tem lá perto, a Santa Efigênia, e comprei um saquinho de rabanadas e outro de pães de queijo (hummm). Cheguei na praça Roosevelt antes das três da tarde e um monte de gente estava na porta dos Satyros: o Rodolfo e parte dos atores. Passei batido: embora eu já tivesse visto boa parte daqueles atores sem roupa (as peças são bem… transgressoras, eu diria), não achei que isso fosse o suficiente para chegar cumprimentando todo mundo.
Sentei numa muretinha do outro lado da rua e fiquei observando – e comendo (céus, saudades daquelas rabanadas). Eu já tinha visto o Rodolfo várias vezes (e sempre desconfiava de que ele ficava nos observando, como quem diz “Quem são estes rostos diferentes que apareceram de repente e não saem mais daqui?”), mas o Ivam não (exceto no dia em que quase o atropelamos, mas abafa o caso). Daí ele apareceu, com um picolé na mão (Limão? Coco? Era branco). Junto com ele também apareceu o Alberto Guzik, que eu tinha visto no palco algumas semanas antes na pele de Febe Camacho, em Monólogo da Velha Apresentadora. Todos se cumprimentaram com um selinho maroto. Phedra D. Códoba, a Diva Automática, também estava lá.
Eu via aquele povo confabulando e rindo e não conseguia me esquecer da careta do Ivam na porta dos Satyros, na foto do jornal.
Então todo mundo entrou no prédio (não no Espaço dos Satyros, mas na porta ao lado). Só saíram umas duas horas depois. Nesta hora eu já tinha me apossado de uma das mesas na calçada e estava tomando uma cerveja, enquanto aguardava a minha comparsa, a Ana Raquel, chegar - Juliana fora para Curitiba e não bancaria a espiã desta vez.
Os atores se reuniram por ali também. Vi algumas cenas engraçadas. Um deles, que atua em 120 dias de Sodoma e A Filosofia na Alcova, disse: “…Mas você não precisa ficar pelado na peça!”. O outro, que atua em Monólogo…, fez uma cara de “eu hein” e fez um gesto com as mãos, como quem indica o tamanho (grande) de alguma coisa (seria o pênis?). Todos caíram na risada.
A cerveja foi acabando e eu já não sabia mais o que escrever no meu caderninho. Eu precisava falar com o Rodolfo ou com o Ivam, mas cada vez que um deles aparecia, parecia tão ocupado no assunto com suas companhias que eu – já meio alto – ficava sem jeito de interromper.
Até que a Ana Raquel chegou.
Mais cerveja, mais pão de queijo e mais rabanada. Agora vai.
Depois de sondar entre o moço da bilheteria do Satyros 1 e a moça do bar do Satyros 2, ficamos de tocaia na calçada até ele aparecer. Apareceu, saindo do Satyros 2. A postos, Ana.
Ele olhou pra trás desconfiado (da forma como eu também faria se alguém com cara de skinhead me observando há dias começasse a me seguir). Voltou a andar e depois voltou a olhar para trás, desta vez mais demorado. Quando quis voltar a andar de novo, chamei: “Rodolfo!” Sorrisão na cara, nos cumprimentou calorosamente. “Tem uns minutos?”
Explicamos a história toda – que ainda não contamos nem aqui no blog: nossa ideia é fazer um livro reportagem sobre os 20 anos dos Satyros (que se completam em maio) e os 40 da praça Roosevelt (que se completam no ano que vem) e como um transformou a vida do outro após a chegada dos Satyros naquele lugar. Mais ou menos isso.
Ele curtiu. Nós ficamos contentes. Disse que as portas estariam abertas e nos fez alguns convites (segreeeeedooooooo). Eu só ia ficar mais feliz ainda se o Ivam estivesse lá também. Será que ele ia fazer aquelas caretas de felicidade que ele fez para o fotógrafo do jornal?
Daí hoje mandei uns recados para o Ivam pelo Twitter. Ele não deve ter entendido muita coisa por causa do meu jeito de curinga de escrever mensagens (codinome: Stalker #1), mas parece que ficou animado. Aquela matéria que ia sair no jornal (a das fotos) finalmente saiu hoje. Fala sobre o Miniteatro, que está sendo inaugurado (neste exato momento, para ser mais exato) na praça. Para um lugar marcado pela violência, prostituição e marginalidade, passar a ter sete teatros não é brincadeira não.
