Arquivo paraAbril, 2009

Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima; Senhora Bertrand; Padre Rafael (parte 2) e o julgamento (ou ‘Desnudando Justine, partes 8, 9 e 10′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento

11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

justine4_Justine chega à parte final de seu relato. Como na peça, estas três partes são uma só, contemos tudo junto.

Nos diz a infeliz virtuosa:

Uma mulher indigna quer seduzir-me para um novo crime e torno a perder os poucos bens que possuo para salvar a fortuna de sua vítima e para evitar sua desgraça. O infeliz quer recompensar-me dando-me seu nome e expira nos meus braços antes que possa fazê-lo. Exponho-me a um incêndio para salvar uma criança que não é nada minha e eis-me pela terceira vez sob o gládio da Têmis. Imploro a proteção de um desgraçado que me desonrou, ouso esperar que ele se sensibilize com o excesso dos meus infortúnios e novamente ao preço da minha desonra é que o bárbaro me oferece ajuda.

Justine/Sofie reencontra Dubois num albergue. A mulher novamente se mostra a maior tentadora das virtudes de Justine – repare que, antes de fazer mal a Justine, Dubois a convida para tomar parte em seus planos. Oferece argumentos que balançam a fé de Sofie.

A criminosa agora se intitula baronesa e, pelo visto, sua fortuna foi construída sobre atitudes nada louváveis. Em nenhum momento a ótica de Sade aparece tão clara quanto aqui:

(…) Não é a escolha que o homem faz do vício ou da virtude, minha querida, que o faz encontrar a felicidade, pois a virtude não é, como um vício, senão um modo de se portar no mundo. Não se trata, portanto, de seguir um e não o outro, trata-se apenas de trilhar o caminho geral; aquele que se afasta dele, sempre erra. Num mundo inteiramente virtuoso, eu te aconselharia a virtude porque as recompensas a acompanhariam; a felicidade infalivelmente adviria dela; num mundo totalmente corrompido, jamais te aconselharia outra coisa senão o vício. Aquele que não segue o caminho dos outros perece inevitavelmente, tudo o que ele encontra o prejudica, e como é o mais frágil, é preciso, necessariamente, que seja vencido.

É em vão que as leis queiram restabelecer a ordem e repor o homem no caminho da virtude; pervertidas demais para consegui-lo, fracas demais para ter êxito, elas o afastam por instantes do caminho aberto, mas jamais o farão abandoná-lo. Quando o interesse geral dos homens as levar à corrupção, aquele que não se quiser corromper com eles lutará contra o interesse geral; ora, que felicidade esperam aqueles que contrariam eternamente o interesse dos outros? Dir-me-ás que é o vício que contraria os interesses dos homens; concordarei contigo quanto a um mundo composto de partes iguais de depravados e virtuosos, porque então o interesse dos primeiros se choca visivelmente com o dos outros, mas não é assim numa sociedade totalmente corrompida; meus vícios, então, não ultrajando senão os depravados, determinam nele outros vícios que os recompensam e ambos ficamos felizes. A vibração torna-se geral, é uma enorme quantidade de choques e lesões mútuas, onde cada um, recuperando imediatamente o que acaba de perder, vê-se sempre numa posição agradável. O vício não é perigoso senão para a virtude, porque, frágil e tímida, ele jamais ousa alguma coisa, mas se ela for banida da terra, o vício, não afrontando senão os depravados, não perturbará mais ninguém, fará eclodir novos vícios, mas não se alternará com as virtudes.

Objetar-me-ás com os bons efeitos da virtude? outro sofisma, eles servem somente ao fraco e são inúteis àquele que, pela sua energia, basta-se a si mesmo e que não necessita da sua sagacidade senão para corrigir os caprichos da sorte. Como queria que tudo te desse certo durante toda a tua vida, minha querida filha, se tomavas sempre o caminho contrário ao de todo mundo? Se te tivesses deixado levar pela corrente, terias encontrado o porto como eu. Aquele que deseja remar contra a corrente chegaria lá em cima com a mesma rapidez daquele que desce? Um quer contrariar a natureza, o outro se entrega a ela. Sempre me falas da Providência, e quem te prova que ela ama a ordem e, por conseguinte, a virtude? Não está ela sempre te dando exemplos dessas injustiças e dessas irregularidades? É enviando aos homens a guerra, a peste e a fome, e tendo formado um universo pervertido em todas as suas partes, que ela manifesta aos teus olhos seu extremo amor pela virtude? E por que queres que as pessoas depravadas a desagradem, já que ela própria age apenas pelos vícios, que tudo é vício e corrupção, que tudo é crime e desordem na sua vontade e nas suas obras?

E, ademais, de quem recebemos estes impulsos que nos impelem para o mal? Não é sua mão que no-los dá, haverá uma só vontade nossa, ou sensação nossa, que não venha dela? Será então razoável dizer que ela nos abandonaria ou nos daria inclinações para uma coisa que lhe seria inútil? Se, portanto, os vícios a servem, por que desejaríamos combatê-los, por que direito agiriamos para destruílos e quem diz que resistiríamos à sua voz? Um pouco mais de filosofia no mundo logo poria tudo no seu devido lugar e faria ver aos legisladores, aos magistrados, que estes vícios que eles acusam e castigam com tanto rigor, têm às vezes um grau de utilidade bem maior que essas virtudes que pregam sem jamais recompensá-las?

— Mas quando eu tiver a fraqueza, madame, (…) como conseguirieis abafar o remorso que a cada momento nasceriam no meu coração?

— O remorso é uma ilusão, Sofie, redargüiu a Dubois, ele não passa do murmúrio imbecil da alma fraca demais para ousar eliminá-lo. (…) só nos arrependemos daquilo que não estamos acostumados a fazer. Repete freqüentemente o que causa remorso e conseguirás eliminá-lo; enfrenta-o com o facho das paixões, com as leis poderosas do interesse e logo o terás dissipado. O remorso não prova o crime, mas indica somente uma alma fácil de subjugar. Se houver uma ordem absurda que te impeça de sair imediatamente deste quarto, tu não sairás daqui sem remorso, embora seja certo que não farás mal algum em sair.

Portanto, não é verdade que somente o crime é que causa remorso; convencendo-se da nulidade dos crimes ou da sua necessidade com relação ao plano geral da natureza, seria portanto possível vencer tão facilmente o remorso que se teria em cometê-los, como te seria fácil abafar aquele que nasceria da tua saída deste quarto após a ordem ilegal que terias recebido para aqui ficar. É preciso começar com uma análise exata de tudo o que os homens chamam de crime, começar por convencer-se que estes não passam de uma infração das suas leis e dos seus costumes nacionais, que eles assim caracterizam; o que chamamos de crime na França, deixa de sê-lo a algumas léguas dali, que não existe nenhuma ação que seja realmente considerada como um crime universalmente em toda a terra, e que, em conseqüência, nada no fundo merece razoavelmente o nome de crime, que tudo é uma questão de opinião e de geografia.

Dito isto, é portanto absurdo querer se submeter à prática das virtudes que não passam de vícios em outros lugares, e a fugir de crimes que são boas ações em outros climas. Pergunto-te agora se este exame feito com reflexão pode causar remorso naquele que, por seu prazer ou por seu interesse, tenha cometido na França uma virtude da China ou do Japão que, todavia, a desonrará em sua pátria. Será que ele se deterá diante dessa vil distinção, e se for um pouco filosófico, será ele capaz de lhe causar remorso? Ora, o remorso só existe por causa da defesa, surge por causa do rompimento dos freios e não por causa da ação; será sensato deixá-lo subsistir em si, não será absurdo não eliminá-lo sem demora?

(…)

— E não credes que a justiça divina recebe num mundo melhor aquele a quem o crime não assustou neste?

— Creio que se existisse um deus, haveria menos males na terra; creio que se o mal existe na terra, ou estas desordens são exigidas por esse deus, ou então ele não tem forças para impedi-las; e não temo um deus que é apenas fraco ou perverso, enfrento-o sem medo e rio-me dos seus raios.

Dado o discurso, Dubois ofecere dinheiro pela ajuda de Sofie. Justine/Sofie concorda apenas para ouvir os planos da mulher e tentar impedir (mais uma mentirinha em nome do bem). Trata-se do jovem negociante, Dubreuil (Diogo Moura). O rapaz está hospedado no albergue e confidenciou à “baronesa” Dubois que está apaixonado por Sofie. Suposta alcoviteira, Dubois prometeu intervir, mas está de olho mesmo é na grana do maroto, que fica escondida ao lado de sua cama.

Dubois já combinara tudo de antemão: Sofie sairia para passear com Dubreuil e, enquanto estivesem fora, invadiria o quarto dele, roubaria todo o ouro, despacharia para outra cidade, mas ainda não fugiria: ficaria no albergue para fingir que ajuda o moço a encontrar os pertences roubados. Só depois de apagar as suspeitas é que as duas fugiriam juntas.

Sofie ouviu tudo, decidida a contar a Dubreuil assim que se encontrassem.

Mas…

(…) se Dubreuil está apaixodo por mim, não posso conseguir mais dele avisando-o ou me vendendo a ele, do que podeis oferecer-me para traí-lo?

— É verdade, disse a Dubois, na verdade começo a crer que o céu te deu mais arte do que a mim para o crime. Está bem, continuou ela escrevendo, eis aqui minha nota de mil luíses, atreve-te a recusar agora.

Isso foi só um teste para Dubois. Não era a intenção de Sofie.

A moça então começa a conversar com Dubreuil e percebe logo sua afeição. Os dois foram ficando próximos conforme os dias foram passando. Até que chegou a data do tal passeio. Antes de deixarem o albergue, porém, o casal jantou no quarto de Dubois.

Mal saem para a rua e Sofie conta o plano de Dubois. Vai, Dubreuil, não deixe o quarto abandonado. Faça com que alguém esteja lá enquanto saímos.

Muito grato, Dubreuil deixa um amigo no quarto e os dois partem para o passeio. É nesta hora que ele a pede em casamento.

Sofie fica nas nuvens. Finalmente sua sorte iria mudar. Porém, no meio do passeio, após percorrerem duas léguas, Dubreuil começa a sentir dores e a vomitar horrivelmente.

De volta ao albergue, o diagnóstico do médico: envenenamento. Pânico. Sofie procura Dubois – ela já fugiu, após arrombar os armários do quarto de Sofie, em vingança, levando seus pertences e dinheiro.

Dubois planejara tudo: antes do passeio, envenenara a comida de Dubreuil (que jantaraem sua casa) para que ele, ao retornar e encontrar seus pertences roubados, só se ocupasse em tentar salvar a própria vida.

Dubreuil defende Sofie enquanto agoniza. Proíbem que a persigam, atesta sua inocência.

Desgraçada criatura que eu sou, será preciso que a felicidade só me seja oferecida para que eu sinta mais intensamente a tristeza de jamais poder alcançá-la?

O filme de Sofie não fica dos melhores. Apesar da palavra de Dubreuil a favor dela, antes de morrer, não havia mais nada que provasse sua inocência. Ao contrário: ela estivera com o rapaz antes dos fatos que o causaram óbito.

Assim sendo,ela decide partir. O amigo de Dubreuil lhe dá algum dinheiro e indica uma mulher a Sofie, a quem ela poderá pedir trabalho como criada. É uma comerciante que está no albergue, indo de volta para Chalon-sur-Saône após alguns dias de negócios. É a Senhora Bertrand.

Bertrand (Gisa Gutervil) tem uma filha pequena, de 18 meses, que ainda mama no peito. Sofie fica muito apegada à bebê e tem uma boa relação com Bertrand, que é meio grossa, meio tagarela. Durante a longa viagem, chegam a Villefranche, onde resolvem passar a noite em um outro albergue.

Durante a madrugada, porém, ocorre um incêndio no prédio. Todos fogem desesperados. Bertrand, inclusive, sem nem lembrar da filha.

Sem nada dizer-lhe corro para dentro do nosso quarto, em meio às chamas que me cegam e queimam-me várias partes do corpo, agarro a pobre criaturinha e corro a levá-la para sua mãe. Mas ao apoiar-me sobre uma trave meio queimada, falta-me o pé e meu primeiro movimento é estender as mãos. Esse impulso da natureza me deixa cair o fardo precioso que seguro e a infeliz criança cai nas chamas aos olhos da mãe.

Um adendo: note que é a primeira vez que Sofie se refere à natureza para se referir ao impulso. Note também que qualquer personagem de Sade, virtuoso ou devasso, faz uso da natureza para legitimar suas atitudes: para o libertino, o vício é impulso da natureza e, como tal, não deve ser ignorado. Para o puro, contrariar a natureza é agir contra as supostas leis divinas.

