Eu já tinha passado lá uma semana antes, para sentir o drama da coisa. Fiquei morrendo de medo. Tinha lido coisas horríveis sobre o lugar e confesso que a minha impressão ao chegar lá realmente não foi das melhores.
Tinha acabado de chover uma daquelas chuvas de verão de São Paulo. Aliás, depois que saí de lá, cheguei à conclusão de que não existe lugar mais com a cara de São Paulo do que a Praça Roosevelt. Olha só: Ela é construída em cima de um elevado, no fim da Rua da Consolação, perto da Augusta, atrás da Igreja da Consolação. No quarteirão ao lado (o centro tem um emaranhado de ruas que você nunca sabe o que está do lado, à frente ou atrás), tem o tradicionalíssimo Copan. Subindo a Consolação, tem o cemitério. Nos arredores, tem os bares, baladas e casinhas da luz vermelha da Augusta e afins. Enfim, a Praça Roosevelt é o coração de São Paulo – um coração meio apodrecido em uma cidade meio apodrecida, mas que mesmo assim, tanto a praça quanto a cidade possuem uma coisa que faz seus frequentadores e moradores se apaixonarem por elas.
Enfim, a praça. Daí, nela tem um estacionamento subterrâneo (subterrâneo em relação à praça, não ao que tem embaixo dela). Ao lado, a entrada de uma rua que, assim como o estacionamento, vai pra baixo da terra – só que passando da praça, fica ao ar livre, porque ultrapassa o elevado da praça. E sobre a praça, tem um outro elevado, um patamar suspenso, com um enorme vão embaixo, cheio de rampas para as pessoas subirem. Cheiro de urina total. Cheio de mendigos e pessoas andando de skate – tanto embaixo quanto em cima.
Là em cima, a impressão é estranhíssima: parece uma clareira no meio dos prédios. Ao redor, um paredão de edifícios da praça. Em um dos lados – o da igreja – um enorme muro de árvores – alguém notou isso e pichou na mureta da praça a frase “dark side”.
Da mesma forma que a praça forma uma clareira no meio do concreto da cidade, um buraco entre os prédios altos, há uma outra particularidade: quase não há vegetação. É uma praça de concreto, com algumas árvores enfiadas grotescamente em uns caldeirões de cimento feitos no meio daquele elevado. É a coisa mais estranha do mundo.
À noite, a parte de baixo do elevado fica iluminada com aquelas lâmpadas amarelas fortíssimas, que deixam o local com aspecto de cenário de filme sobre gangues.
Foi neste lugar, anteirormente um reduto cultural (acredito que antes da construção do elevado, preciso pesquisar), que sofreu com a repressão da ditadura milirar e virou um antro de marginalidade, que os Satyros resolveram se instalar. Esta história rende outro enorme post.
É até engraçado você sair de alguma peça lá pela meia-noite e ver todo mundo nas mesinhas dos botecos confabulando com todo este cenário. De vez em quando passa um mendigo pedindo um gole de cerveja ou alguma moeda. Tem o tiozinho do milho, o Fidélis, supersimpático.
Enfim. A peça. Era dia de apresentação da turma dos oficineiros. Me parece que foi a turma de férias. Eu queria assistir uma aula (recebi um e-mail falando sobre as novas turmas e me convidando para participar. Queria ver uma aula. Liguei e quem me atendeu foi o Diogo. Disse que haveria a tal apresentação. Fui ver. Domingo à tarde.
O Espaço dos Satyros é bem pequeno. Tem um café na frente, bem pequeno também. Paredes pintadas de roxo, uma graça. Já contei que o ingresso era um pirulito.
Os atores entraram. Era uma sala de aula do terceiro ano. Todo mundo entrava gritando e fazendo brincadeiras de criança (tocava a música da Adriana Calcanhotto, Ciranda da bailarina – também tinha uma versão com um coro infantil). A professora pra lá de ranzinza chegava, mandva todo mundo calar a boca e fazia chamada.
Daí, ela pedia para as “crianças” (tinha uns belos rapazes bem crescidinhos ali, viu) lerem as redações cujo tema era “as minhas férias” (descobri uma semana depois, fuçando no orkut da comunidade – achei alguns atores lá – que este era o nome da peça).
Daí, quando os alunos liam as redações e os outros alunos encenavam a situação.
Devo confessar: quando vi que a peça se passava numa sala de aula, pensei “então são estes os Satyros?” Mas quando vi que aquilo seria apenas um suporte para eles experimentarem diversas linguagens dentro das redações e assim se desenvolverem como atores versáteis, minha impressão se transformou completamente – e quando a gente se surpreende com as coisas, é quando elas se provam realmente boas.
No final, os alunos – na peça e na oficina – agradeceram ao Rodolfo Garcia Vásquez – que estava no fundo da plateia. Deram flores pra ele. Olha que coisa, eu já tinha lido tanto sobre ele, o Rodolfo, e nunca ia imaginar que ele estaria tão perto.
Pois estava. Eu nunca me esqueço de um rosto. Lá ele estava.
Agora só faltava ver o Ivam Cabral.
Bom, vou continuar a minha quixotesca história em outro post. Já vou avisando a quem acompanhar: isso vai durar o ano inteiro.
Dado