Fala aí se não é um ótimo assunto para TCC?
Dado, a.k.a. Stalker #1
Eu já tinha passado lá uma semana antes, para sentir o drama da coisa. Fiquei morrendo de medo. Tinha lido coisas horríveis sobre o lugar e confesso que a minha impressão ao chegar lá realmente não foi das melhores.
Tinha acabado de chover uma daquelas chuvas de verão de São Paulo. Aliás, depois que saí de lá, cheguei à conclusão de que não existe lugar mais com a cara de São Paulo do que a Praça Roosevelt. Olha só: Ela é construída em cima de um elevado, no fim da Rua da Consolação, perto da Augusta, atrás da Igreja da Consolação. No quarteirão ao lado (o centro tem um emaranhado de ruas que você nunca sabe o que está do lado, à frente ou atrás), tem o tradicionalíssimo Copan. Subindo a Consolação, tem o cemitério. Nos arredores, tem os bares, baladas e casinhas da luz vermelha da Augusta e afins. Enfim, a Praça Roosevelt é o coração de São Paulo – um coração meio apodrecido em uma cidade meio apodrecida, mas que mesmo assim, tanto a praça quanto a cidade possuem uma coisa que faz seus frequentadores e moradores se apaixonarem por elas.
Enfim, a praça. Daí, nela tem um estacionamento subterrâneo (subterrâneo em relação à praça, não ao que tem embaixo dela). Ao lado, a entrada de uma rua que, assim como o estacionamento, vai pra baixo da terra – só que passando da praça, fica ao ar livre, porque ultrapassa o elevado da praça. E sobre a praça, tem um outro elevado, um patamar suspenso, com um enorme vão embaixo, cheio de rampas para as pessoas subirem. Cheiro de urina total. Cheio de mendigos e pessoas andando de skate – tanto embaixo quanto em cima.
Là em cima, a impressão é estranhíssima: parece uma clareira no meio dos prédios. Ao redor, um paredão de edifícios da praça. Em um dos lados – o da igreja – um enorme muro de árvores – alguém notou isso e pichou na mureta da praça a frase “dark side”.
Da mesma forma que a praça forma uma clareira no meio do concreto da cidade, um buraco entre os prédios altos, há uma outra particularidade: quase não há vegetação. É uma praça de concreto, com algumas árvores enfiadas grotescamente em uns caldeirões de cimento feitos no meio daquele elevado. É a coisa mais estranha do mundo.
À noite, a parte de baixo do elevado fica iluminada com aquelas lâmpadas amarelas fortíssimas, que deixam o local com aspecto de cenário de filme sobre gangues.
Foi neste lugar, anteirormente um reduto cultural (acredito que antes da construção do elevado, preciso pesquisar), que sofreu com a repressão da ditadura milirar e virou um antro de marginalidade, que os Satyros resolveram se instalar. Esta história rende outro enorme post.
É até engraçado você sair de alguma peça lá pela meia-noite e ver todo mundo nas mesinhas dos botecos confabulando com todo este cenário. De vez em quando passa um mendigo pedindo um gole de cerveja ou alguma moeda. Tem o tiozinho do milho, o Fidélis, supersimpático.
Enfim. A peça. Era dia de apresentação da turma dos oficineiros. Me parece que foi a turma de férias. Eu queria assistir uma aula (recebi um e-mail falando sobre as novas turmas e me convidando para participar. Queria ver uma aula. Liguei e quem me atendeu foi o Diogo. Disse que haveria a tal apresentação. Fui ver. Domingo à tarde.
O Espaço dos Satyros é bem pequeno. Tem um café na frente, bem pequeno também. Paredes pintadas de roxo, uma graça. Já contei que o ingresso era um pirulito.
Os atores entraram. Era uma sala de aula do terceiro ano. Todo mundo entrava gritando e fazendo brincadeiras de criança (tocava a música da Adriana Calcanhotto, Ciranda da bailarina – também tinha uma versão com um coro infantil). A professora pra lá de ranzinza chegava, mandva todo mundo calar a boca e fazia chamada.
Daí, ela pedia para as “crianças” (tinha uns belos rapazes bem crescidinhos ali, viu) lerem as redações cujo tema era “as minhas férias” (descobri uma semana depois, fuçando no orkut da comunidade – achei alguns atores lá – que este era o nome da peça).