Bertrand fica louca da vida. Culpa Sofie pela morte da criança – ainda mais ao notar, depois do incêndio controlado, que o berço não seria atingido.

Bertrand denuncia Sofie para o juiz da cidade. Na sua sede de vingança, ela descreve uma Sofie nada virtuosa para o juiz: uma garota de vida fácil, que fugira da forca na outra cidade, que possuía amantes e por aí vai.

Durante o processo, as testemunhas montam uma história na qual Sofie é a incêndiária, a assassina da criança, e cúmplice dos ladrões (que botaram fogo no albergue para facilitar sua ação).

Veredito: condenada.

Coincidentemente, ali era o lugar onde o padre Antonin, um dos devassos do convento, estava vivento (não o albergue, mas a região). Sofie, em seu desespero para não ser condenada, pede para falar com ele. Ele aparece, mas finge não conhecê-la. Até que ela pede para que eles conversem em particular.

Nesta conversa, o padre até oferece ajuda a Sofie, mas com uma condição: ela, livre das acusações, entraria para o convento. E pelo resto da vida, teria que se submeter aos desejos dos padres devassos.

Não. Sem liberdade sob estas condições. Sofie dispensa o padre.

Não te servirei, nem te aborrecerei, mas se disseres uma só palavra contra mim, eu te acusarei de crimes ainda maiores e eliminarei num instante qualquer meio que possas ter para defender-te. Pensa bem antes de falar e compreenda o espírito das palavras que direi ao carcereiro ou eu te esmago de uma vez por todas.

Cara de pau, ele ainda fala para o juiz que a moça se confundiu, que devia estar pensando em outro padre Antonin.

Sofie é então condenada por unanimidade.

Os pensamentos mais amargos e dolorosos surgiram então para acabar de me estraçalhar o coração.

Depois, ela seria transportada até Paris, para ser julgada pelas instâncias superiores. Foi quando seu caminho se cruzou com a madame de Lorsange.

É nesta hora que ela faz aquele relato com o qual nós aqui do In Utero começamos a nossa análise e que nos serviu de introdução para todos os posts – um parágrafo no qual, após passar horas falando de seus infortúnios, ela resume tudo o que lhe ocorreu.

Enfim, vamos à peça:

A montagem deste trecho foi uma verdadeira revolução: estas três partes se tornaram apenas uma. Foi mais ou menos assim: ao sair do moinho de Dalville, Sofie conhece um rapaz que se sensibiliza com sua história e dá um pouco de dinheiro para ela (este seria o amigo de Dubreuil no enredo original, mas note que Dubreuil ainda nem apareceu). Este rapaz indica uma mulher para quem Sofie pode trabalhar como criada, a Senhora Bertrand, no albergue. E lá vai Sofie.

No albergue, trabalhando para Bertrand e cuidando de sua filha, Sofie reencontra Dubois. Dubois ofecere o plano maldito envolvendo Dubreuil. Sofie e Dubreuil se apaixonam e saem para passear. Sofie conta para Dubreuil todo o plano de Dubois. Dubreuil sai correndo chamando pelo seu amigo, rumo ao quarto, mas já chega lá morto. É nesta hora que começa o incêndio (sim, aqui só tem um albergue) e a criança morre. Ufa, haja fôlego!

Daí, enquanto Sofie tenta se explicar, já começa o julgamento, num jogo de cena bastante dinâmico. Semelhante ao primeiro julgamento (referente ao roubo do anel da Senhora du Harpin), os jurados aparecem no mezanino desferindo xingamentos contra sofie (“sua celerada! sua latifundiária!”). Então ocorre uma reconstituição do crime, em tom pra lá de cômico: Robson Catalunha e a máquina de fumaça mandam superbem.

Até o padre Antonin aparece para depor (eu sei que eu coloquei Rafael no título, mas foi para definir a continuidade do tema do convento), mas ele apenas diz que nunca nem esteve no convento citado por Sofie.

Enfim, ela é condenada.

As soluções cênicas são das mais inventivas: como Bertrand aparece no restaurante do albergue, suas cenas são sempre à mesa: Gisa Gutervil fica sentada numa espécie de carrinho, onde tem uma mesinha montada com prato e tudo. Este carrinho é empurrado para o palco por um garçom (Danilo Amaral), vestindo apenas o avental (e nu por baixo). Deixando Bertrand lá, ela tem sua refeição enquanto Dubois se encontra com Sofie, perto de outra mesa (outro carrinho, só que maior, empurrado por Henrique Mello, igualmente vestido apenas com o avental). Este segundo carrinho fica ali no canto o tempo todo. Curiosamente, depois da fuga, a cabeça de Dubois vai parar na bandeja que está sobre aquela mesa, na hora do julgamento – veja que coisa: sendo Dubois a personagem mais chave em relação à filosofia sadeana nesta história, a presença dela é necessária para esclarecer algumas questões em cenas que não estão presentes no livro, como o julgamento. Repare: Sofie dirá que Dubois roubou seus pertences. Esta “presença” de Dubois vai dizer: “Mas eu sou uma baronesa. Por que eu roubaria os pertences desta moça pobre?”

O processo que culpará Sofie, no próprio livro, já tem um tom farsesco. Na peça ele assume proporções maiores na parte da reconstituição do ocorrido. Robson Catalunha, sob comando de Ruy Andrade, mede a altura da janela, quantos passos tem da cama pra porta, a quantidade de fumaça, o barulho de gente caindo e gritando, enfim, uma comédia (ele aparece com a língua presa, fazendo um débil sotaque). Nesta parte, Luisa Valente assume a pele de Sofie para remontar o crime. Ela aparece no meio da confusão cheia de joias, roubadas de Bertrand, dizendo “olha aqui a sua linda criança que eu estou salvando”, cheia de ironia. Mais tarde, a loira ainda aparece atirando o bebê pela sacada, causando desespero de Bertrand.

Antes de tudo isso vir à tona, porém, cabe ressaltar como que ocorre esta virada na cena: relembrando os bons momentos com Dubreuil, de repente ele grita “mas foi ela que planejou tudo!” e de repente aparece o julgamento (o martelo do juiz, Rodrigo Souza, é um enorme dildo). No meio do julgamento, outra virada, quando alguém grita “reconstituição!”, e tudo muda outra vez.

Nos momentos finais da peça, uma cena com ritmo incrivelmente mais dinâmico que todas as outras.

Enfim, o relato de Sofie para a madame de Lorsange termina aqui. Mas o livro ainda não termina. Elas ainda precisam descobrir que são irmãs. E a Providência também precisa dar as caras. Afinal, estamos falando de Sade.

Dado

Dalville, o falsário, e o moinho (ou ‘Desnudando Justine, parte 7′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

justine-moinho

Nosso relato vai chegando às últimas etapas (apesar de estarmos na parte 7, de 13, os próximos capítulos são meio agrupados).

Havíamos parado na saída de Justine/Sofie do convento. Nos diz a pobre ex-donzela:

Quero ajudar um pobre, e ele me rouba. Ajudo um homem desfalecido, o perverso faz-me girar uma roda como besta de carga. Esmaga-me com chicotadas quando as forças me faltam, todos os favores da sorte lhe são dados e estou prestes a perder a vida por ter trabalhado a força para ele.

Sofie já começa esta etapa blasfemando. Ela fica sabendo da sorte do Senhor Rodin, o médico: ele se tornara o primeiro médico do rei da Suécia, uma grande honra. Ao saber disso, Sofie já não pondera muito os pensamentos:

Que ele seja feliz, o perverso, que o seja pois a Providência o quer, e tu, desgraçada criatura, sofre sozinha, sofre sem te queixares, pois está escrito que as tribulações e os sofrimentos devem ser a partilha terrível da virtude.

Nossa heroína continua sua caminhada, quando uma senhora pede esmola (Gisa Gutervil). Doce como sempre, Sofie tenta ajudar, mas ao abrir a bolsa para pegar algo, a velha lhe dá um golpe, rouba seus pertences e corre para junto de quatro comparsas, todos com feições ameaçadoras: não chegue perto.

Sofie se levanta praguejando e continua sua jornada, até encontrar um homem caído no chão, sendo pisoteado por dois cavalos, comum homem montado em casa. Os cavaleiros partiram e deixaram o homem aparentemente morto. Só aparentemente.

Sofie, a voluntariosa, vai ajudá-lo. Faz com que o homem respire um pouco de álcool, para acordar. Cuida de seus ferimentos, lava o corpo sujo de sangue. Dá vinho para ele beber.

O homem se recupera e quer saber “quem é o anjo” que o salvara. Assim, Sofie conta sua história de desventuras para ele.

O tal então faz uma proposta: diz que se chama Dalville e que tem um palácio nas montanhas. Sua mulher bem que precisa de uma boa moça para ajudá-la. Que tal? Sofie aceita.

(Na peça, os mesmos bandidos que estão junto com a velha são os que espancam Dalville – sem os cavalos).

Dalville aluga duas mulas, escoltadas por um criado do albergue, e seguem para seu palácio, nos confins do país, no meio das montanhas (antes de chegar às montanhas, porém, Sofie nota algo: Dalville nunca faz o caminho mais óbvio: ele sempre faz trilhas alternativas, supostos atalhos, feito quem não quer ser encontrado).

O castelo se aproxima. Um lugar isolado, para além de todo caminho e habitação humanos, perto “do fim do universo”, um lugar “propício somente a cabras”, de tão sinuoso, de tanto que era preciso que o caminho fosse mais escalado do que percorrido.

Sofie começa a temer, ainda mais depois de ter passado pela floresta do conveto (ela passa a ter aversão a lugares ermos). Como pode morar num local tão perigoso?

Oh, perigoso, não, disse-me Dalville, olhando-me disfarçadamente à medida que avançávamos, não é nada perigoso, minha menina, mas tampouco é morada de gente honesta.

Os temores se confirmam: Dalville é um falsário que vive de “fabricar o próprio dinheiro”. Mostra para Sofie qual será seu local de trabalho: um poço onde mulheres nuas e agrilhoadas empurram uma roda, que leva água para o castelo. Doze horas por dia. Algum pão e um prato de favas. No ritmo, sempre. Castigos quando perder o ritmo. Nunca mais verá o céu. Quando morrer, será jogada num buraco, “em cima de trinta ou quarenta que já estão ali e poremos outra em teu lugar”.

Sofie pede que o falsário se lembre que ela acabara de salvar sua vida. Mas ele não é muito chegado a gratidão:

Que entendes, diga-me, pelo sentimento de gratidão com que imaginas ter me conquistado. Pensa melhor, criatura vil, que fazias tu quando me socorreste? Entre a possibilidade de seguires teu caminho e a de vires comigo, escolheste a última, como teu coração te inspirou. Pensavas então em alegrias? Por que diabos pensas que sou obrigado a te recompensar pelos prazeres que me deste e como te pode chegar à cabeça que um homem como eu, que nada no ouro e na opulência, um homem com mais de um milhão de renda, e pronto para ir a Veneza para desfrutar destas rendas à vontade, se digna aviltar-se e dever alguma coisa a uma miserável como tu?

Tivesses dado-me a vida, não te deveria nada, pois trabalhaste apenas para ti. Ao trabalho, escrava, ao trabalho. Aprende que a civilização, ao derrubar as instituições da natureza, não lhe roubou nenhum dos seus direitos. Ela criou seres fortes e seres fracos, sua intenção sempre foi a de que estes fossem subordinados àqueles, como o cordeiro sempre é subordinado ao leão, como o inseto ao elefante. A sagacidade e a inteligência do homem variam a posição do indivíduo; não é a força física que determina a posição, é a que ele adquire com suas riquezas. O homem mais rico torna-se o homem mais forte, o mais pobre passa a ser o mais fraco, mas isto, junto com os motivos que sustêm seu poder, a prioridade do forte sobre o fraco sempre esteve nas leis da natureza, que são iguais aos grilhões que prendem o fraco e que estão nas mãos do mais rico ou do mais forte, e pelas quais ela esmaga o mais fraco ou então o mais pobre.

Mas estes sentimentos de gratidão que reclamas, Sofie, ela os ignora. Jamais esteve entre suas leis que o prazer a que um se entrega seja motivo para que aquele que o recebe relaxe seus direitos sobre o outro. Vês nos animais que nos servem exemplo desses sentimentos de que te gabas? Quando te domino pela minha riqueza ou pela minha força, será natural que eu te entregue meus direitos, ou por que tu mesma me serviste ou por que tua política mandou-te recompensares a ti mesma servindo-me?

