Arquivo paraMaio, 2009

Um alô, Liz e Além do Horizonte

Caros assíduos leitores do In Utero (pai, mãe, professor orientador, um beijo),

Passei só para dar um alô e dizer que ainda estamos vivos. Seguinte: hoje Os Satyros estreiam Liz, no Sesc Avenida Paulista. Não tem mais ingressos há um tempão. Quando eu liguei, na segunda-feira, só tinha oito lugares (!) para a apresentação de sábado. Desta vez, não vi os ensaios. Mas assim que eu ver a peça e trocar umas figurinhas com o Rodolfo e com o Ivam, posto aqui o que eu achei.

Para quem quiser ir: Sesc Avenida Paulista. Av. Paulista, 119, tel. 0/xx/11/3179-3700. As apresentações serão nas sextas, sábados e domingos, às 21h30min, até o fim do mês. Os ingressos custam de R$ 5 a R$ 20. Já vou adiantando: a estreia está esgotada. Mas tem para os outros dias.

Domingo tem outra estreia dos Satyros, mas em vez dos palcos, esta é na TV: a minissérie Além do Horizonte, na TV Cultura, como parte do Projeto Direções. O roteiro é de Ivam Cabral e a direção, de Rodolfo Garcia Vázquez. Domingo, às 22h. São quatro episódios.

Enfim. Por aqui, as pesquisas continuam a todo vapor. Em breve, o In Utero começa uma série de posts sobre a Praça Roosevelt e sobre as peças A Filosofia na Alcova e Os 120 dias de Sodoma.

Até lá.

Dado

Desnudando Justine

Blasfêmia?; O trovão; A nova Juliette (ou ‘Desnudando Justine, partes 11, 12 e 13′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

ATENÇÃO: SPOILERS!

Chegamos hoje à última parte do Desnudando Justine. Se você ainda não viu a peça e não quer saber do final antecipadamente, não leia!

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Lá no começo do livro, quando Justine/Sofie vai começar a contar sua história, visto que reluta a contar, diz:

Contar-vos a história de minha vida (…) é oferecer-vos o exemplo mais flagrante das desgraças da inocência e da virtude. É acusar a Providência, não é queixar-se, é uma espécie de crime e não me atrevo…

Depois de tanto sofrer involuntariamente, sequer contar sua história Sofie quer. Veja: Sofie não quer pecar ao contar dos próprios atos da Providência – os próprios atos divinos em sua vida a obrigariam a blasfemar e ela não quer. Veja como Sofie se defende do próprio deus em quem ela acredita. Apesar de ocorrer no comecinho do livro, na linha do tempo este é um dos últimos fatos.

Ela acaba cedendo e conta toda a lista de infortúnios que já vimos em Desnudando Justine. Porém, agora no fim da nossa jornada, devo ressaltar que o livro possui várias versões. A que vocês viram aqui no In Utero é apenas uma. Foi mais ou menos a utilizada pelos Satyros, com inserções das outras, como a moça que abre a narrativa, falando que a história que se segue deve ajudar a ponderar sobre os Vícios e as Virtudes. E o fim também. Mas já chego lá.

Justine/Sofie termina o relato de sua vida para a Madame de Lorsange. O dia amanhece e ela já espera pela sua morte certa.

Não a temo mais; ela abreviará meus tormentos, acabará com eles. Só pode temê-la o ser feliz cujos dias correm puros e serenos. Mas para a desgraçada criatura que só pisou em cobras, cujos pés sangrentos só percorreram caminhos espinhosos, que só conheceu os homens apenas para odiá-los, que só viu o facho do dia apenas para detestá-lo, aquela a quem reveses cruéis roubaram os pais, fortuna, socorro, proteção, amigos; aquela que nada tem no mundo senão lágrimas para beber e tribulações para nutrir-se… esta, eu vos digo, deve dirigir-se para a morte sem tremer; ela a deseja como a um porto seguro onde a tranqüilidade renascerá para ele no seio de um deus justo demais para permitir que a inocência aviltada e perseguida nesta terra não encontre um dia, no céu, a recompensa pelas suas lágrimas.

