1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette
Antes de passar para a segunda parte do nosso relato, duas observações:
Primeira: JUSTINE ESTREIA HOJE! às 21h, no Espaço dos Satyros Dois (Praça Roosevelt, 214)
Segunda: no post de ontem, me esqueci de falar sobre a chegada de Juliette à casa da Senhora du Buisson, onde ela aprenderia suas lascivas artes. Coisa simples: a cortesã-mor interroga Juliette quanto à sua virgindade e seus tratos pessoais. O surpreendente está na transposição disso para o palco: a Senhora du Buisson é uma matrona monstrenga, de duas cabeças – um enorme vestido vermelho e preto, largo o suficiente para que as atrizes Luana Tanaka e Marta Baião fiquem lá dentro. Du Buisson é afetadíssima, papel que Marta faz de maneira hilariante. Luana vai no embalo e não faz nada feio – elas fazem parecer que as duas cabeças realmente têm, de fato, a mesma personalidade. Na hora de verificar a pureza da moça (“Mas é que às vezes, nesses conventos um capelão… uma religiosa, uma amiga … preciso ter provas seguras”), pula de trás de Du Buisson um criado, baixinho, pulando e rastejando pelo chão, mais ou menos como um Smeagol, de O Senhor dos Anéis, após ter tomado uns dois litros de café. É este criado que atesta a virgindade da moça. Hilário. (aliás, já não é a primeira vez que a baixa estatura do Robson é explorada em um de seus papéis, como podemos comprovar neste vídeo - falarei mais sobre estre criado assim que eu abduzir uma foto dele).
Enfim, voltemos ao nosso relato.
Diz Justine:
Um usurário na minha infância quer obrigar-me a cometer um roubo; recuso e ele fica rico, enquanto eu fico às vésperas de ser enforcada.
A dona do lugar onde Justine está primeiramente hospedada sugere que ela procure a casa do Senhor du Harpin, onde certamente será acolhida como criada. É o que Justine faz. O Senhor du Harpin é um velho agiota que enriquecera emprestando por penhora e roubando seus clientes. Vivia com a amante, a quem chamava de esposa, no primeiro andar de um prédio na Rua Quincampoix. Foi na ocasião de se apresentar a ele que Justine passa a usar o nome de Sofie.
Justine/Sofie logo é colocada a par das regras da sovinice que imperam naquela casa: deve receber alguns gramas de pão por dia, apenas. Água, meia garrafa, da que vem do rio. Sopa? Como assim, sopa? “Sofrei com o progresso do luxo. Há um ano isso aí procura colocação, morre de fome há um ano e quer tomar sopa.” Não se toma vinho na casa, visto que a água é uma bebida natural e a única que a natureza recomenda ao organismo. Bater panos nos móveis para tirar o pó? Jamais – isso desgasta o tecido. Nada de acender luz também, afinal a janela é de frente para o lampião da rua. O serviço era quase nada:
Trata-se apenas de limpar e arrumar três vezes por semana este apartamento de dez peças, arrumar a cama de minha mulher e a minha, atender a porta, cuidar do cão, do gato e do periquito, e tratar da cozinha, lavar seus utensílios, quer sejam usados ou não, ajudar minha mulher quando faz a comida e empregar o resto do dia a cuidar da roupa branca, meias, toucas e dos outros pequenos móveis. Vedes bem que não é nada Sofie, e ainda vos sobrará muito tempo o qual vos permitiremos de usar por vossa conta.
Também não se usava toalha de mesa, guardanapos e afins, visto que a lavagem de roupa é muito cara e os tecidos se desgastam. O pão era sempre cortado com um prato embaixo, para que as migalhas, acumuladas da semana, fossem fritas com manteiga rançosa e nada fosse jogado fora. Nem mesmo o talco para toilette era comprado: raspavase a parede para obter tal iguaria.
O pagamento era de miséria. Sofie tem consciência de que o trabalho e mais do que suas forças permitem e o pagamento, menos do que seria necessário para viver, mas também tem consciência de sua situação, e aceita.
E que nada sumisse da casa, se não Sofie seria decapitada. “Mas decapitada até a morte, ouviu?”