Mas mesmo que o serviço fosse prestado de igual a igual, jamais o orgulho de uma alma elevada se deixará aviltar pela gratidão. Não é sempre o humilhado o que recebe do outro, e esta humilhação que ele sente não paga suficientemente ao outro o serviço que ele prestou — é um prazer para o orgulho elevar-se acima do seu semelhante, e se a obrigação, ao humilhar o orgulho daquele que a recebe, torna-se um fardo para ele, que direito se tem de obrigá-lo a suportá-lo? Por que devo consentir em deixar-me humilhar toda vez que olho para aquele a quem devo obrigações?

A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas. O escravo a prega ao seu senhor porque tem necessidade dela, também o boi ou o asno a preconizariam se soubessem falar. Porém o mais forte, mais bem guiado pelas suas paixões e pela natureza, não se deve entregar a quem o serve ou a quem o adula. Que eles sirvam tanto quanto queiras, se isto lhes dá prazer, mas que jamais exijam nada em troca.

Então Justine/Sofie é agarrada por criados e colocada no roda como as outras escravas: nua e agrilhoada. Ela é chicoteada, mesmo sem cometer deslizes, só para saber como serão seus castigos. Os comparsas de Dalville analisam seu corpo, fazem desdéns, tratam-na como objeto. Sua dor os divertia. O próprio Dalville trata de possuí-la (biblicamente falando) sempre que pode, sempre de maneira brutal.

(…) tive a cruel satisfação de aprender ali que se existem homens que, guiados pela vingança ou por indignidade voluptuosas, podem divertir-se com a dor dos outros, existem outros seres barbaramente organizados para gozar dos mesmos prazeres sem outros motivos que não o encanto do orgulho, ou a mais horrenda curiosidade. Portanto, o homem é naturalmente mau, ele está no delírio das suas paixões quase sempre como na sua calma, e em todos os casos, os males do seu semelhante podem ser prazeres execráveis para ele.

(…)

Está bem, disse para mim mesma, será possível levar mais longe o ultraje, e que diferença pode fazer-se entre tal homem e o animal menos domesticado dos bosques?

Entre as parceiras de Sofie na roda, duas haviam sido amantes de Dalville antes de serem presas no poço. Ambas foram enganadas pelo falsário.

Dalville preparava um golpe: pretendia se mudar para Veneza. Para tal, mandava suas moedas falsas para a Espanha, a fim de conseguir papeis que atestassem sua riqueza que valessem na Itália. Assim, jamais seria descoberto e sua riqueza não passaria de títulos estrangeiros válidos no país de destino.

Mas havia o risco da fraude ser descoberta antes que ele coneguisse tais papeis.

Ai de mim, disse ao saber destas coisas, a Providência será justa pelo menos uma vez; ela não permitirá que um monstro como este tenha êxito e todas nós seremos vingadas.

Veja como aqui a religiosidade passa a ser usada como uma arma: o desejo se Justine/Sofie não é mais a própria felicidade, mas ser vingada.

Numa das noites em que Dalville abusa de Sofie, ela pede que ele não seja tão cruel. Ele responde:

E com que direito, perguntou-me o bárbaro, quando suas paixões foram satisfeitas. É porque quero passar um instante contigo? Mas eu não me jogo aos teus pés pedindo teus favores de modo a que me possas exigir compensação. Não te peço nada… simplesmente pego o que desejo e não vejo nisso senão o uso de um direito que tenho sobre ti. Não há nada de amor no que faço, este é um sentimento que meu coração jamais conheceu. Sirvo-me de uma mulher por necessidade, como se serve de um vaso para uma necessidade diferente. Porém jamais dou àquele ser senão meu dinheiro ou minha autoridade a submete aos meus desejos; não há nem estima nem ternura, e não devo o que pego senão a mim mesmo e não exigindo dela senão a submissão. Não vejo por que ser-te grato por isso. Será o mesmo que dizer que o ladrão que arranca a bolsa de um homem numa floresta porque se julga mais forte que ele, lhe deve alguma gratidão pelo erro cometido. O mesmo é válido para o que se faz com uma mulher; pode ser um direito dele repeti-lo, mas jamais razão suficiente para recompensá-la por isso.

A tal fraude enfim se concretiza. Dalville aumenta sua fortuna e planeja sua viagem para Veneza.

(…) O pobre faz parte da ordem natural das coisas; ao criar os homens com forças desiguais, a natureza nos convenceu do seu desejo de que esta desigualdade se conservasse mesmo nas mudanças que nossa civilização provoca nas suas leis.

O pobre substitui o fraco, já te disse; ajudá-lo equivale a eliminar a ordem estabelecida, e combater a da natureza, é destruir o equilíbrio que se encontra na base das suas mais sublimes disposições. É trabalhar em prol de uma igualdade perigosa para a sociedade; é encorajar a indolência e a preguiça, é ensinar ao pobre a roubar o rico, quando este recusar-se a ajudá-lo, e isto por hábito, pois do contrário essa ajuda terá dado ao pobre o direito de obtê-la se trabalhar.

— Oh, senhor, como estes princípios são cruéis! Falarieis deste modo se não tivesseis sido sempre tão rico?

— É preciso que o tenha sido sempre, mas soube dominar minha sorte, soube espezinhar o fantasma da virtude que jamais conduz senão à forca ou ao hospital, soube ver logo que a religião, a beneficência e a humanidade se transformavam em obstáculos a todos os que visam alcançar a fortuna, e consolidei a minha sobre os escombros dos preconceitos do homem. Foi zombando das leis divinas e humanas, foi sacrificando sempre o fraco quando o encontrava no caminho, foi abusando da boa fé e da credulidade dos outros, arruinando o pobre e roubando o rico, que alcancei o templo escarpado da divindade a quem adorava. Por que não me imitaste? Tua fortuna estava nas tuas mãos, a virtude quimérica que preferiste àquela consolou-te dos sacrifícios que lhe fizeste? Não há mais tempo, desgraçada, não há mais tempo; chora as tuas faltas, sofre e trata de encontrares, se puderes, no seio dos fantasmas que adoras, o que a credulidade te fez perder.

Antes de partir, Dalvielle mostra mais da sua crueldade: a atual amante é colocada junto das mulheres do poço, para ser feita de escrava.

Mas como só bastam três aqui… como farei uma viagem perigosa na qual minhas armas ser-me-ão úteis, vou experimentar minhas pistolas numa de vocês.

Uma das mulheres é morta a tiros para que a outra assuma seu lugar.

Vai, disse-lhe ele queimando-lhe os miolos, vai levar notícias minhas para o outro mundo, vai dizer ao diabo que Dalville, o mais rico dos bandidos da terra, é aquele que desafia com maior insolência a mão do céu e a sua.

As coisas mudam um pouco depois da saída de Dalville. O homem que fica em seu lugar tira as moças do poço e as dá um trabalho menos cansativo. Mas como não é só com Justine que a virtude é retribuída com infortúnios, o castelo é invadido por cavaleiros da polícia.

Todos foram presos, “acorrentados feito animais” e levados para Grenoble, onde seriam julgados. Os moedeiros foram condenados à forca. Justine teria o mesmo destino, mas conquistou a piedade do juiz, o Senhor S… . Este compreende tudo o que aconteceu e concede liberdade e um certo dinheiro a Sofie.

A conselho do Senhor S…, a moça vai para Isère, onde se hospeda num albergue.

No palco:

A roda onde Sofie passa a trabalhar é metafórica. Ela se torna parte de uma espécie de linha de montagem, onde as pessoas, nuas, usam máscaras de solda e fazem gestos repetitivos, como metalúrgicos – o próprio som ambiente sugere que ali é uma fábrica, com barulho de máquinas.

Uma ótima cena é adicionada: um dos trabalhadores começa a tremer, como que tendo espasmos. Ele cai no chão (foto) e logo aparecem os capatazes para tirá-lo dali. Outra pessoa é colocada no lugar.

Outra cena adicionada: um dos capatazes fala das obrigações de Sofie. No discurso, deixa escapar que sequer ele sabe o que faz ali – o capataz usa uma máscara de gesso que lembra o Jason, mas com apenas um olho – a roupa dos capatazes lembra a roupa dos metalúrgicos que trabalham com solda.

O momento da invasão do castelo (a partida de Dalville para Veneza e o novo chefe do local não são descritos): o foco da luz fica apenas em Justine/Sofie. Os trabalhadores se juntam todos, aglutinados, como que se unindo uns aos outros na adversidade, até poderem fugir. A invasão é narrada por um dos capatazes (Gilberto Scarpa), até o momento em que “testemunhos a favor de Justine comprovam sua inocência”.

Enfim, Justine chega ao albergue em Isère.

Lá, ela encontra uma mulher que se intitula baronesa, mas que Sofie tem a impressão de já conhecer.

É Dubois.

Dado

Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos (ou ‘Desnudando Justine, parte 6′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

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A etapa de hoje da homérica saga da doce Justine explora a contradição religiosa vista por Sade. Curiosamente, o discurso do autor, diferente das outras passagens, aqui não aparece na boca de personagem algum – nenhum dos padres faz como Dubois, por exemplo, que fala para Justine/Sofie o que pensa sobre pobres e ricos. Porém, o que falta em discurso sobra em atos: suas atitudes serão completamente incondizentes com sua posição de religiosos (quer dizer: a condição de religiosos mostrada para a sociedade, porque os próprios pouco ligam para isto). Há que se notar também que Sade é contra os princípios religiosos – motivo pelo qual os padres não possuem discurso. Diferente de quando Dubois analisa os diferenças sociais, ou quando Bressac fala sobre a homossexualidade. Os padres serão, então, os únicos personagens que farão o mal gratuitamente, sem serem levados a isso por circunstâncias da sociedade. Vejamos os fatos:

Quero aproximar-me dos sacramentos, quero implorar fervorosamente ao ser supremo que me envia tantas desgraças, o augusto tribunal onde espero purificar-me num dos mais santos dos nossos mistérios, torna-se o mais terrível teatro da minha desonra e da minha infâmia.

Nossa casta protagonista continua sua peregrinação. Após muito andar, encontra, no meio da floresta, no maior isolamento, o campanário de um convento. Julgando que encontraria um abrigo pacífico, foi até lá.

Uma jovem, para quem Justine/Sofie pede informações, confirma: ali é um convento, onde as pessoas costumam ir apenas uma vez ao ano. O lugar tinha uma miraculosa virgem, de quem “os piedosos obtêm tudo o que querem”. Ali também vive o padre guardião, o reverendo Rafael, “o mais santo dos homens”, parente do papa. Aprecia tanto a solidão do lugar, que já recusara muitos benefícios oferecidos pelo pontífice (mal sabiam as duas que tido de solidão era aquela).

E lá vai Sofie. É bem longe.

Chega primeiro na cabana do irmão jardineiro. Este chama o padre Clemente, que não tem a melhor das recepções:

Que desejais, perguntou-me o monge com muita rispidez, será esta hora de se vir a uma igreja? E tendes bem o ar de uma aventureira.

Sofie fala que sua intenção ali são deveres religiosos. Quer se confessar. Conta os motivos que a fizeram chegar tão tarde (o tal Clemente falta deixá-la dormir no meio da floresta, sem oferecer abrigo).

Clemente chama Rafael, muito a contragosto. Rafael tem um jeito mais doce (pelo menos por enquanto), e ouve tudo o que Sofie tem a dizer. Promete levar Sofie para ver a “santa imagem da virgem” no dia seguinte.

Após certificar-se de alguns detalhes do relato de Sofie (era mesmo órfã? não tinha mais parentes? disse para alguém que iria para o convento? era mesmo virgem – aos 22 anos? ninguém a seguira?), o padre a pega pela mão para levá-la para passar a noite em sua casa. Como assim, padre, em sua casa?

Oh, vereis, meu anjo, que não somos tão carolas como parecemos e que sabemos muito bem divertir-nos com uma bela noviça.

O padre se mostrou mundano demais para um religioso. A mão boba tomando conta geral. Sofie quase morta de desespero – e o padre cada vez mais ousado. Tarde demais para voltar atrás.

Ela é levada para um local onde havia outros três monges, junto de mais três moças, “todos no estado mais indecente do mundo”.

Meus amigos, disse Rafael ao entrar, faltava-nos uma, ei-la aqui. Permiti-me de vos apresentar um verdadeiro fenômeno. Eis aqui uma Lucrécia que traz consigo a um só tempo, nas espáduas [ombros] a marca das mulheres de má vida e ali, continuou ele com um gesto tão significativo quanto indecente… ali, meus amigos, a prova certa de uma virgindade comprovada.

A castidade de Justine/Sofie deixa de existir. Todos se aproveitam dela das formas mais mundanas possíveis.

Rafael, Clemente, Antonin e Jerônimo. São os quatro devassos padres do convento. As meninas eram Onfalo, a mais velha, Florette e Cornélia. Todas sequestradas e presas ali, sujeitas às voluptuosidades dos “religiosos”.