Note que, apesar de ter perdido completamente a esperança no mundo, ela não perde a ideia de que sua próxima vida, no céu, será bem melhor. Esta certeza, como vimos, levou Justine/Sofie a deixar de tomar muitas atitudes durante seu caminho.

A Madade de Lorsange e o Senhor de Corville, seu marido, ficaram comovidos. Juliette/Lorsange, mesmo com tantos crimes da juventude, não perdera a sensibilidade. Por causa de um sentimento inexplicável, Lorsange se sentia ligada a Sofie.

Vós me haveis ocultado vosso nome, Sofie, e também vosso nascimento; eu vos imploro para que me reveleis vosso segredo. Não imaginai que seja apenas vã curiosidade que me leva a falar-vos assim. Se o que suspeito é verdade … Oh, Justine, se fôsseis minha irmã!

— Justine … madame, que nome!

— Ela hoje teria vossa idade.

— Oh, Juliette, é a vós que escuto, disse a infeliz prisioneira lançando-se nos braços da Senhora de Lorsange, tu… minha irmã! Oh, meu Deus, como blasfemei. Duvidei da Providência… Ah, morrerei bem menos infeliz pois pude abraçar-te mais uma vez.

As duas se abraçaram aos prantos. O Senhor de Corville, também emocionado, saiu do aposento para escrever uma carta atestando a inocência de Justine, utilizando a sua rede de contatos.

Até que o caso fosse completamente esclarecido, Justine ficaria sob a guarda do Senhor de Corville, em seu castelo, junto com a irmã, Juliette.

Justine passou a ser a pessoa mais paparicada da casa, tudo para apagar de sua vida os dias ruins. Os melhores pratos, as melhores camas… Juliette e o marido não poupavam esforços para fazê-la feliz. Até a famigerada marca feita por Rodin foi feita desaparecer, pelas mãos de um artista. O sofrimento já sumia do rosto de Justine – e as cores voltavam. Sua virtude resplandecia como nunca.

Depois de um tempo, o Senhor de Corville conseguiu finalmente limpar a barra de Justine. Nenhuma acusação, tudo resolvido.

Mas o estado de espírito de Justine mudou de repente. Sombria, inquieta, chorosa:

Não nasci para tanta felicidade, dizia ela às vezes para a Senhora de Lorsange… Oh, minha querida irmã, é impossível que ela possa durar.

Era como se, acostumada a ter um pouco de bem antes de muito mal, já prevesse um destino ainda mais cruel.

Até que um dia, na casa de campo, arma-se uma terrível tempestade. Juliette morre de medo de raios. Justine vai fechar uma das janelas, lutando contra o vento.

Então um clarão.

Justine é atingida por um raio, que a joga sem vida no meio do salão.

Aqui nós temos algumas versões. Em uma delas, o raio entra pelo seio direito e sai pela boca, desfigurando seu rosto. Na outra, o raio entra pela boca e sai pela vagina (o que gera a piadinha entre os libertinos de que os céus teriam poupado o traseiro de Justine). Numa terceira versão, enquanto ia à missa, Justine é atingida por um raio que não a poupa como o anterior: rompe da boca ao ânus. Em outra, o raio entra pelo seio e sai pelo ventre (não sem deixar a cara desfigurada).

O Senhor de Corville não quer deixar que a esposa veja a irmã daquele jeito, mas Juliette quer a todo custo:

(…) Deixa-me vê-la por um instante. Tenho necessidade de contemplá-la para me dar forças na resolução que tomei; escutaime, senhor, e não recuseis a atitude que vou tomar e da qual nada no mundo me fará desistir.