Justine/Sofie começa a notar que a origem da riqueza do Senhor du Harpin é senão um desejo de multiplicar seus próprios bens a partir da aprorpiação do que não lhe é devido. Isso fica ainda mais claro quando o casal começa a divagar sobre as riquezas de seu vizinho, do apartamento de cima, principalmente uma caixa cheia de ouro:
Após ter-me feito um enorme discurso sobre a indiferença do roubo, sobre a própria utilidade que ele tinha na sociedade, pois restabelecia uma espécie de equilíbrio que desarranja totalmente a igualdade das riquezas, o Senhor du Harpin me deu uma chave falsa, assegurou-me que ela abriria o apartamento do vizinho, que eu encontraria a caixa numa secretária que jamais estava fechada, que eu a tiraria sem qualquer perigo e que por um perigo assim tão essencial eu receberia durante dois anos um escudo sobre meus salários.
Ao que Justine/Sofie questiona:
Oh, senhor, exclamei, é possível que um patrão ouse corromper assim sua empregada? Quem me impede de voltar contra vós as armas que me pondes na mão e o que terieis a objetar-me de razoável se eu vos roubasse segundo vossos princípios?
O Senhor du Harpin disfarça, dizendo que tratava-se de um teste, para que ele soubesse exatamente o caráter da criada que ele colocava dentro de casa. Que bom que Sofie não se corrompia fácil. Que permanecesse assim, ou seria certamente enforcada.
Algum tempo depois, porém, Justine/Sofie acorda assustada, com o quarto sendo invadido por soldados – e, sim, o Senhor du Harpin.
Acusavam-na de roubo. Qual não foi a surpresa de Justine/Sofie quando um dos soldados realmente encontra no quarto um anel da Senhora du Harpin.
Sofie é levada presa.
No palco, há uma presença maior da Senhora du Harpin, interpretada por Gisa Gutervil, cheia de pelúcia, uma representação perfeita dessas peruas da alta sociedade, involuntariamente travestidas de yorkshires na tentativa de parecerem elegantes. Na grande colagem de referências traçadas na peça, as cenas ganham um tom de Commedia Dell’Arte: quando Sofie começa sua labuta, tendo que se dividir em várias, é o que acontece no palco: quatro meninas vestidas iguais, cada uma com seu aspirador de pó ou enceradeira, se espalham para mostar o tamanho do serviço da empregada. Assim como a esposa, o velho, vivido por Ruy Andrade, também é bem caricato, com sua bengala, sua peruca desgrenhada e a cordunda ao andar.
É adicionada uma parte que é apenas sugerida no original: o julgamento. O mesanino presente no porão onde funciona o Espaço dos Satyros Dois é usado como júri. Enquanto Sofie tenta se defender, os próprios jurados desferem xingamentos (o mais engraçado vem de uma das moças: “sua latifundiária!”).
Na boca do juiz (Rodrigo Souza), vai uma ideia que aparece entre os pensamentos de Justine:
Aqui acredita-se que a virtude é incompatível com a miséria e, nos nossos tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado. Uma prevenção injusta ali faz crer que aquele que devia cometer o crime, cometeu-o, os sentimentos ali se medem pelo estado em que vos encontrais e assim como os títulos ou a fortuna não provam que deveis ser honesto, a impossibilidade que o sejais torna-se demonstrada imediatamente.
E mais: por que Sofie seria inocente se ela não possui nada? Quem não possui nada não tem o desejo de possuir?
Nem adianta ela dizer que tal feito era uma represália por ela não querer tomar parte no plano do roubo da caixa do vizinho. Para os soldados, é apenas uma artimanha para se safar.
O Juiz dá o veredito (o martelo que ele utiliza é um pênis de plástico. De tamanho bastante avantajado, eu diria). Justine/Sofie vai presa.
É na cadeia que ela conhece Du Bois.
Dado

Desnudando Justine « In Utero Disse:
on 04/05/2009 at 9:13
[...] fim da Trilogia Libertina 1 Vícios e Virtudes 2 Senhor du Harpin, o velho sovina 3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões 4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu [...]