Aos poucos, Sofie é instruída pelas companheiras das regras do local: são sempre quatro moças. Algumas ficam presas por muitos anos, outras por poucos dias. Algumas velhas, outras novas. Sempre quatro: quando uma é dispensada, outra é posta em substituição. Nunca se ouviu falar nas moças que saíram dali – é como se elas deixassem de existir. Quase por certo, havia outra torre ali com outras quatro moças, visto que elas eram procuradas apenas dia sim e dia não – e certamente os devassos não faziam um dia de pausa sequer. Toilette em dia, sempre. Comida e bebida nos horários. Orgias nos horários. A mais velha comanda e relata o andamento das coisas para o padre que for fazer a inspeção diária no quarto. Castigos frequentes para más condutas nem sempre frequentes – nem sempre existentes. Humilhação diária. Desejo de morrer constante. Lágrimas gratuitas. Traição: padres devassos.

Os padres ficam felizes com a dor de suas vítimas, e utilizam deste artifício em suas devassidões.

Ao se ver abandonada na própria casa de Deus, Sofie coloca a Providência novamente:

Oh, decretos incompreensíveis da Providência, dignai por instantes, abrir-vos aos meus olhos se não quiserdes que me revolte contra vossas leis!

Mas desta vez, ela não se arrepende na mesma hora.

Chegou enfim o dia da festa da virgem (aquela uma vez ao ano em que os fieis vão ao convento). Os devassos escolheram a escrava com aspecto mais angelical para encenar a sua farça: Florette (Luísa Valente) foi vestida tal como Virgem Maria e amarrada pela cintura com cordas que ficariam ocultas. No momento da elevação da hóstia, ela se elvaria sobre os fieis – um milagre falsificado.

E não fizesse tudo isso para ver o que aconteceria.

Ricas oferendas foram deixadas pelo povo ao verem tal fato extraordinário, a levitação da virgem.

Excitados com o crime, após os festejos, os padres devassos abusam de Florette, mesmo vestida de santa.

O tempo vai passando com as meninas sujeitas às regras dos padres. Sofie vê o dia em que Onfalo é mandada embora do convento apenas com a roupa do corpo, após 14 anos de serviços prestados. Sofie vê a chegada da substituta, Otávia, e o ritual que sucede a chegada de uma novata: explicar para uma moça em prantos todos os abusos que ocorrem por ali.

Depois do questionamento das leis da Providência, Sofie questiona a própria existência:

(…) já estava certa demais de que aquela cruel reforma era uma sentença de morte, ficando por instantes alarmada. Digo por instantes! Infeliz como eu era, poderia estar eu apaixonada pela vida, quando a maior felicidade que me podia acontecer era deixá-la?

Porém, a tal Providência já traçaram um destino para os devassos. Não um destino condizente com os atos deles, mas já seria um alívio para as prisioneiras.

A Vossa Santidade, o papa, nomeou o padre Rafael como general da Ordem de São Francisco. Antonin passaria a ser guardião de Lyon. Os dois novos padres que assumiram a posição dos dois antigos eram homens de boa fé e logo viram a irregularidade presente naquele convento e trataram de dar logo um fim àquela putaria.

As meninas receberam uma certa ajuda para voltarem a seus lares. Havia, contudo, uma condição: que não revelassem nada do que ocorrera ali para ninguém. Jamais. Foram colocadas diante da cruz para fazer tal juramento.

Ao ver-se livre, Sofie pede perdão a Deus pelas suas faltas involuntariamente cometidas – há que se prestar atenção em tal atitude: pode haver uma falta involuntária? Certamente, mas note como o senso de religiosidade imposto a Justine/Sofie desde o seu nascimento a impele a encontrar faltas em atos que são sequer de sua autoria. A religião (tal como é descrita por Sade) impõe um saldo negativo perande o suposto deus desde o momento em que o indivíduo chega ao mundo (afinal, Cristo pagou pelos pecados de uma humanidade que chegou à terra bem depois dele – ou seja, de uma humanidade que sequer tinha pecados para serem pagos).

Porém, ao pedir perdão a Deus, Justine/Sofie faz uma consideração:

Ai de mim! disse para mim mesma, era pura quando deixei esta estrada daquela vez, guiada por um princípio de devoção tão funestamente ilusório… e em que triste estado vejo-me agora!

No palco:

As cenas aqui são mais do que emblemáticas.

Ao som de canto gregoriano, os padres aparecem com suas capas e capuzes. Porém, ao revelarem-se devassos, a tiram subitamente e num piscar de olhos todos estão nus no palco.

O quarto das prisioneiras: usa-se o espaço embaixo de um mesanino com cerca de um metro de altura apenas, que fica do lado oposto à plateia (também usado como plateia em 120 dias de Sodoma). As colunas que sustentam o mesanino são como as paredes de suas celas.

Na festa da virgem, Florette sendo suspensa e o espetáculo em momento de êxtase – os fieis clamando fervorosamente – e sonoramente – enquanto Juliette/Madame de Lorsange – que até então estivera ouvindo a história – oferece hóstias para o público (ela repete a frase “O corpo de Cristo” enquanto estende a mão e depois leva à boca). O enorme vestido que colocam em Luísa Valente, junto com o manto azul, causam um belíssimo efeito na hora que ela é suspensa. Sua feição de horripilância coroam a cena, com os braços estendidos.

O momento em que os devassos abusam da moça vestida de santa (na foto): ela fica deitada no meio do palo. Eles, vestidos com as capas, ao redor dela. Então eles avançam sobre ela todos de uma vez, como lobos devorando carne (fazem barulhos semelhantes) enquanto novamente se despem. Uma cena fortíssima: aquela roda de homens nus com a cabeça enfiada naquele núcleo, sem a moça ficar visível, sob tantas cabeças. Todos feito animais, quatro patas no chão, se movendo como tal.

Até as escadas que o público usa para entrar no recinto são usadas, quando Sofie chega ao convento. Voltam a ser usadas quando Onfalo é despachada – um pequeno trecho é adicionado ao espetáculo: a saída de Onfalo. Como ela “deixa de existir” para a sociedade, a garota aparece em completo breu, acendendo palitos de fósforo – a única iluminação -, e recita um texto sobre seu esquecimento. Linda cena.

A cruz: Tiago Martelli faz as vezes de Cristo na ocasião do juramento. Nu, com uma luz bem baixa, faz realmente parecer que está crucificado sobre o mesanino, com as meninas ajoelhadas diante de si.

Enfim, Sofie livre.

Deixando o convento, após muito caminhar, uma pessoa é vista precisando de socorro.

É Dalville.

Dado

Senhor Rodin, o médico (ou ‘Desnudando Justine, parte 5′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

O post de hoje é um parênteses – esta parte não aparece na peça. É uma passagem na qual Sade fala sobre como a vida dos mais abastados perde o valor diante de uma “grande causa”, na visão da classe dominante, claro, vendo a sociedade de maneira geral demais, sem se importar com o ponto de vista do indivíduo. Isso também aparece em outras ocasiões da obra, mas aqui tal fato é central. Lá vamos nós acompanhar Justine/Sofie:

Dali vou parar na casa de um médico a quem salvo de cometer um crime execrável; o carrasco, para recompensar-me, me mutila, me marca e manda embora. Seus crimes se realizam, sem dúvida, ele faz fortuna e eu sou obrigada a mendigar meu pão.

Depois de passar a noite na floresta, toda dolorida das feridas causadas pelo Marquês, nossa heroína continua sua viagem e chega ao burgo de Clave. Lá, procura por um médico. Econtra o senhor Rodin.

Justine/Sofie conta uma mentirinha (algo nada virtuoso, importante salientar) para Rodin: fugira de Paris, da casa da mãe, por problemas amorosos, e ao passar pela floresta, bandidos a deixaram naquele lastimável estado. O médico a deixa em sua casa e cuida dela.

Assim que pôde, Sofie procurou por alguma moça que pudesse ir à casa do Marquês de Bressac para saber o que se passara desde a sua partida – havia alguns objetos e algum dinheiro de Sofie no seu antigo quarto. A moça, Jeannette, foi. Tomou cuidado para não denunciar o paradeiro de Sofie. Sondou o clima do castelo, e voltou para Clave com as notícias: a Condessa levou 24 horas para morrer. O Marquês fez todos acreditarem que uma criada fora a autora do crime, e após o ato perverso, esta fugira. A herança era muito maior do que ele imaginara – somando ainda a grana do tio, Bressac ficou bem mais rico do que supora.

Jeannette trouxe também uma carta. Ei-la:

Uma perversa capaz de ter envenenado minha mãe, é bem audaciosa para ousar escrever-me após tão execrável delito. É bom que ela oculte o melhor possível seu esconderijo; ela pode estar certa de que será perturbada se for encontrada. Que ousa reclamar… como fala ela de dinheiro e pertences? O que ela pôde deixar equivale aos roubos que fez durante sua estada nesta casa, onde consumiu seu crime derradeiro. Que ela evite enviar um segundo estafeta como este, pois declaro-lhe que farei prendê-lo até que se conheça o lugar onde se oculta a criminosa e este seja comunicado à justiça.

Sobre isso, Madame de Lorsange aponta: “são procedimentos que causam horror… Nadar em ouro e recusar a uma desgraçada que não quis participar de um crime o que ela ganhou honestamente, é uma infâmia sem igual.”

Já boa da saúde, o Senhor Rodin ofereceu trabalho a Sofie, em sua casa, como criada.

A relação dos dois é um pouco indiferente. O médico mal nota a presença de Sofie. Ela não confia muito nele. Assim eles vão levando.

Até que um dia, dois anos depois, Sofie, sozinha na casa, ouve gemidos vindos do porão. Vai até lá e descobre tratar-se de uma mocinha de 12 anos, filha de um carvoeiro da floresta. Fora sequestrada e examinada com o corpo nu. Só sabia dizer que o médico e seu amigo diziam que “a operação deveria ser adiada para depois de amanhã, por causa do meu medo”.

Antes de pôr-se a ajuda a pobre diaba, Sofie vai investigar. Sondando o papo do médico e seu amigo, ouve o seguinte diálogo:

— Jamais, disse Rodin, a anatomia será perfeitamente conhecida a não ser que o exame dos vasos seja feito numa criança que acabe de expirar com uma morte cruel. Somente esta contração nos pode dar uma análise completa de uma parte tão interessante.

— O mesmo acontecia, continuou o outro, com a membrana que assegura a virgindade. É necessariamente obrigatório que seja uma criança o paciente dessa operação. O que se observa na idade da puberdade? — nada; os mênstruos rompem o hímen e todas as pesquisas são inexatas.

— É odioso, continuou Rodin, que considerações fúteis detenham o progresso das artes… Ora pois, é um paciente sacrificado para salvar milhões; deve-se hesitar por esse preço? O crime operado pelas leis é de outro tipo, diferente do que vamos praticar, e o objeto dessas leis tão sábias não é o sacrifício de um para salvar mil? Então, que nada nos detenha.

— Oh, quanto a mim, estou decidido, redargüiu o outro, há muito tempo já o teria feito, se tivesse me atrevido a tal coisa sozinho. Essa criança desgraçada, nascida para o infortúnio, deve nesse caso lamentar a vida? E um serviço que prestamos a ela e a sua família.

— Ela no-la teria vendido se tivéssemos oferecido dinheiro. Tenho por princípio, meu amigo, que todas as pessoas de classe aviltada só servem para experiências; é nestas que devemos aprender com ensaios para conservar práticas preciosas e que nos devem dar resultados financeiros. Pudesse eu dispor de tantas moedas de ouro quantas provas deste tipo já vi fazer e que eu mesmo já fiz quando trabalhava no hospital.

Sabendo de tais planos, no dia seguinte Sofie encontra a chave do porão e liberta a moça, que fica muito agradecida e parte para sua liberdade.

O médico e seu amigo, ao chegarem e darem pela falta da prisioneira, vão direto para Sofie. Depois de algumas bofetadas, ela acaba confessando tudo.

O castigo é cruel: colocam-na nua. Arrancam um dedo de cada pé e dois molares da boca.

E não é tudo, disse aquele homem cruel, pondo um ferro no fogo, eu a recebi chicoteada e vou mandá-la embora marcada.

Rodin marca Sofie com um ferro em brasa, na região dos ombros, uma marca com a qual se marcam os ladrões.

Que ela se atreva a aparecer agora, a putinha, que se atreva, disse Rodin furioso, e ao mostrar essa letra ignominiosa, legitimarei o bastante as razões que me obrigaram a mandá-la embora com tanto segredo e rapidez.

Sofie é largada novamente à própria sorte. Em suas andanças – mais difíceis agora, com os ferimentos nos pés – consegue comprar material para seus curativos, lembrando do que o médico usara nos ferimentos causados por Bressac.