As desgraças inauditas que essa infeliz sofreu, embora tenha sempre respeitado a virtude, têm qualquer coisa de extraordinário, senhor, para que eu não abra os olhos para mim mesma. Não imagineis que esteja cega aos falsos brilhos de felicidade que vimos desfrutar durante suas aventuras aqueles perversos que a atormentaram. Estes caprichos da sorte são enigmas da Providência que não devemos desvendar, mas que jamais nos devem seduzir; a prosperidade do perverso não é senão uma prova à qual a Providência nos submete, ela é como o raio cujos fogos ilusórios embelezam por instantes a atmosfera apenas para precipitar nos abismos da morte os infelizes a quem fascina… Eis aí o exemplo aos nossos olhos; calamidades seguidas, desgraças espantosas e ininterruptas desta jovem infeliz são um aviso que o eterno me dá de me arrepender dos meus erros, de escutar a voz dos meus remorsos e de lançar-me, enfim, nos seus braços. Que tratamento devo eu temer dele, eu… cujos crimes vos fariam tremer, se os conhececeis… ou cuja libertinagem, irreligião, abandono de todos os princípios marcaram cada instante da vida… o que devo esperar, se é assim que tratam aquela que não cometeu um único erro voluntário que lhe trouxesse o arrependimento.

Separemo-nos, senhor, chegou a hora… nenhum elo nos liga, esquecei de mim e concordai que eu siga um atalho eterno para abjurar aos pés do ser supremo as infâmias com que me conspurquei. Este golpe terrível para mim era, não obstante, necessário para minha conversão nesta vida, e para a felicidade que ouso esperar na outra. Adeus, senhor, não mais me vereis. O último sinal que espero da vossa amizade é o de que não façais nenhuma indagação para saber o que aconteceu comigo; espero-vos num mundo melhor, vossas virtudes devem conduzi-lo até ele e possam as macerações do lugar onde vou, para expiar meus crimes, passar os anos infelizes que ainda me restam, permitir-me rever-vos um dia.

Juliette faz as malas, pega algum dinheiro e parte para o Convento das Carmelitas, em Paris. Lá, se torna exemplo de costumes e sabedoria.

O Marquês de Sade, tido como tão libertino, encerra a narrativa assim:

Oh, vós que ledes esta história, possais tirar dela o mesmo proveito que aquela mulher mundana e corrigida; possais convencer-vos com ela que a verdadeira felicidade está somente no seio da virtude, e que se Deus quer que ela seja perseguida na terra, e para preparar no céu a mais faustosa recompensa.

Esta seria uma versão mais branda, visto que Deus é defendido. Assim, a morte de Justine seria realmente uma recompensa (Deus – o raio – entra pelo peito e sai pela boca: toda a fé – peito – de Justine era proferida a quem quisesse fazer o mal – boca). Nas outras versões, porém, o raio é a natureza, e Justine é um mero objeto: os próprios raios a atacam de maneira libertina e Justine é punida por não se submeter às leis da natureza (a libertinagem).

O fim utilizado pelos Satyros é o que o raio entra pela boca e sai pela vagina. Justine é enterrada de forma a não deixar vestígios no mundo: sobre o túmulo são plantadas sementes e grama volta a crescer. A vida continua e pronto.

Destaque para a expressão de terror de Justine (Andressa Cabral) ao ser atingida pelo raio – a cena é repetida três vezes, uma para a esquerda, uma para a direita e uma para a plateia, num incrível jogo corporal – Andressa se contorce toda, feito quem tem convulsões).

No fim, já sem ninguém no palco, há um estrondoso som de trovão. Seria Deus no teatro?

Enfim, caros leitores, quem ainda não foi, corram. Vale super a pena. Quem foi, vá de novo. A gente do In Utero mesmo estamos prestes a ir novamente (soube que haveria novidades na montagem).

Termino esta série com as palavras do próprio Rodolfo García Vázquez, diretor da peça, em seu blog:

Justine é:

A Família que não é familiar.

A Justiça que não é justa.

O Amor que não ama.

A Empresa que não empreende.

O Deus que não é divino.

O Poder que não permite ao Outro poder.

A dor que não para de doer.

A dor. Devo dizer: pelo menos algo na vida de Justine é legítimo – e inquestionável.

Dado