O meu teto de vidro

Na entrada da estação República, ontem, havia um rapaz tocando violão. Ele vestia um sobretudo preto. Tinha os cabelos claros. Não estava sujo, não cheirava mal. Eu tinha acabado de passar na padaria Santa Efigênia, no Copan, e estava abocanhando uma rabanada (saudades daquela rabanada). Notei que ele pedia alguma moeda para quem passava. Continuei andando. Enquanto eu descia a escada, ele começou a cantar Behind Blue Eyes, do The Who (famosa também com o Limp Biskit).

Não deu para ouvir como ele tocava. Mas a voz estava desafinada. Só que o inglês era bom. A conclusão que eu tive (precipitada?) era que ele estava longe de ser um mendigo. Para mim, era alguém bancando o artista (ainda mais porque ele estava a cara do Charlie, do Lost, em uma cena que ele canta Wonderwall nas ruas de Londres, pedindo dinheiro), doido para dizer que “viveu como os excluídos” por um tempo, e que conheceu “a verdadeira realidade” das ruas. Li uma matéria em uma revista esses dias, em uma sala de espera. Uma estudante de jornalismo usou todos esses termos como mote para alugar um barraco na favela (a R$ 65 mensais), juntar suas coisas em uma mochila e documentar o cotidiano desse exótico ser que é o pobre (era o TCC dela).

Ok, acho o mundo muito cruel e tal. Também acho que há um imenso abismo entre a gente e as pessoas que realmente rebolam para viver. Mas não suporto essa síndrome de “quero ser herói” que algumas pessoas têm, querendo ser o “salvador dos pobres”, disparando clichês sobre o quão terrível é a “classe média”. Discurso demais não cheira bem.

Veja que irônico: isso tudo passou pela minha cabeça enquanto eu limpava o açúcar da deliciosa rabanada que ficou grudado na minha boca. E se fosse o que eu chamo de “mendigo genuíno”, e não um artista (se é que ele era mesmo um artista)? Teria eu me sentado na calçada para dividir minhas rabanadas com ele? Talvez eu seja como o músico pedindo moedas cantando em inglês. Ou como a patricinha na favela. Eu, depois do ano passado inteiro pesquisando sobre a Praça Roosevelt. Escrevendo um livro sobre a calamidade que aquele lugar tinha se tornado, sobre os excluídos que viviam debaixo daquela estrutura de concreto.

De repente, me senti como a patricinha que tanto me irritou na matéria (tá, tem outro motivo: o texto dela era muito ruim). Ficar tantos meses sem visitar a praça (depois de escrever um livro sobre ela) me fez ter uma outra ideia sobre as coisas.

E o motivo de eu passar por ali era justamente o lançamento de um livro. Não o meu (como vocês, meus fieis leitores – mãe, pai, professor orientador, um beijo – devem ter notado, depois do fim do TCC, a coisa ficou meio de lado). Mas um feito pelos próprios Satyros.

No fim do ano passado, enquanto eu e a Ana estávamos loucos para terminar tudo a tempo, o Ivam tinha contado que eles estavam preparando um livro de fotos. Quem organizaria tudo seria o ator Germano Pereira. Algumas coisas fizeram o projeto atrasar e, agora em novembro, o material ficou pronto. O volume é lindo. O lançamento foi na HQ Mix. Tinha bastante gente legal (só não vi o Ivam, porque ele foi dar entrevista para a TV Cultura. Mas o Rodolfo estava lá).

Me deu saudades. Terminar a faculdade significa entrar de cabeça na vida profissional (pelo menos se você já estiver bem encaminhado em um estágio). Foi o meu caso. Eu até queria (quero?) continuar o projeto, pesquisar mais, falar com mais gente, escrever mais, para ver se esse livro vira. Mas a rotina de repórter não ajuda muito. E, vejam só, 11 meses já se passaram desde que eu recebi um 10 no que, para mim, era um projeto incompleto.

Cheguei na praça e encontrei tapumes por toda a sua extensão. Não bastasse, a igreja estava fechada. Desde julho, está rolando uma reforma no lugar. Uma grande oportunidade para rever a história do lugar (e, acredite, você nunca imaginou que uma praça tivesse tanta história). Vai durar dois anos. 2012. Terei um livro pronto até lá?

Talvez seja o caso de, depois de um ano de descanso, eu começar a estabelecer alguns prazos.

Quem sabe.

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