Mais tarde, Rodin se tornaria o primeiro médico do rei da Suécia. Mais uma recompensa dada a uma pessoa perversa.

Após muito caminhar, um sinal de paz: um campanário, distante e isolado, pertencente a um convento.

Lá vive o guardião, padre Rafael.

Dado

Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens (ou ‘Desnudando Justine, parte 4′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

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Eis que Justine/Sofie está escondida no bosque, após fugir dos ladrões e de Dubois, quando presencia os atos de prevaricação de dois rapazes.

Nos diz Justine:

Ladrões querem violar-me no bosque porque não desejo acompanhá-los, eles prosperam e eu caio nas mãos de um marquês devasso que me dá cem chibatadas com nervo de boi por não querer envenenar sua mãe.

Como estamos falando de Sade, nada poderia ser tão sádico, portanto, condizente: um é mestre e o outro é servo: Marquês de Bressac, de cerca de 25 anos (Henrique Mello) e Jasmin, seu empregado, com cerca de 20 (Diogo Moura).

Bressac é descrito como um rapaz cheio das perversidades devido a um único fator: seu “vício de amar homens”. Ao notar que alguém presencia suas devassidões, ele fica a postos para tomar medidas enérgicos (leia-se: usar da violência). Ainda mais tratando-se de uma mulher (ele é completamente misógino):

Infelizmente é muito comum ver-se a devassidão dos sentidos apagar a piedade no homem; seu efeito normal é insensibilizá-lo. Seja porque a maior parte dos seus desvios exige uma espécie de apatia na alma, seja porque o abalo violento que ela imprime na massa dos nervos diminue a sensibilidade da sua ação, um devasso profissional raramente é um homem compadecido. Mas à essa crueldade natural no tipo de gente cujo caráter esbocei, acrescentava-se ainda no Senhor de Bressac uma aversão tão marcante pelo nosso sexo, um ódio tão inveterado por tudo o que o caracteriza, que era difícil que eu pudesse pôr na sua alma os sentimentos que eu queria comover.

Temendo que Justine/Sofie fosse revelar sua condição para quem quer que fosse, Bressac faz duras ameaças. Sofie é amarrada a uma árvore e tem parte da roupa arrancada. Porém, Bressac só faz ameaças de açoitá-la – para que ela sinta o drama. Mudando de ideia, ele a desamarra e diz que vai levá-la para sua casa, onde ela seria útil a sua mãe, a Condessa de Bressac, que precisava de uma criada.

A Condessa era muito rica e vivia num castelo à altura de suas riquesas. Uma senhora muito humana e firme em seus princípios. Sofie ganha sua confiança. Ao tomar conhecimento das desgraças do caminho da nossa donzela, a Condessa se dispõe a ajudar e utiliza sua influente rede de contatos para intervir por Sofie.

A família (ela e o filho), porém, vive uma constante tensão por conta das devassidões do Marquês (leia-se: sua homossexualidade). A Condessa tenta de todas as suas maneiras frear tal comportamento, o que gera ódio no filho.

Não imagineis, dizia-me freqüentemente o marquês, que minha mãe faz de boa vontade tudo o que vos interessa; crede, Sofie, que se eu não a molestasse a todo instante, ela dificilmente se resolveria a cumprir o que vos prometera; ela vos faz apreciar todas as suas ações, quando na verdade foram apenas minhas. Atrevo-me a dizer que é portanto somente a mim que deveis qualquer reconhecimento, e o que exijo de vós deve parecer-vos ainda mais desinteressado, que sabeis muito bem que, embora sejais bela, não são vossos favores o que eu pretendo…

Justine/Sofie passou a nutrir uma forte paixão pelo Marquês devasso – algo impossível de se realizar, dadas as incompatibilidades entre os gostos de um e o corpo do outro. E Sofie sofria aquela explosão de sentimentos quieta, sem poder fazer coisa alguma.

Ela tenta usar a religião para colocar um pouco de moral que fosse na cabeça daquele rapaz. Mas ele tem um pensamento a respeito:

Todas as religiões partem de um princípio falso, Sofie, dizia-me ele, todas julgam necessário o culto de um ser criador; ora se este mundo eterno, como todos aqueles em meio aos quais ele flutua nas planícies infinitas do espaço, jamais tiveram um começo e jamais devem ter um fim, se todas as reproduções da natureza são resultados de leis que se encadeiam, se sua ação e sua reação perpétua supõem o movimento essencial à sua essência, a que reduz-se o motor que lhes dais gratuitamente? — Acredita, Sofie, que este deus que reconheces é apenas o fruto da ignorância de um lado e da tirania de outro; quando o mais forte quis acorrentar o mais fraco, ele o convenceu de que deus santificava as correntes que o oprimiam, e este, embrutecido pela sua miséria, acreditou em tudo o que o outro queria.

Todas as religiões, seqüências fatais dessa primeira fábula, devem portanto ser sacrificadas ao desprezo como ela, não há nenhuma que não traga consigo o emblema da impostura e da estupidez; vejo em todas elas mistérios que fazem tremer a razão, dogmas que ultrajam a natureza e cerimônias grotescas que só inspiram o ridículo. Mal abri os olhos, Sofie, detestei esses horrores e impus a mim mesmo uma lei, a de pisoteá-los; jurei jamais voltar a eles em minha vida; imitame se queres ser razoável.

— Oh, senhor, respondi ao marquês, privarieis uma desgraçada de sua mais doce esperança se lhe arrancasseis essa religião que a consola; firmemente ligada ao que ela ensina, absolutamente convencida que todos os golpes que lhe são desfechados são apenas o efeito da libertinagem e das paixões, sacrificar-me-ia a sofismas que fazem tremer a mais doce idéia da minha vida?

Note que, enquanto para o forte, segundo Sade, a religião é uma arma de dominação, para o fraco, ela é um consolo. Eis um mecanismo de autocontrole da sociedade.

Por quatro anos na casa, Justine/Sofie teve sua paixão secreta pelo ser que mais desagradava seus princípios virtuosos (estaria Sade dizendo que toda virtude tem desejo reprimido de corromper-se, e utiliza-se destes mecanismos para reprimir o comportamento social?).

Até que um dia, ele faz uma proposta indecorosa:

conspirei contra a vida de minha mãe, e foi a tua mão que escolhi para me servir.

Tal projeto tem dois motivos: libertar-se da opressão em relação às suas devassidões (leia-se: homossexualidade) e botar a mão na grana da velha. Já se pode imaginar o quanto Sofie contestou. Sem sucesso.

Escuta, Sofie, (…) conheço muito bem a tua repugnância, mas como és inteligente, estou ciente de que os vencerei fazendo-te ver que este crime que julgas tão absurdo é no fundo uma coisa muito simples. Duas perversidades se oferecem aqui aos teus olhos pouco filosóficos, a destruição aumenta quando o semelhante é nossa mãe. Quanto à destruição do seu semelhante, estejas certa, Sofie, ela é puramente ilusória, o poder de destruir não é dado ao homem, existe, ademais o de variar as formas, mas não existe aquele que as possa aniquilar; ora, toda forma é igual aos olhos da natureza, nada se perde naquele imenso cadinho onde suas variações são executadas, todas as porções de matéria ali lançadas se renovam incessantemente sob novas formas e quaisquer que sejam nossas ações sobre elas, nenhuma as ofende diretamente, nenhuma delas poderia ultrajá-las, nossas destruições reanimam seu poder, elas sustentam sua energia, mas nenhuma a diminui.

O que importa para a natureza sempre criadora aquela massa de carne que hoje tem a forma de uma mulher se reproduza amanhã sob a forma de mil insetos diferentes? Ousarás dizer que a construção de um indivíduo como nós custa mais à natureza que a de um verme e que, por conseguinte, ela deva dar-lhe mais atenção? Ora, se o grau de atenção ou melhor, de indiferença, é o mesmo, que pode ela fazer, senão pelo que chamamos de crime de um homem, que um outro seja transformado em mosca ou em escarola? Quando me tiverem provado a sublimidade de nossa espécie, quando me tiverem demonstrado que ela é tão importante para a natureza que necessariamente suas leis se irritam com sua destruição, então eu poderei crer que essa destruição é um crime; mas quando o estudo mais ponderado da natureza me tiver provado que tudo o que vegeta sobre o globo, a mais imperfeita das suas obras, tem um preço igual aos seus olhos, jamais suporei que a mudança de um de seus seres em mil outros possa ofender suas leis; eu me direi: todos os homens, todas as plantas, todos os animais que crescem, vegetam, se destroem pelos mesmos meios, não recebendo jamais uma morte real, mas uma simples variação no que as modifica, tudo, digo, tudo se perseguindo, destruindo-se, procriando indiferentemente, aparece um instante sob uma forma e no instante seguinte sob uma outra, podem ao capricho do ser que quer ou que pode move-los, mudar milhares e milhares de vezes num dia sem que uma única lei da natureza possa ser afetada por instantes sequer.

Mas este ser que eu ataco é minha mãe, é o ser que me guardou em seu seio. E daí, não será esta vã consideração que me deterá, e que direito terá ela de me convencer? Pensava ela em mim, essa mãe, quando sua lascívia a fez conceber o feto de onde saí? Posso eu ser-lhe reconhecido por se ter entregue aos seus prazeres? Além disso, não é o sangue da mãe que forma o filho, é somente o do pai; o seio da fêmea frutifica, conserva, elabora, mas não fornece nada, e eis aí a reflexão que jamais me permitiu atentar contra a vida de meu pai, enquanto que considero uma coisa muito simples cortar o fio da de minha mãe. Portanto, se é possível que o coração do filho possa enternecer-se, com justiça, com quaisquer sentimentos de gratidão para com uma mãe, não será, senão, em razão dos seus procedimentos para conosco desde que atingimos a idade de gozá-los. Se teve bons procedimentos, podemos amá-la, talvez devamos mesmos amá-la; se os teve apenas ruins, desligados de qualquer lei da natureza, não só nada mais lhe devemos como também tudo nos leva a decidir eliminá-la, por essa força poderosa do egoísmo que compromete natural e invencivelmente o homem a desembaraçarse de tudo o que o prejudica.

Mas para Sofie, tal modo de pensar se dá apenas “por causa de suas paixões” (leia-se homossexualidade). Ela apela falando sobre os remorsos: quanto mais sensível for o Marquês de Bressac (o que não parece o caso), mais ele os sentirá, e não terá mais um minuto de paz sequer, remoendo a memória da mãe.

Vejo que me enganei, Sofie, disse-me ele, estou mais agastado por vós que por mim. Não importa, encontrarei outros meios e tereis perdido muito comigo sem que vossa patroa ganhasse qualquer coisa.

Ela então aceita a empresa, afim de intervir antes que tal projeto se consolide (note aqui mais uma ocasião em que Justine se utiliza do mal com intuido de minar os planos de alguém – embora com boas intenções).

Este é também um momento onde Justine/Sofie faz mais um de seus questionamentos acerca da virtude (blasfêmia?): Bressac recebe a herança de um tio distante. Rios de dinheiro. Mesmo assim, não desiste da empreitada:

Oh, céus, disse para mim mesma ao saber da notícia. É assim que a justiça celeste castiga as maquinações dos perversos? Eu pensara que ia perder a vida por ter recusado uma trama tão inferior, e eis aí aquele homem nos píncaros por ter concebido um crime espantoso.

Ao dizer isto, porém, logo se arrepende e pede perdão a Deus (o mecanismo de autocontrole da sociedade se infiltra até mesmo no pensamento das pessoas, gerando pecados antes mesmo que as ações sejam executadas).

O Marquês dita os planos para matar a Condessa. Entrega a Sofie um pacote de veneno que deve ser despejado no chocolate que a mãe toma todas as manhãs.

A peça vira agora um quadro de cinema mudo (com narração do Robson Catalunha), engraçadíssimo – pelas feições dos personages, não pelos fatos:

Sofie não usa o veneno. Vai ter com a Condessa e conta para ela dos planos diabólicos do filho. Ela experimenta o veneno em um cachorro muito querido (Tiago Martelli, com um shortinho de pelúcia com rabinho – uma graça), que morre em duas horas com horríveis convulsões (ele fica sacudinho a patinha, uma graça). A Condessa então traça um rápido plano: para afastar o perigo de si, diz que o Marquês vai ter que viajar para cuidar das terras herdadas (a morte do tio e este detalhe não entraram na peça), e escreve uma carta pedindo ajuda à sua influente rede de contatos (sem que o Marquês saiba, claro). Entrega a carta para um criado e o despacha. Enquanto isso, o Marquês, desconfiado de que Sofie não cumpriria com o plano, nota algo errado ao ver o cachorro – muito querido pela mãe – definhando. Saca logo: é o veneno. Então ele nota que um criado leva uma carta. Intercepta-o. Descobre tudo.