Daí, quando os alunos liam as redações e os outros alunos encenavam a situação.
Devo confessar: quando vi que a peça se passava numa sala de aula, pensei “então são estes os Satyros?” Mas quando vi que aquilo seria apenas um suporte para eles experimentarem diversas linguagens dentro das redações e assim se desenvolverem como atores versáteis, minha impressão se transformou completamente – e quando a gente se surpreende com as coisas, é quando elas se provam realmente boas.
No final, os alunos – na peça e na oficina – agradeceram ao Rodolfo Garcia Vásquez – que estava no fundo da plateia. Deram flores pra ele. Olha que coisa, eu já tinha lido tanto sobre ele, o Rodolfo, e nunca ia imaginar que ele estaria tão perto.
Pois estava. Eu nunca me esqueço de um rosto. Lá ele estava.
Agora só faltava ver o Ivam Cabral.
Bom, vou continuar a minha quixotesca história em outro post. Já vou avisando a quem acompanhar: isso vai durar o ano inteiro.
Dado
(Para ler ouvindo: Ciranda da bailarina)
Daí que eu fui conhecer Os Satyros no domingo passado (não no dia 8, e sim no dia 1º). O nome deles tinha ficado na minha cabeça na época em que eu fazia estágio num portal de São Paulo, o Sampa Online, e rolava toda sexta um guia cultural básico. Me chamava atenção o fato de haver tantas peças encenadas nos dois espaços que o grupo mantém na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo. Então comecei a pesquisar.
Tem espetáculo todos os dias. Não raro, três diferentes (em cada espaço), com sessões que começam até à meia-noite. Tem as oficinas também, onde eles ensinam suas técnicas para os alunos.
Mais tarde, vi uma entrevista no Jô com alguns atores e os idealizadores do grupo, Ivam Cabral e Rodolfo Garcia Vásquez. Eles contaram uma história pra lá de engraçada a respeito de trotes com famosos e como nasceu um dos maiores eventos culturais da cidade: as Satyrianas – 72 horas initerruptas de eventos teatrais na Praça Roosevelt (em outro post eu conto isso direito).
Daí que me deu vontade de aprender teatro. Com eles. Um homem estranho que me encontrou num ponto de ônibus até comentou sobre isso. Eu sou meio dado a levar a sério tudo o que os desconhecidos falam. Não aqueles desconhecidos mal intencionados, mas aqueles desconhecidos que têm cara de louco e moram na rua, entende? Que ficam gritando com amigos imaginários. Do nada, comecei a receber e-mails falando sobre as oficinas dos Satyros e resolvi ir conhecê-los.
Telefonei e perguntei se tinha alguma turma em andamento, para eu ir e ficar quietinho em um canto assistindo a uma aula. Não, não tinha. Melhor que isso: tinha uma turma que acabara de terminar a oficina e se apresentaria no dia segunte, domingo. Fui vê-los.
Era de graça. Então cheguei bem mais cedo, porque vai saber né. Fiz certo, porque encheu. Mas houve uma coisa curiosa: tinha uma bela moça na bilheteria, loira com as laterais da cabeça raspada e um cabelo bem crescido na parte de cima. Desencanada total. Giza, o nome dela (“eu sou Dado, prazer”). “A que horas é a peça?”, “Às 16h30min. O ingresso é um pirulito. Toma”, e me deu um pirulitão, desses achatados e grandes, parecidos com os da Chiquinha, do Chaves – mas menor.
Achei que ela tivesse brincando. Pensei seriamente em saborear o doce ali mesmo. Mas quando notei que muitas pessoas começaram a chegar e não caberia todo mundo naquele pequeno espaço – e todos eles, muito familiarizados com o local, não ousavam tirar o plástico do pirulito, notei que ela falara a sério.
Mais tarde, foi preciso organizar duas filas: a de quem tinha e de quem não tinha pirulito. Quem tinha, entrava primeiro e sentava. Quem não tinha, esperava para ver se sobraria lugar. Acabou que sentou gente na escada, no chão, no colo, enfim, uma loucura. Tinha espaço para todo mundo naquele pequeno teatro que, logo na minha primeira impressão, acolheu a todos com braços abertos e um doce de brinde.
A peça? Nos próximos posts eu conto como foi. Só posso adiantar uma coisa: me diverti bastante.
Dado