O fim da Trilogia Libertina (ou ‘Desnudando Justine, parte zero’)

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Justine estreia terça, dia 21, às 21h. Também estará em cartaz às quartas, no mesmo horário. Espaço dos Satyros Dois (Praça Roosevelt, 214). Dessa vez, roubei a imagem do blog do Robson, com quem bati um papo na última quinta (“Foi você que quase atropelou o Rodolfo?”). Tem no blog do Henrique também.

Trata-se do fim da Trilogia Libertina, baseada na obra do Marquês de Sade. O projeto foi inaugurado com Sades ou Noites com Professores Imorais, em 1990 (mais tarde rebatizada como A Filosofia na Alcova, tíulo da obra original). Em 2006, os Satyros estreiam 120 Dias de Sodoma.

Enfim.

Passei o fim de semana lendo o original, Justine ou Os Infortúnios da Virtude, para saber exatamente do que se trata. Quanto mais eu lia, mais me surpreendida com a forma com que a obra foi adapta para o palco, conforme eu vi nos ensaios.

Como o In Utero é o blog de um livrorreportagem sério, nossos assíduos leitores (pai, mãe, professor orientador, um beijo) vão conferir os apontamentos acerca do trabalho todo. Mãos à massa.

Antes, porém, é bom mostrarmos a forma como isso será feito. Separei um trecho do livro no qual a própria Justine relembra seus infortúnios. Ela não deixa nenhum de lado. Lá vai:

“Sob que estrela fatal nasci para que me tornasse impossível conceber um só sentimento virtuoso sem que fosse logo seguido por um dilúvio de males? Como pode ser que essa Providência esclarecida cuja justiça me comprazo em adorar, ao me punir pelas minhas virtudes, ao mesmo tempo oferece a glória para os que me esmagam com seus vícios? (1) Um usurário na minha infância quer obrigar-me a cometer um roubo; recuso e ele fica rico, enquanto eu fico às vésperas de ser enforcada (2). Ladrões querem violar-me no bosque porque não desejo acompanhá-los (3), eles prosperam e eu caio nas mãos de um marquês devasso que me dá cem chibatadas com nervo de boi por não querer envenenar sua mãe (4). Dali vou parar na casa de um médico a quem salvo de cometer um crime execrável; o carrasco, para recompensar-me, me mutila, me marca e manda embora (5). Seus crimes se realizam, sem dúvida, ele faz fortuna e eu sou obrigada a mendigar meu pão. Quero aproximar-me dos sacramentos, quero implorar fervorosamente ao ser supremo que me envia tantas desgraças,o augusto tribunal onde espero purificar-me num dos mais santos dos nossos mistérios, torna-se o mais terrível teatro da minha desonra e da minha infâmia (6). O monstro que abusa de mim e que me desonra, recebe sem demora as maiores honrarias enquanto eu caio novamente nos abismos horríveis da minha miséria. Quero ajudar um pobre, e ele me rouba. Ajudo um homem desfalecido, o perverso faz-me girar uma roda como besta de carga (7). Esmaga-me com chicotadas quando as forças me faltam, todos os favores da sorte lhe são dados e estou prestes a perder a vida por ter trabalhado a força para ele. Uma mulher indigna quer seduzir-me para um novo crime (8) e torno a perder os poucos bens que possuo para salvar a fortuna de sua vítima (8,5) e para evitar sua desgraça. O infeliz quer recompensar-me dando-me seu nome e expira nos meus braços antes que possa fazê-lo. Exponho-me a um incêndio para salvar uma criança que não é nada minha (9) e eis-me pela terceira vez sob o gládio da Têmis. Imploro a proteção de um desgraçado que me desonrou (10), ouso esperar que ele se sensibilize com o excesso dos meus infortúnios e novamente ao preço da minha desonra é que o bárbaro me oferece ajuda. Oh, Providência, será que eu sou obrigada por fim a duvidar da tua justiça? Que outros flagelos maiores ter-seiam abatido sobre mim se, a exemplo dos meus perseguidores, eu tivesse sempre adulado o vício? (11)

Com base nisso, enumerei as etapas para facilitar a contagem da história e a compreensão das ideias contidas em cada uma. São as seguintes:

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

Assim sendo, nos próximos dias, começo a dissecar o caso – não da mesma maneira que o doutor Rodin, calma. Vou aproveitar para comentar a forma que isso tudo foi adaptado para o teatro.

Enfim, nos vemos nos próximos posts – ou no dia da estreia, lá nos Satyros Dois. Quero ver todo mundo lá.

Dado

1 Comentário »

  1. [...] 0 O fim da Trilogia Libertina 1 Vícios e Virtudes 2 Senhor du Harpin, o velho sovina 3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões 4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens 5 Senhor Rodin, o médico 6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos 7 Dalville, o falsário, e o moinho 8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima 9 Senhora Bertrand 10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento 11 Blasfêmia? 12 O trovão 13 A nova Juliette [...]


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