Então o Marquês vai à cozinha, onde é feito o almoço, manda o cozinheiro colher pêssegos no pomar e envenena a comida de sua mãe – que morre com ou sem a ajuda de Sofie – quer dizer, pelo menos é assim que Sofie imagina que ela morre (este parágrafo só se passa na cabeça dela).

O Marquês então convida Sofie para um passeio no parque. Muito amável. Sofie se derrete por ele e vai. Ele sempre muito galante. Até que ele o leva para a mesma árvore onde outrora a amarrara.

Sofie treme de medo ao ver que há empregados dele ali. Começa o espetáculo sangrento: sua roupa é arrancada e sua pele açoitada com um nervo de boi.

Nesta hora, acaba a narrativa do cinema mudo.

Nesta cena e em algumas anteriores, devo destacar a participação da atriz Samira Lochter, a Condessa: ela usa um enorme vestido muito rodado – na verdade, a saia do vestido é a estrutura de um carrinho, semelhante a esses que andam com sobremesas nas churrascarias. Enquanto Sofie divaga sobre sua paixão pelo Marquês e este a seduz para sua empreitada, a condessa vira uma bailarina de caixinha de música, ao som de um piano – tocado por Danilo Amaral -, girando em torno de si, com a ajuda das rodinhas em sua saia.

Também ao som do piano, mas à la Chaplin, é a cena do cinema mudo: quando a Condessa morre, na imaginação de Sofie, Samira se enfia no meio daquela estrutura, como se fosse colocada do avesso em seu vestidão, para depois voltar ao normal quando o narrador, Robson, diz “isso apenas na imaginação de Sofie”.

O Marquês faz seus criados acreditarem que Sofie realmente atentou contra sua mãe. Ele promete, inclusive, fazer a mãe – que ainda tem alguns momentos de vida lá no castelo – levar tal ideia para o túmulo. Bressac manda Sofie tomar seu rumo, sem pisar nunca mais naquela cidade. Se o fizer, terá amargos arrependimentos.

Sofie tenta secar todo o sangue que escorreu do corpo usando as folhas das árvores ao redor. Veste-se como pode, com o tecido das roupas fazendo arder as feridas, e parte para seu destino.

Destino que já é em outra cidade, com outro dominador.

O senhor Rodin, o médico.

Dado

PS: Questionamento de Justine/Sofie acerca da homossexualidade do Marquês de Bressac:

(…) depois [o Marquês] acaba dizendo-me que não se corrigia o tipo de vício que o dominava e que, reproduzido sob mil formas diferentes, havia ramos diversos para cada idade, que dando a cada dez anos suas sensações sempre novas, escravizavam até o túmulo aos que tinham a desgraça de venerá-lo… (…) Seria então verdade que quando se chega a transgredir tão formalmente nos gostos as leis desse órgão sagrado, a seqüência necessária desse primeiro crime é uma terrível facilidade de cometer impunemente todos os outros?

Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões (ou ‘Desnudando Justine, parte 3′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

O tom de Commedia dell’Arte da cena anterior desaparece agora.

A personagem que toma conta do destino de Justine/Sofie nos próximos acontecimentos, em ambas as suas aparições, é a que mais coloca em dúvida a candura da nossa protagonista – num jogo no qual Sade coloca a virtude para fazer o papel de bandido – mesmo que seja aquele bandido que a gente sempre torce para vencer. Com Justine é assim: chega uma hora que seu sofrimento nos impele a desejar que ela erre, que deixe a virtude de lado. Dubois (Marta Baião) é a tentação da heroína.

Nos diz Justine:

Ladrões querem violar-me no bosque porque não desejo acompanhá-los. Eles prosperam e eu caio nas mãos de um marquês devasso (…)

(O marquês devasso é Bressac, nossa parte 4 – só amanhã, calma.)

Lançada à prisão, Justine/Sofie ganha a simpatia de Dubois, uma quarentona detentora de uma extensa ficha criminal e uma fama que também não contribui muito com sua reputação. Às vésperas da execução, ela traça um plano mirabolante, e convida Sofie para a empresa:

Entre meia-noite e uma hora (…) esta casa pegará fogo… é obra dos meus cuidados, talvez alguém morra queimado, pouco importa, o que é certo é que nós nos salvaremos, meus cúmplices e meus amigos se unirão a nós e respondo pela tua liberdade.

É uma das cenas mais marcantes em todo o espetáculo: os comparsas entregam para Dubois copinhos com um certo líquido (que, tenho certeza, passarinho não bebe) e tochas. Ela cospe fogo às labaredas (um ator fica com um extintor a postos) enquanto os presos correm em fuga no meio da noite.

Justine/Sofie reflete sobre sua posição: “A mão do céu, que punira a inocência em mim, serviu-se do crime da minha protetora.” Alguns mortos, feridos e emocionantes momentos de fuga depois, Sofie encontra-se em liberdade com dona do crime e seus coparsas. A corja se abriga na cabana de um caçador.

Dubois:

Uma delicadeza deslocada conduziu-te aos pés do cadafalso, um crime horrível te salvou dele; olha bem a que o bem serve no mundo e se não é uma pena imolar-se por ele.

Dubois oferece vida nova a Sofie em Bruxelas (leia-se: cortesã em ascensão social).

Mas para Sofie…

Se a Providência me torna penosa minha passagem pela vida, é para me recompensar mais amplamente num mundo melhor; esta esperança me consola, suaviza todas as minhas tristezas, acalma minhas queixas, fortifica-me na adversidade e me faz superar todos os males que ela possa me oferecer.

Dubois responde com um verdadeiro discurso, que sintetiza muito bem o pensamento sadeano acerca da burguesia de sua época e a forma como esta cria mecanismos automáticos para sua manutenção (vide o que Sofie acabou de dizer na citação acima):

A insensibilidade dos ricos legitima a velhacaria dos pobres, minha menina; que sua bolsa se abra para nossas necessidades, que a humanidade reine em seu coração e as virtudes poderiam estabelecer-se no nosso, mas enquanto nosso infortúnio, nossa paciência em suportá-lo, nossa boa fé, nossa dependência não servirão senão para duplicar nossos grilhões, nossos crimes tornar-se-ão obras deles e seríamos muito tolos em recusá-los para diminuir um pouco o jugo que eles nos impõem.

A natureza nos fez nascer todos iguais, Sofie; se a sorte diverte-se em desarranjar este primeiro plano das leis gerais, cabe a nós corrigir-lhe os caprichos e reparar com a nossa sagacidade as usurpações dos mais fortes. Gosto de ouvi-los, a essa gente rica, esses juizes, esses magistrados; gosto de ouvi-los pregarnos a virtude; é bem difícil preservar-se do roubo quando se tem três vezes mais que o necessário para viver; é bem difícil nunca pensar em assassinato quando se está rodeado de aduladores ou de escravos submissos, em verdade é enormemente difícil ser sóbrio e moderado quando a voluptuosidade os inebria e quando os pratos mais suculentos os cercam, é-lhes bem difícil ser francos quando jamais se lhes apresenta um interesse em mentir. Mas nós, Sofie, nós a quem essa Providência bárbara a quem cometes a loucura de transformar em teu ídolo, nos condenou a arrastar-nos pela terra como serpente na relva, nós que somos olhados somente com desdém porque somos pobres, a quem humilham porque somos fracos, enfim, nós que encontramos em toda parte do mundo apenas fel e espinhos, queres que nos preservemos do crime quando somente a sua mão abre-nos a porta da vida, conserva-nos vivos e nos impede de perder a vida; queres que, perpetuamente submissos e humilhados, enquanto essa classe que nos governa guarde para si todos os favores da fortuna, tenhamos somente o sofrimento, a debilidade da dor, as necessidades e as lágrimas, a desonra e o cadafalso!

Não, não, Sofie, não, ou esta Providência a quem reverencias não é feita senão para nosso desdém ou então não são essas as suas intenções… Conhece-a melhor, Sofie, conhece-a melhor e convença-te que quando ela nos coloca numa situação na qual o mal se nos torna necessário, e se ela nos deixa, ao mesmo tempo, a possibilidade de praticá-lo, é que este mal serve às suas leis tanto quanto o bem se ela ganha tanto com um quanto com o outro. O estado em que ela nos cria é a igualdade, aquele que o desarranja não é mais culpado do que aquele que procura restabelece-lo, todos os dois agem segundo os impulsos recebidos, ambos devem obedece-los, vendar os olhos e desfrutá-los.

Sofie fica realmente balançada com tais argumentos, mas não dá o braço a torcer. Decide partir para su próprio caminho.

Os comparsas de Dubois, já meio altos do vinho, querem se aproveitar dela (biblicamente falando), e ameaçam matá-la depois de satisfeitos. Sofie pede ajuda a Dubois, mas esta faz-se de rogada, nem te ligo – afinal, não é esta apenas mais uma miséria na vida de uma pobre diaba? Quer ajuda, Sofie? Então “Segue-nos, entra para nosso grupo e comete as mesmas coisas sem a menor repugnância, por este preço garanto-te o resto”. Ela então cede à proposta de Dubois.

Veja bem: Sofie cede.

Mas não é verdade: ela apenas disse que cederia, para ganhar tempo.

Pode ser tanto uma mentira de Sofie (o que não seria muito virtuoso) ou uma legítima decisão de partir para o lado negro da força. Seja o que for, sua virtude é gravemente aingida por Dubois. 

Os comparsas, desconsiderando o pedido de Dubois para que não abusem de Sofie (visto que ela teria aceitado a empreitada), começam a brigar para ver quem será o primeiro a deflorá-la.

Sofie aproveita a porradaria e foge para o meio das árvores. Dubois está ocupada demais tentando apartar o agarramento dos marmanjos. Sofie corre até não ver mais a casa onde estivera.

Devo dizer que, na peça, este discurso de Dubois tem lugar apenas na sua segunda aparição (nossa parte 8). No palco, a fuga de Sofie tem destino direto para o bosque, sem intermediários (sem comparsas e ameaças – apenas com a proposta de partir para Bruxelas e o remorso de se utilizar de um crime para obter liberdade).

Enfim.

Após rezar, sentir-se mais forte e tomar coragem para dormir no bosque, Sofie acorda e leva algum tempo para tomar consciência de sua real condição, em meio a lágrimas:

Está bem, (…) então é verdade que há criaturas humanas que a natureza destina ao mesmo estado dos animais ferozes; escondidas em seu reduto, fugindo dos homens como eles, que diferença existe agora entre eles e eu? Será que vale a pena nascer para uma sorte tão miserável?

Antes que termine de chorar, dois homens se aproximam entre as árvores. São amantes, e ali no meio das árvores, consumam seu enlace, vicioso “aos olhos da decência”. Sofie fica horrorizada de presenciar tal desvio: ora, como é possível um homem amar (carnalmente falando) um outro homem?

Ela é notada.

Um desses homens é o Marquês de Bressac.

Dado

Senhor du Harpin, o velho sovina (ou ‘Desnudando Justine, parte 2′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

justine7

Antes de passar para a segunda parte do nosso relato, duas observações:

Primeira: JUSTINE ESTREIA HOJE! às 21h, no Espaço dos Satyros Dois (Praça Roosevelt, 214)

Segunda: no post de ontem, me esqueci de falar sobre a chegada de Juliette à casa da Senhora du Buisson, onde ela aprenderia suas lascivas artes. Coisa simples: a cortesã-mor interroga Juliette quanto à sua virgindade e seus tratos pessoais. O surpreendente está na transposição disso para o palco: a Senhora du Buisson é uma matrona monstrenga, de duas cabeças – um enorme vestido vermelho e preto, largo o suficiente para que as atrizes Luana Tanaka e Marta Baião fiquem lá dentro. Du Buisson é afetadíssima, papel que Marta faz de maneira hilariante. Luana vai no embalo e não faz nada feio – elas fazem parecer que as duas cabeças realmente têm, de fato, a mesma personalidade. Na hora de verificar a pureza da moça (“Mas é que às vezes, nesses conventos um capelão… uma religiosa, uma amiga … preciso ter provas seguras”), pula de trás de Du Buisson um criado, baixinho, pulando e rastejando pelo chão, mais ou menos como um Smeagol, de O Senhor dos Anéis, após ter tomado uns dois litros de café. É este criado que atesta a virgindade da moça. Hilário. (aliás, já não é a primeira vez que a baixa estatura do Robson é explorada em um de seus papéis, como podemos comprovar neste vídeo - falarei mais sobre estre criado assim que eu abduzir uma foto dele).

