Clique aqui e saiba tudo sobre as Satyrianas 2009.
Quem chegar por último é a mulher do padre Rafael!
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Fotografar a praça não foi das atividades mais simples, ainda mais depois de descobrir que nem todos os mendigos de lá saem recitando Vinícius de Moraes para a gente.
Minhas desventuras em série resolveram se manifestar um certo tempo antes de eu pisar na praça com este intuito.
A começar pela câmera. Eu até tenho uma máquina fotográfica. Ela deve ter sido bem bacana um dia, visto que possui um adesivinho escrito “made in USSR” – e levando em conta o tempo desde que a União Soviética acabou, concluo que a máquina não é assim um primor da tecnologia.
Daí fui até a faculdade para retirar uma câmera no setor de multimeios. Eu sou oldschool, gosto do filme. Por mais que me digam que as câmeras atuais fazem isso e fazem aquilo, nunca consegui regular um obturador de máquina digital que não fosse reflex.
A Ana Raquel até tem uma super modernosa. Mas lá em Praga, que é onde ela deve estar neste momento, a câmera deve estar sendo empregada em assuntos mais nobres.
Chegando à faculdade, descubro que houve uma reformulação no processo de empréstimo de equipamentos do setor de multimeios, e eu precisaria da autorização do meu orientador. Ok, sem problema, vou lá, falo com o Rodolfo, contamos meia dúzia de anedotas, ele me puxa orelha por conta do atraso no projeto, subo lá com o papel na mão e pronto.
Mas não foi tão simples. Onde estava o sr. professor Rodolfo? Devia estar no aconchego do lar, com o notebook ligado, de olho nos textos antigos do In Utero. Certeza.
Após algumas escalas, volto eu para o meu não tão aconchegante lar para dar um oi para minha querida e antiga máquina Zenith. Um professor já tinha comentado comigo e, alguns anos depois, pude ter absoluta certeza: minha lente estava com fungos, o que a deixa com algumas manchinhas (que eu jamais imaginaria se tratar de fungos). Segundo ele, a situação estava feia, “quase um pântano. Jesus”. Tudo bem, nada que um paninho e um solvente não resolvessem. Foi o que ele disse. E muito cuidado na hora de desmontar (um outro mestre havia sugerido que não, Dado, não faça isso de jeito nenhum e leve sua máquina para um profissional. Mas eu cresci assistindo a Ana Maria Braga fazendo comida na TV e sou adepto do “faça você mesmo”, então vamo que vamo).
Lá vai o Dado e seu algodãozinho.
Até consegui tirar alguma coisa, mas o grosso do fungo estava por dentro da lente. Nada que umas minúsculas chaves de fenda que tem aqui em casa não resolvessem.
Peraí, chaves… minúsculas?
O quinto parafuso fez com que eu me sentisse como se tivesse acabado de comer um cogumelo gigante da Alice. Mesmo assim, algumas peças sobraram após a minha tentativa de remontar a objetiva.
Ó, meu pai. O jeito foi apelar para o meu irmão. Ele sempre descola uma máquina onde ele trabalha – para os mais nobres motivos, como a minha matéria sobre grafite, a minha matéria sobre musicoterapia, a minha matéria sobre prostituição… Já somos até íntimos, a máquina e eu.
Momento de glória: sábado à noite eu descubro que meu domingo não seria perdido (foi quando ele chegou com a tal câmera).
E lá vou eu numa nublada tarde dominical, nem ligando para o fato de que é dia de feira na rua João Guimarães Rosa, ou seja, na praça, e no meio da tarde ela estaria um pouquinho mais fedorenta do que o comum. Tudo bem, né gente. Pra quem já está acostumado com o odor dos dejetos fisiológicos dos moradores de rua, o que seria o chorume do fim da feira?
Consciente de que eu estava no centro de São Paulo, sozinho e fotografando a moradia de dezenas de indigentes, tomei um certo cuidado para ser discreto. De fato eu o estava sendo, evitando tipos suspeitos e tal. O lance é que eu estava na Praça Roosevelt, e “tipos suspeitos” e outros conceitos sociais não fazem muito sentido ali. Um ótimo exercício de sociologia, eu diria.
Após captar diversas imagens do fétido baixo da praça (como na foto que ilustra este post), quase chegando na rampa próxima à rua Augusta, um cara com um saco de latinhas grita “Ei, não pode tirar foto aqui não!” Ah, querido, nem te ligo. Fiz a egípcia mesmo. Ele continuou: “NÃO pode tirar foto aqui não!” Te desprezo.
Daí ele começou a chamar outros mendigos que estavam por ali e apontar para “o careca com cavanhaque e bolsa de jornalista” e dizer que “ele ali tá tirando fotos daqui”. “E não pode!”
Temendo pela minha integridade física e notando que de repente o baixo da Praça Roosevelt estava bem parecido com a cena do Thriller em que os mortos começavam a se levantar da tumba (só que no lugar de mortos-vivos, ali eram mendigos – embora parte do figurino muito se assemelhasse), decidi sair pela tangente o mais breve possível antes que alguma música começasse a tocar (afinal, quem estava prestes a dançar por ali era eu).
Saio loucamente pela Martinho Prado, entro na Avanhandava, subo uma mega escadaria que vai dar na Caio Prado, volto para a Consolação e resolvo dar por encerrada a minha jornada fotográfica dominical 27 fotos depois de tê-la iniciado.
No caminho, ainda cruzo com um professor que me deu aula há cinco anos (que nunca recuperou sua reputação depois de ter dito para uma turma de 30 garotos heterossexuais de 15 a 17 anos que morava “na avenida da Parada Gay”. Gente, era um curso técnico em Mecânica. Coitado). Resolvi continuar minha fuga. Afinal, depois dos zumbis, encontrar um fantasma não era exatamente o que me faria chamar aquilo de desfecho agradável.
(Brincadeira. Eu adorava esse professor. Vê-lo só me fez passar a tarde refletindo sobre uma série de coisas. Não tive coragem de ir falar com ele, mas isso é assunto para o meu outro blog.)
Enfim, amigos. Acho que precisarei tomar um pouquinho mais de cuidado quando for tirar fotos do que não consegui hoje. De uma coisa eu já sei: sozinho é que eu não vou mais!
Dado