Da Paulista à Ipiranga (ou ‘A Imersão’)

Dia desses, marquei uma entrevista com Alberto Guzik. Foi uma situação meio irônica, afinal o cara foi jornalista quando eu ainda estava nas fraldas. E também porque ele fez carreira exatamente no jornal onde eu estou tentando buscar um lugar ao sol. E depois de anos de redação, o lado artístico falou mais alto e lá foi Alberto se entregar ao teatro (possibilidade que, devo confessar, já passou pela minha cabeça).

Ah, ele também é o autor de um dos únicos livros que falam sobre Os Satyros, Um palco visceral. Tem um outro, do Ivam Cabral, Quatro textos para um teatro veloz, mas, como o próprio nome sugere, não conta a história da companhia. A Imprensa Oficial também está preparando um outro, que ainda não teve o nome divulgado, com fotografias dos vinte anos do grupo.

Enfim, fui para a casa do Alberto sabendo de tudo isso. Sim, ele me recebeu no próprio apartamento, um lugar muito elegante. Falamos por um pouco mais de uma hora e eu saí já meio com medo dos monstros noturnos que aparecem por São Paulo (ainda mais depois das 21h).

Cheguei em casa vivo, obrigado. O que me chamou atenção no episódio inteiro, além da entrevista em si (Alberto é um verdadeiro lord do teatro) foi o meu dia até a chegada deste momento.

Eu saio meio cedo do trabalho (os horários em uma redação são completamente diferentes de qualquer outro trabalho “normal”), então resolvi dar uma passada na Praça Roosevelt antes da hora marcada (também moro bem longe, tanto da praça quanto do jornal, o que faz com que eu precise planejar bem os meus compromissos, para não precisar passar o dia dentro de um ônibus). Passei na padaria Santa Efigênia (só de lembrar daquelas rabanadas… já tenho coisas), enrolei o quanto pude, mas minha ansiedade me pediu para ir caminhar.

Subi e desci a Rua da Consolação umas duas vezes. Em parte porque eu estava com remorso por causa das guloseimas que acabara de comer (ai, rabanadas…) e em parte porque eu realmente não fazia ideia de onde era a rua que o Alberto mora – embora ele tenha me explicado direitinho. Cerca de meia hora antes do combinado, já cansado de caminhar e com o dia já escuro, me enfiei em uma daquelas ruas que cruzam a Paulista e fiz uma das coisas que mais me dão prazer no mundo: sentei-me na calçada.

É incrível como as pessoas ficam alarmadas quando veem alguém fora de um trajeto pré definido. Eu estava ali, sentado em uma elegante rua da cidade, bem próximo a um elegante restaurante, lendo uma revista (tentando ler uma revista, afinal o dia já estava escuro e a luz do poste ain’t no luz do sol). Já era o suficiente para eu ser olhado meio torto por quase todos os que passassem. Ok, eu entendo completamente o medo que as pessoas têm de bandidos, ainda mais ali onde eu estava. Mas, céus! Este pavor tão descarado não deixa todo mundo muito mais vulnerável?

Levantei porque aquilo estava me incomodando (e a pessoa que passava à minha frente nesta hora quase saiu correndo de medo. Tsc tsc). Fiquei circulando pelo quarteirão. Daí foi outra coisa que chamou atenção. Conhecem o centrão? Não é muito longe dali. É só descer a Consolação ou a Augusta que a gente já chega lá. No entanto, a visão é completamente diferente. Lá em cima, na Paulista, Bela Cintra, Haddock Lobo, todo mundo bem vestido (ou quase), elegante (ou quase), importante (ou lutando para sê-lo). Lá embaixo, gente degradada, senhores com cartazes escrito “compro ouro”, sexo fácil – e barato. Lá em cima, os cults, alternativos que se orgulham por (em suas cabeças) não fazerem parte da massa, do povo. Lá embaixo, povo que é povo e só, que cruza a cidade para chegar ao trabalho – de balconista, limpador de vidro, operário.

Lá em cima, a estação Brigadeiro, a Paraíso, a Consolação. Lá embaixo, a República, a Anhangabaú, a Sé.

São contrastes – os tais contrastes de São Paulo. Mas, céus, não estamos a quilômetros e quilômetros de distância. Isso acontece a poucos quarteirões! Basta descer uma rua, apenas uma, para que o glamour da Paulista vire a sujeira da Ipiranga. Os michês do Trianon vão para as caras boates. Os da Praça da República… e precisa deles com aqueles cinemas pornô ali? Onde, a R$ 10, qualquer homem dá e come anonimamente numa sala escura.

No entanto, mesmo com esta proximidade destes extremos, o simples fato de uma pessoa, também bem vestida e sem nenhum dos estereótipos de bandido, sentar-se na calçada, já é suficiente para causar esta hostilidade gritante, embora silenciosa.

Nesta sociedade, cada um sabe do seu lugar. Não precisa ninguém ensinar.

Descer a consolação não é só descer uma rua. É imergir na história da cidade. É sair da modernidade do progresso da Paulista e ir rumo aos prédios antigos e degradados do centro. É ir intensificando as nuances da cidade – o mega abismo entre os carrões saindo dos prédios empresariais e os carrinhos de sucata dos mendigos. Mendigos estes que estão por todos os lados, em cima e embaixo. Disso ainda não se livraram ainda, dessa fome sem nome.

É neste contexto que fica a Praça Roosevelt.

Sabem o que ficou na minha cabeça depois disso? A Praça Roosevelt só virou este fenômeno do teatro underground porque ali esta monstruosidade é personagem. O teatro feito ali joga luz no absurdo que é esta prisão que é esta cidade: uma sociedade que não percebe a vida além de seu próprio e belo quarteirão. Talvez os cults lá de cima logo se cansem. Morrendo de medo de ser “do povo”, vão embora assim que a Praça perder o hype. Mas, felizmente, e Os Satyros já provaram isso, a arte gera transformações. E estas não vão embora na época que o hype termina.

A entrevista com o Alberto? Infelizmente não posso contar nada aqui. Nem gravada ela não foi. Mas saí de lá com uma sensação boa no coração: Alberto faz todos os dias este caminho, Consolação abaixo, tal como Rodolfo e Ivam também o faziam quando moravam naquele mesmo prédio. E toda esta observação das coisas… Não é à toa que fizeram o que fizeram com aquele lugar, a Praça.

Indignação nos faz pensar bastante. É daí que vem a arte.

Dado

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