O dia em que conheci Vinícius de Morais – e ele cantou ‘O Canto de Ossanha’ para mim (ou ‘Os cães da Praça Roosevelt, parte 1′)

Conheci dois mendigos na Praça Roosevelt no último dia 12, uma fria – e bota fria nisso – sexta, enquanto fuçava os fivros do Sebo do Bac.

Eram uma mulher e um rapaz. A mulher devia ter cerca de 1,60 m, cabelos raspados, uma blusa vermelha e, segundo ela, 39 anos (“Com essa cútis?”, perguntei, e ela: “É, mas com barriguinha de pochete”). Vestida com roupas simples, mas muito limpa.

Ela se apresentou, dizendo “Olá, eu sou Yvone, a mendiga mais chique de São Paulo”, e nos cumprimentou, se referindo a cada um como “moço bonito!”. Pediu um cigarro, um salgado, um dinheiro, uma cachaça, qualquer coisa. “Eu sou escritora, autora do livro Ninguém me quer: do Sergipe a São Paulo.” Eu, como sou chegado em gente com histórias pra contar, comecei a dar corda:

“Então você vem do Sergipe?”, “Venho. Meu pai abandonou a minha mãe. Viemos para São Paulo. Minha mãe conheceu meu padrasto. Fui estuprada pelo meu padrasto dos sete aos 14 anos…”, e por aí foi.

“Ainda peguei Aids. É mole?”

Enquanto falava comigo, o rapaz – que tinha chegado com ela – conversava com Anselmo (mas não recebia a mesma atenção que eu estava dando para Yvone). Dada a aparente impaciência do interlocutor, o rapaz começou a interromper a fala de Yvone. Ela ficou meio brava. “Puta merda, cara problemático. Olha só, eu sou prima desse moleque. Conheço ele desde que nasceu. Rapaz de 22 anos, problemático. 22 anos é assim mesmo, cara com problema.” Daí os dois começaram a gritar e ninguém mais conseguia se fazer compreender.

No meio da gritaria, só deu pra ver o rapaz levantar a barra de um dos lados da calça e mostrar a tatuagem feita na bela perna. “Isso aqui sou eu que desenho. Eu sou artista!”. Daí eu perguntei “Mas você tatuou em você mesmo?”, e ele, meio noiado “Eu fiz a metade e o outro fez a metade” – algo que eu não entendi muito bem, mas beleza. Alguns gritos depois, ele se cansou, levantou e saiu andando com um lado da calçca mais alto que o outro.

Yvone continuou comigo. “Vou escrever um negócio pra você. Um negócio bem chique. Vou te passar meu MSN e meu orkut.” Pegou um papel da mão do Anselmo e começou a rabiscar. “Toma. Lê”, me deu o papel. Mas quando fui guardar, ela disse “Lê agora!”. Li.

“Por favor, poderia me ajudar com um salgado?” No verso, dois endereços de MSN, um número de telefone, e a explicação: “Moradora de rua do Paissandu. Doença Grátis.”

– 

Guardei o papel. Ela pegou meu braço e fez a feição mais desesperada que pôde: “A Prefeitura fechou oito abrigos públicos. Acho que o Kassab quer abrir um brechó: toda noite vem alguém roubar nosso cobertor!”.

Antes de ir embora, um último apelo: “Se tiver um cobertor sobrando, uma blusa de frio, um cachecou, manda pra mim, vai! Eu moro ali atrás da floricultura.”

“Vê se pode? Com uma vida dessas, ainda tenho leucemia.”

“É um desses todo dia?”, perguntei para o Anselmo. “Deus que me livre! Se fosse, eu já tinha saído daqui”, disse, pegando o livro que estava lendo (Pornopopeia) e indo para dentro do teatro.

A confusão com a chegada desses dois foi meio bizarra, mas depois que Yvone foi embora, a conversa que tive com o rapaz rendeu bastante. Como eu me perdi um pouco no pensamento dele - o pobre estava visivelmente sob efeito de drogas -, vou colocar algumas das frases que me fizeram conversar com ele por quase uma hora:

“Cara, eu fiz uma coisa que eu sei que tá errada.”, “Me conta”, eu disse. “Eu tava comendo uma mina, daí eu falei ‘vou ali tomar um conhaque’. Peguei vinte conto na bolsa dela, peguei o cartão dela, deixei minha cueca lá, saí e ela deve estar esperando até agora.”

“Como assim? A que horas foi isso?” Ele explicou: “Foi meio-dia. Peguei ela na Augusta” “Era puta?” “Não, mas era dada. Queria dar pra alguém.” “E foi bom?” “Mais pra ela do que pra mim.”

“Me paga uma pinga aê. Tou há quatro noites sem dormir. Preciso de uma pinga.”

“Eu tenho casa. Moro em Higienópolis. Faço faculdade.”

“Minha mãe é a única que ainda acredita em mim.”

Perguntei: “E porque você não vai para a sua casa?”

Ele diz: “Porque minha mãe não vai abrir a porta pra mim.”

E continua: “Por causa da droga.”

“Meu nome é Vinícius de Moraes. ‘Pergunte pro seu orixá: o amor só é bom se doer’. Tou te zuando. É Marcos Vinícius de Moraes.”

“Tem gente que não acredita. Eu faço viagem astral”

O que mais me deixou com pena: “Sabe, eu estou conversando aqui com você porque você me dá atenção.”

O que me fez rir contente: “Comprei essa rosa pra dar de presente pra uma mina. Porque é bom, né, fazer uma gentileza. As meninas gostam. Aquela ali é gatinha, né?”. Eu disse “Gostou? Vai lá, dá a rosa pra ela!” Ele foi. Ficou uns minutos lá. Deu a minha hora. Entrei no teatro.

Quando saí, duas horas depois, ele ainda estava conversando com a menina. Ela tinha a rosa na mão.

Sorri pra ele, como quem diz “ehe, garanhão”, mas acho que já não lembrava mais de mim.

Dado

3 Comentários »

  1. Marcos 'Pablito' Disse:

    Gente, que coisa!

    Eu, só de ler esta história, fiquei comovido! Imagino você… Sabe que nunca conversei com pessoas com histórias assim e olha que eu adoro quem tem histórias para contar!

    Belo post.

  2. Não consigo parar de ler!!!!
    Amei
    bjus

  3. [...] Fotografar a praça não foi das atividades mais simples, ainda mais depois de descobrir que nem todos os mendigos de lá saem recitando Vinícius de Moraes para a gente. [...]


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