Enfim, voltemos ao nosso relato.

Diz Justine:

Um usurário na minha infância quer obrigar-me a cometer um roubo; recuso e ele fica rico, enquanto eu fico às vésperas de ser enforcada.

A dona do lugar onde Justine está primeiramente hospedada sugere que ela procure a casa do Senhor du Harpin, onde certamente será acolhida como criada. É o que Justine faz. O Senhor du Harpin é um velho agiota que enriquecera emprestando por penhora e roubando seus clientes. Vivia com a amante, a quem chamava de esposa, no primeiro andar de um prédio na Rua Quincampoix. Foi na ocasião de se apresentar a ele que Justine passa a usar o nome de Sofie.

Justine/Sofie logo é colocada a par das regras da sovinice que imperam naquela casa: deve receber alguns gramas de pão por dia, apenas. Água, meia garrafa, da que vem do rio. Sopa? Como assim, sopa? “Sofrei com o progresso do luxo. Há um ano isso aí procura colocação, morre de fome há um ano e quer tomar sopa.” Não se toma vinho na casa, visto que a água é uma bebida natural e a única que a natureza recomenda ao organismo. Bater panos nos móveis para tirar o pó? Jamais – isso desgasta o tecido. Nada de acender luz também, afinal a janela é de frente para o lampião da rua. O serviço era quase nada:

Trata-se apenas de limpar e arrumar três vezes por semana este apartamento de dez peças, arrumar a cama de minha mulher e a minha, atender a porta, cuidar do cão, do gato e do periquito, e tratar da cozinha, lavar seus utensílios, quer sejam usados ou não, ajudar minha mulher quando faz a comida e empregar o resto do dia a cuidar da roupa branca, meias, toucas e dos outros pequenos móveis. Vedes bem que não é nada Sofie, e ainda vos sobrará muito tempo o qual vos permitiremos de usar por vossa conta.

Também não se usava toalha de mesa, guardanapos e afins, visto que a lavagem de roupa é muito cara e os tecidos se desgastam. O pão era sempre cortado com um prato embaixo, para que as migalhas, acumuladas da semana, fossem fritas com manteiga rançosa e nada fosse jogado fora. Nem mesmo o talco para toilette era comprado: raspavase a parede para obter tal iguaria.

O pagamento era de miséria. Sofie tem consciência de que o trabalho e mais do que suas forças permitem e o pagamento, menos do que seria necessário para viver, mas também tem consciência de sua situação, e aceita.

E que nada sumisse da casa, se não Sofie seria decapitada. “Mas decapitada até a morte, ouviu?”

Justine/Sofie começa a notar que a origem da riqueza do Senhor du Harpin é senão um desejo de multiplicar seus próprios bens a partir da aprorpiação do que não lhe é devido. Isso fica ainda mais claro quando o casal começa a divagar sobre as riquezas de seu vizinho, do apartamento de cima, principalmente uma caixa cheia de ouro:

Após ter-me feito um enorme discurso sobre a indiferença do roubo, sobre a própria utilidade que ele tinha na sociedade, pois restabelecia uma espécie de equilíbrio que desarranja totalmente a igualdade das riquezas, o Senhor du Harpin me deu uma chave falsa, assegurou-me que ela abriria o apartamento do vizinho, que eu encontraria a caixa numa secretária que jamais estava fechada, que eu a tiraria sem qualquer perigo e que por um perigo assim tão essencial eu receberia durante dois anos um escudo sobre meus salários.

Ao que Justine/Sofie questiona:

Oh, senhor, exclamei, é possível que um patrão ouse corromper assim sua empregada? Quem me impede de voltar contra vós as armas que me pondes na mão e o que terieis a objetar-me de razoável se eu vos roubasse segundo vossos princípios?

O Senhor du Harpin disfarça, dizendo que tratava-se de um teste, para que ele soubesse exatamente o caráter da criada que ele colocava dentro de casa. Que bom que Sofie não se corrompia fácil. Que permanecesse assim, ou seria certamente enforcada.

Algum tempo depois, porém, Justine/Sofie acorda assustada, com o quarto sendo invadido por soldados – e, sim, o Senhor du Harpin.

Acusavam-na de roubo. Qual não foi a surpresa de Justine/Sofie quando um dos soldados realmente encontra no quarto um anel da Senhora du Harpin.

Sofie é levada presa.

No palco, há uma presença maior da Senhora du Harpin, interpretada por Gisa Gutervil, cheia de pelúcia, uma representação perfeita dessas peruas da alta sociedade, involuntariamente travestidas de yorkshires na tentativa de parecerem elegantes. Na grande colagem de referências traçadas na peça, as cenas ganham um tom de Commedia Dell’Arte: quando Sofie começa sua labuta, tendo que se dividir em várias, é o que acontece no palco: quatro meninas vestidas iguais, cada uma com seu aspirador de pó ou enceradeira, se espalham para mostar o tamanho do serviço da empregada. Assim como a esposa, o velho, vivido por Ruy Andrade, também é bem caricato, com sua bengala, sua peruca desgrenhada e a cordunda ao andar.

É adicionada uma parte que é apenas sugerida no original: o julgamento. O mesanino presente no porão onde funciona o Espaço dos Satyros Dois é usado como júri. Enquanto Sofie tenta se defender, os próprios jurados desferem xingamentos (o mais engraçado vem de uma das moças: “sua latifundiária!”).

Na boca do juiz (Rodrigo Souza), vai uma ideia que aparece entre os pensamentos de Justine:

Aqui acredita-se que a virtude é incompatível com a miséria e, nos nossos tribunais, o infortúnio é uma prova completa contra o acusado. Uma prevenção injusta ali faz crer que aquele que devia cometer o crime, cometeu-o, os sentimentos ali se medem pelo estado em que vos encontrais e assim como os títulos ou a fortuna não provam que deveis ser honesto, a impossibilidade que o sejais torna-se demonstrada imediatamente.

E mais: por que Sofie seria inocente se ela não possui nada? Quem não possui nada não tem o desejo de possuir?

Nem adianta ela dizer que tal feito era uma represália por ela não querer tomar parte no plano do roubo da caixa do vizinho. Para os soldados, é apenas uma artimanha para se safar.

O Juiz dá o veredito (o martelo que ele utiliza é um pênis de plástico. De tamanho bastante avantajado, eu diria). Justine/Sofie vai presa.

É na cadeia que ela conhece Du Bois.

Dado

Vícios e Virtudes (ou ‘Desnudando Justine, parte 1′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

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Os blogs do Ivam e dos atores vêm sendo a minha fonte oficial de fotos roubadas. Essa aí foi tirada pelo próprio Ivam (Querido, se quiser fazer uma caridade com um pobre blogueiro desprovido de máquina, o endereço é dadocarvalho@ymail.com).

Enfim, vamos ao que interessa.

Diz Justine:

“Sob que estrela fatal nasci para que me tornasse impossível conceber um só sentimento virtuoso sem que fosse logo seguido por um dilúvio de males? Como pode ser que essa Providência esclarecida cuja justiça me comprazo em adorar, ao me punir pelas minhas virtudes, ao mesmo tempo oferece a glória para os que me esmagam com seus vícios?”

Justine e Juliette são filhas de um grande comerciante da Rue Saint-Honoré. Uma é a antítese da outra. Enquanto Justine, 12 anos, é “dotada de um caráter sombrio e melancólico e de uma ternura e de uma sensibilidade surpreendentes, tendo em lugar da arte e da finura de sua irmã apenas uma ingenuidade, uma candura”, Juliette, 15, é “Morena, muito viva, de belo corpo, olhos negros e dotados de uma expressão prodigiosa, muito espírito e, sobretudo, aquela incredulidade da moda que, dando mais chiste às paixões, faz procurar com muito mais cuidado hoje a mulher em quem julgamos encontrá-lo”, além é claro, de possuir a tal “arte e da finura” que falta à irmã.

Até a idade que têm, “nenhum conselho, mestre, bom livro ou talento lhes foi recusado”.

Em um fatídico dia, justo num único dia, uma terrível bancarrota faz com que seu pai fuja por sua vida para a Inglaterra, deixando-as aos cuidados da mãe – esta que, numa crise de tristeza, morre oito dias depois. As meninas ficam entregues à própria sorte, apenas com algumas roupas e um pouco de dinheiro.

Com isso, são obrigadas a deixar o convento onde vivem e partir para o mundo. Nesta ocasião, o diferença na personalidade delas as leva para destinos diferentes. Justine, a pura, se recusa a seguir os passos da irmã, que pretende se entregar ao mundo para tirar dele o seu proveito – leia-se “o mais carnal possível”.

Dito e feito: Juliette encontrou uma casa onde aprenderia suas lascivas artes. Lá, por quatro meses, ela se ofereceu aos homens como sendo virgem, e por quatro meses os homens pagaram por algo que já não mais existia – e Juliette aprendia uma outra nobre arte: a de tomar vantagem sobre as pessoas.

Vários homens perderam a cabeça (e mais tarde o sangue, a vida) por Juliette. Ela fez fortuna se tornando seguidas vezes viúva de ricaços e acumulando títulos de nobreza e um memorável passado de crimes – lembrados apenas por ela, esquecidos pela alta sociedade. Passou a fazer parte da famigerada Sociedade dos Amigos do Crime, para ingresso da qual possuía todos os requisitos. Até que se estabeleceu com outro nobre, o Senhor de Corville, com quem passa um tempo mais extenso, e com quem ela se encontra no início da narrativa.

A vida de Juliette, que a esta altura já se tornara Senhora de Lorsange, dada ao crime, à devassidão, só lhe trouxera lucros e felicidade, ao passo que o destino não sorrira desta maneira a Justine.

(É importante eu ressaltar que a história de Juliette não é contada com muitos detalhes em Justine ou Os Infortúnios da Virtude, visto que na obra de Sade há um livro específico para ela. Na montagem feita pelos Satyros para o teatro, eles explicam um pouco melhor, adicionando elementos da vida da devassa no enredo. Assim é com a cena da Sociedade dos Amigos do Crime.)

A história começa com uma viagem da Senhora de Lorsange e o Senhor de Corville, quando eles cruzam, num albergue, com um grupo de guardas que transportam uma prisioneira que será julgada e, muito provavelmente, executada. Porém, os próprios guardas repudiam a ideia, visto que a criatura transportada é doce demais para ter cometido as atrocidades pelas quais é acusada.

A madame se interessa pela ré, mexe seus pauzinhos e a deixa sob seus cuidados, a fim de saber sua história, sem saber que trata-se de Justine, quinze anos depois da fatídica separação.

Justine, que assumiu o nome de Sofie, também sem saber que a Senhora de Lorsange é Juliette, conta detalhadamente o que lhe ocorreu nestes anos todos.

Da ocasião da saída do convento, todas as atitudes de Justine, baseadas na virtude, na bondade, a fizeram mal. Atenção nesta parte: o que fez mal para Justine foram as atitudes de pessoas perversas frente a sua ingenuidade, e sua incapacidade de se levantar contra estas pessoas utilizando-se dos mesmos artifícios, visto que ela é virtuosa.

As desventuras em série começaram no momento em que ela pôs os pés na rua. Foi primeiro pedir ajuda à costureira, que sempre tivera carinho por ela e que sempre fizera seus vestidos quando menina. A costureira deu com a porta em sua cara. Negou duramente ajuda. Justine supõe qual seja o motivo: não tem mais dinheiro para seus vestidos: “é porque só se gosta das pessoas por causa da ajuda ou dos agrados que se imagina que possa vir a receber.”

A moça ainda vai a paróquia pedir ajuda ao padre. Este, ao ver uma bela lolita se aproximando, enche-se de más intenções e tenta beijá-la a força. Justine se irrita: “Senhor, não vos peço nem esmola nem um lugar de criada, não faz muito tempo que deixei um lugar muito superior para me ver reduzida a isso; peço-vos os conselhos que minha juvetude e minha desdita precisam, e quereis fazer-me comprá-los com o crime.”

Com o dinheiro que ainda tem, encontra um quarto para passar uns dias, quando lhe indicam o Senhor Duburg, homem que certamente lhe dará trabalho como criada. Ele até oferece tal posto, mas a condições incompatíveis com os princípios de uma moça casta e virtuosa.

O diálogo entre eles é comprido. Duburg fala sobre o egoísmo humano, sobre “trocas de interesses”. Para ele, a religião ”não é senão o grilhão ilusório cuja impostura quer cativar o mais forte”.

Separei duas partes da conversa entre eles:

— Que importa? A França tem mais súditos do que precisa; o governo que vê tudo em tamanho grande pouco se preocupa com os indivíduos, contanto que a máquina funcione bem.

— Mas credes que os filhos respeitam o pai quando são assim tão maltratados?

— Que faz a um pai com filhos demais o amor daqueles que em nada o ajudam?

— Seria então melhor que nos tivessem asfixiado quando nascemos?

— Mais ou menos, mas deixemos de lado esta política da qual não deveis compreender nada. Por que reclamar da sorte quando só depende de vós mesmo dominá-la?

— A que preço, céus!

— Ao preço de uma quimera, de uma coisa que não tem valor senão aquele que vosso orgulho lhe dá.

(…)

— Oh, senhor, então não existe mais generosidade nem sentimentos honestos no coração dos homens?

— Muito pouco, minha menina, muito pouco, já se largou dessa mania de obsequiar gratuitamente os outros; isto pode ser lisonjeiro para o orgulho, mas só por instantes; e como não existe nada tão ilusório e fugaz como esses prazeres, passou-se a querer coisas mais reais em troca e somos da opinião de que, de uma menina como vós, por exemplo, valeria infinitamente mais obter como fruto dos seus adiantamentos todos os prazeres que a libertinagem possa dar, do que orgulhar-se de ter dado uma esmola. A reputação de um homem liberal, capelão, generoso não vale, para mim, a menor das sensações dos prazeres que podereis dar-me; coisa na qual estou perfeitamente de acordo com quase todas as pessoas do meu gosto e da minha idade. Achareis melhor, minha menina, que não vos ajude senão em troca da vossa obediência a tudo o que se aprouver exigir de vós. é porque só se gosta das pessoas por causa da ajuda ou dos agrados que se imagina que possa vir a receber.

Decepcionada, Justine parte para o seu destino. E o lugar onde ela acaba chegando é a casa do Senhor Du Harpin.

Dado

O fim da Trilogia Libertina (ou ‘Desnudando Justine, parte zero’)

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Justine estreia terça, dia 21, às 21h. Também estará em cartaz às quartas, no mesmo horário. Espaço dos Satyros Dois (Praça Roosevelt, 214). Dessa vez, roubei a imagem do blog do Robson, com quem bati um papo na última quinta (“Foi você que quase atropelou o Rodolfo?”). Tem no blog do Henrique também.

Trata-se do fim da Trilogia Libertina, baseada na obra do Marquês de Sade. O projeto foi inaugurado com Sades ou Noites com Professores Imorais, em 1990 (mais tarde rebatizada como A Filosofia na Alcova, tíulo da obra original). Em 2006, os Satyros estreiam 120 Dias de Sodoma.

Enfim.

Passei o fim de semana lendo o original, Justine ou Os Infortúnios da Virtude, para saber exatamente do que se trata. Quanto mais eu lia, mais me surpreendida com a forma com que a obra foi adapta para o palco, conforme eu vi nos ensaios.

Como o In Utero é o blog de um livrorreportagem sério, nossos assíduos leitores (pai, mãe, professor orientador, um beijo) vão conferir os apontamentos acerca do trabalho todo. Mãos à massa.

Antes, porém, é bom mostrarmos a forma como isso será feito. Separei um trecho do livro no qual a própria Justine relembra seus infortúnios. Ela não deixa nenhum de lado. Lá vai:

“Sob que estrela fatal nasci para que me tornasse impossível conceber um só sentimento virtuoso sem que fosse logo seguido por um dilúvio de males? Como pode ser que essa Providência esclarecida cuja justiça me comprazo em adorar, ao me punir pelas minhas virtudes, ao mesmo tempo oferece a glória para os que me esmagam com seus vícios? (1) Um usurário na minha infância quer obrigar-me a cometer um roubo; recuso e ele fica rico, enquanto eu fico às vésperas de ser enforcada (2). Ladrões querem violar-me no bosque porque não desejo acompanhá-los (3), eles prosperam e eu caio nas mãos de um marquês devasso que me dá cem chibatadas com nervo de boi por não querer envenenar sua mãe (4). Dali vou parar na casa de um médico a quem salvo de cometer um crime execrável; o carrasco, para recompensar-me, me mutila, me marca e manda embora (5). Seus crimes se realizam, sem dúvida, ele faz fortuna e eu sou obrigada a mendigar meu pão. Quero aproximar-me dos sacramentos, quero implorar fervorosamente ao ser supremo que me envia tantas desgraças,o augusto tribunal onde espero purificar-me num dos mais santos dos nossos mistérios, torna-se o mais terrível teatro da minha desonra e da minha infâmia (6). O monstro que abusa de mim e que me desonra, recebe sem demora as maiores honrarias enquanto eu caio novamente nos abismos horríveis da minha miséria. Quero ajudar um pobre, e ele me rouba. Ajudo um homem desfalecido, o perverso faz-me girar uma roda como besta de carga (7). Esmaga-me com chicotadas quando as forças me faltam, todos os favores da sorte lhe são dados e estou prestes a perder a vida por ter trabalhado a força para ele. Uma mulher indigna quer seduzir-me para um novo crime (8) e torno a perder os poucos bens que possuo para salvar a fortuna de sua vítima (8,5) e para evitar sua desgraça. O infeliz quer recompensar-me dando-me seu nome e expira nos meus braços antes que possa fazê-lo. Exponho-me a um incêndio para salvar uma criança que não é nada minha (9) e eis-me pela terceira vez sob o gládio da Têmis. Imploro a proteção de um desgraçado que me desonrou (10), ouso esperar que ele se sensibilize com o excesso dos meus infortúnios e novamente ao preço da minha desonra é que o bárbaro me oferece ajuda. Oh, Providência, será que eu sou obrigada por fim a duvidar da tua justiça? Que outros flagelos maiores ter-seiam abatido sobre mim se, a exemplo dos meus perseguidores, eu tivesse sempre adulado o vício? (11)

Com base nisso, enumerei as etapas para facilitar a contagem da história e a compreensão das ideias contidas em cada uma. São as seguintes:

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

Assim sendo, nos próximos dias, começo a dissecar o caso – não da mesma maneira que o doutor Rodin, calma. Vou aproveitar para comentar a forma que isso tudo foi adaptado para o teatro.

Enfim, nos vemos nos próximos posts – ou no dia da estreia, lá nos Satyros Dois. Quero ver todo mundo lá.

Dado

DEZENOVE!… DEZOITO!… (ou ‘Eu descobri o segredo do Teatro Veloz’)

justine2
Semana que vem estreia Justine, no Espaço dos Satyros Dois (a foto, roubei do blog do Ivam). Segundo os próprios Satyros, trata-se da peça com a experiência cênica mais ousada do grupo. Antes disso, porém, muitos ensaios. E ajustes. Rolaram alguns ensaios abertos ao público – era ensaio, mas tinha a maior cara de espetáculo pronto. Fui no de terça. O Rodolfo disse, antes da peça começar, que faltavam alguns figurinos, e algumas marcações ainda não tinham sido ensaiadas. Confesso que, se ele não tivesse mencionado, pouco notaria.

No dia seguinte, o grupo ia se reunir algumas horas antes do outro ensaio aberto, para discutir os pontos de atenção. Eu, intrometido, me convidei para participar.

Lá cheguei. O fato de eu já ter conversado com o Rodolfo e com o Ivam tirou um pouco daquele clima de Missão Impossível da empreitada. Mas logo notei que, lógico, o grupo não é formado apenas pelos fundadores. Me enfiei no meio dos atores (em Justine são 21) e fiquei lá, quietinho, só obserando. “Você aí, só anotando, hein”, disse o Rô, quando me encontrou. “Eu não interfiro!”, respondi com ar de escoteiro.

Enquanto aguardávamos o salão ficar vago (tinha um outro grupo ensaiando), sentei num canto enquanto os atores – todos muito amigos e bem humorados – confabulavam. Algumas risadas, cigarros e palavrões depois, Rodolfo aparece com um bolo de papeis nas mãos, dizendo: “Quem quer ver o cartaz da peça!”, e vários “Eeeeeeu!” ecoando na ante sala. A arte dos cartazes é linda – como para descrevê-los é preciso narrar algumas cenas em que as fotos foram tiradas, e eu ainda não falei sobre a peça, deixo isso de lado – vocês os verão assim que eu conseguir as imagens.

Salão desocupado, lá vamos nós. Cada um foi arrumando o que fazer num canto (modo de dizer, porque todos circulavam ou no meio do palco também). Quem não estava com algo na mão fazia brincadeiras com os colegas. Duas garotas em particular se divertiam muito: uma loira dos cabelos bem fininhos e cacheados e uma outra com traços orientais, também com cabelos cacheados. Corriam e riam e faziam piadas referentes a brownies - piadas sobre as quais entendi coisa alguma, mas elas estavam muito engraçadas nos trejeitos, correndo loucamente e falando sobre brownies como uma criança que ganha um presente.

Daí o Rodolfo chamou a atenção, com avoz ecoando pelo palco, pela coxia: “Vâmo lá, gente, vamos fazer uma roda aqui. TODO MUNDO”. Como ninguém vinha, lá ia ele: “TODO MUNDO: DEZENOVE… DEZOITO… DEZESSETE… DEZESSEIS…”

Fiquei sem entender se ele estava contando segundos ou pessoas. Principalmente quando chegou no número oito. “SETE… SEIS… VAMOLÁ, pessoal, tá acabando!”

Sim, ele contava as pessoas – percebi quando ele chegou no três e parou. Ele explica: “Eu acho ótimo, porque você fica gritando, ninguém vem. Daí você começa a contar, aparece todo mundo.”

Papo vai, papo vem, e alguns atores se refestelavam no chão, se esticando. Cada um começou a rir dos equívocos dos bastidores, no dia anterior. Para se ter uma ideia: um dos atores se enrolou no texto. Por conta disso, deu uma disfarçada e improviou algumas palavras. Por conta disso, o outro ator, que deveria entrar em cena depois de uma certa frase, não entrou. Por conta disso, a protagonista também não entrou e, por conta disso (não aguento mais esta frase), uma parte bastante decisiva da cena foi deixada de lado. Rebucetê total.

Daí uma atriz se sentou ao meu lado. Samira. Uma bela morena. Elétrica, não pára quieta: enquanto está no palco, aguardando a vez de ensaiar, fica sapateando, fazendo “tap-tap-tap” com os pés no chão. Muito bem-humorada. Confidenciou comigo (que pena, todo mundo vai ver no blog agora): “O Rodolfo me contou outro dia que este é o único segredo do Teatro Veloz. Não tem esse negócio de técnica, de texto, de nada não. É só contar os números de trás pra frente!” Caímos na risada.

“Daí, pensa: se eu contar de dois em dois, já posso fazer mestrado em Teatro Veloz!”

Só para explicar: Teatro Veloz é o sistema de criação teatral criada pelos Satyros. Não envolve só técnicas: é muito mais sobre o conceito da peça (e seu contexto) do que de técnicas. Foi a tese de mestrado do Ivam. Preciso me aprofundar nisso (embora eu tenha certeza de que ele me explica de muito bom grado).

Samira ficou ali por mais uns minutos. Nos divertimos um pouco com as tentativas de um garoto em vestir a loirinha em uma das cenas. Acho que já somos amigos (Samira, me add no MSN?).

Enfim: ensaios teminados, algumas roupas modificadas, adaptações de cenas. Fim da etapa. Preparação: alonga daqui, alonga dali – o corpo é muito usado nesta montagem. Aquecimento de voz (TrrrrRRRrrrRRRrrr… BrrrRRRrrrRRRrrr…). Se juntaram para um último toque, em roda, com as mãos dadas. Mas desta vez, sem gritaria, sem números ao contrário (vou treinar esta técnica. Rodolfo que me aguarde – finalmente um dramaturgo concorrente à altura, rs). Todos sérios, quietos, vestidos de acordo com as primeiras cenas da peça. Silêncio.

Bate pé. Sincronia. Aos poucos, foram fazendo um ritmo com aquele som, enquanto declamavam uma espéie de grito de guerra, o grito dos Satyros selvagens no culto a Dioniso, o grande mestre.

Foi o momento que mais me tocou, aquele ritual. Tal como o ritual da reunião depois da peça (pelo menos depois dos ensaios). A contagem regressiva antes da roda. A roda. Aquele era o grande ritual, no pequeno templo dos Satyros, aquele salão enfiado na terra, em frente ao elevado da praça Roosevelt.

Eles são mágicos.

Depois do ensaio da terça, a Ana falou pro Ivam que a percepção dela sobre o projeto mudara completamente depois de ver o ensaio aberto da noite anterior. Quando a vi, mais tarde (passei por tudo isso sozinho), contei: Sim, é verdade, mudou. Mas depois de ver o ensaio fechado, a minha se transformou mais ainda.

Eles são mágicos. E eu estou imensamente feliz por estar presente naqueles momentos.

Eles são Satyros.

Dado

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