Vai perder?

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Quem chegar por último é a mulher do padre Rafael!

Corre, Dado, Corre (ou ‘Os cães da Praça Roosevelt, parte 2′)

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Fotografar a praça não foi das atividades mais simples, ainda mais depois de descobrir que nem todos os mendigos de lá saem recitando Vinícius de Moraes para a gente.

Minhas desventuras em série resolveram se manifestar um certo tempo antes de eu pisar na praça com este intuito.

A começar pela câmera. Eu até tenho uma máquina fotográfica. Ela deve ter sido bem bacana um dia, visto que possui um adesivinho escrito “made in USSR” – e levando em conta o tempo desde que a União Soviética acabou, concluo que a máquina não é assim um primor da tecnologia.

Daí fui até a faculdade para retirar uma câmera no setor de multimeios. Eu sou oldschool, gosto do filme. Por mais que me digam que as câmeras atuais fazem isso e fazem aquilo, nunca consegui regular um obturador de máquina digital que não fosse reflex.

A Ana Raquel até tem uma super modernosa. Mas lá em Praga, que é onde ela deve estar neste momento, a câmera deve estar sendo empregada em assuntos mais nobres.

Chegando à faculdade, descubro que houve uma reformulação no processo de empréstimo de equipamentos do setor de multimeios, e eu precisaria da autorização do meu orientador. Ok, sem problema, vou lá, falo com o Rodolfo, contamos meia dúzia de anedotas, ele me puxa orelha por conta do atraso no projeto, subo lá com o papel na mão e pronto.

Mas não foi tão simples. Onde estava o sr. professor Rodolfo? Devia estar no aconchego do lar, com o notebook ligado, de olho nos textos antigos do In Utero. Certeza.

Após algumas escalas, volto eu para o meu não tão aconchegante lar para dar um oi para minha querida e antiga máquina Zenith. Um professor já tinha comentado comigo e, alguns anos depois, pude ter absoluta certeza: minha lente estava com fungos, o que a deixa com algumas manchinhas (que eu jamais imaginaria se tratar de fungos). Segundo ele, a situação estava feia, “quase um pântano. Jesus”. Tudo bem, nada que um paninho e um solvente não resolvessem. Foi o que ele disse. E muito cuidado na hora de desmontar (um outro mestre havia sugerido que não, Dado, não faça isso de jeito nenhum e leve sua máquina para um profissional. Mas eu cresci assistindo a Ana Maria Braga fazendo comida na TV e sou adepto do “faça você mesmo”, então vamo que vamo).

Lá vai o Dado e seu algodãozinho.

Até consegui tirar alguma coisa, mas o grosso do fungo estava por dentro da lente. Nada que umas minúsculas chaves de fenda que tem aqui em casa não resolvessem.

Peraí, chaves…  minúsculas?

O quinto parafuso fez com que eu me sentisse como se tivesse acabado de comer um cogumelo gigante da Alice. Mesmo assim, algumas peças sobraram após a minha tentativa de remontar a objetiva.

Ó, meu pai. O jeito foi apelar para o meu irmão. Ele sempre descola uma máquina onde ele trabalha – para os mais nobres motivos, como a minha matéria sobre grafite, a minha matéria sobre musicoterapia, a minha matéria sobre prostituição… Já somos até íntimos, a máquina e eu.

Momento de glória: sábado à noite eu descubro que meu domingo não seria perdido (foi quando ele chegou com a tal câmera).

E lá vou eu numa nublada tarde dominical, nem ligando para o fato de que é dia de feira na rua João Guimarães Rosa, ou seja, na praça, e no meio da tarde ela estaria um pouquinho mais fedorenta do que o comum. Tudo bem, né gente. Pra quem já está acostumado com o odor dos dejetos fisiológicos dos moradores de rua, o que seria o chorume do fim da feira?

Consciente de que eu estava no centro de São Paulo, sozinho e fotografando a moradia de dezenas de indigentes, tomei um certo cuidado para ser discreto. De fato eu o estava sendo, evitando tipos suspeitos e tal. O lance é que eu estava na Praça Roosevelt, e “tipos suspeitos” e outros conceitos sociais não fazem muito sentido ali. Um ótimo exercício de sociologia, eu diria.

Após captar diversas imagens do fétido baixo da praça (como na foto que ilustra este post), quase chegando na rampa próxima à rua Augusta, um cara com um saco de latinhas grita “Ei, não pode tirar foto aqui não!” Ah, querido, nem te ligo. Fiz a egípcia mesmo. Ele continuou: “NÃO pode tirar foto aqui não!” Te desprezo.

Daí ele começou a chamar outros mendigos que estavam por ali e apontar para “o careca com cavanhaque e bolsa de jornalista” e dizer que “ele ali tá tirando fotos daqui”. “E não pode!”

Temendo pela minha integridade física e notando que de repente o baixo da Praça Roosevelt estava bem parecido com a cena do Thriller em que os mortos começavam a se levantar da tumba (só que no lugar de mortos-vivos, ali eram mendigos – embora parte do figurino muito se assemelhasse), decidi sair pela tangente o mais breve possível antes que alguma música começasse a tocar (afinal, quem estava prestes a dançar por ali era eu).

Saio loucamente pela Martinho Prado, entro na Avanhandava, subo uma mega escadaria que vai dar na Caio Prado, volto para a Consolação e resolvo dar por encerrada a minha jornada fotográfica dominical 27 fotos depois de tê-la iniciado.

No caminho, ainda cruzo com um professor que me deu aula há cinco anos (que nunca recuperou sua reputação depois de ter dito para uma turma de 30 garotos heterossexuais de 15 a 17 anos que morava “na avenida da Parada Gay”. Gente, era um curso técnico em Mecânica. Coitado). Resolvi continuar minha fuga. Afinal, depois dos zumbis, encontrar um fantasma não era exatamente o que me faria chamar aquilo de desfecho agradável.

(Brincadeira. Eu adorava esse professor. Vê-lo só me fez passar a tarde refletindo sobre uma série de coisas. Não tive coragem de ir falar com ele, mas isso é assunto para o meu outro blog.)

Enfim, amigos. Acho que precisarei tomar um pouquinho mais de cuidado quando for tirar fotos do que não consegui hoje. De uma coisa eu já sei: sozinho é que eu não vou mais!

Dado

Da Paulista à Ipiranga (ou ‘A Imersão’)

Dia desses, marquei uma entrevista com Alberto Guzik. Foi uma situação meio irônica, afinal o cara foi jornalista quando eu ainda estava nas fraldas. E também porque ele fez carreira exatamente no jornal onde eu estou tentando buscar um lugar ao sol. E depois de anos de redação, o lado artístico falou mais alto e lá foi Alberto se entregar ao teatro (possibilidade que, devo confessar, já passou pela minha cabeça).

Ah, ele também é o autor de um dos únicos livros que falam sobre Os Satyros, Um palco visceral. Tem um outro, do Ivam Cabral, Quatro textos para um teatro veloz, mas, como o próprio nome sugere, não conta a história da companhia. A Imprensa Oficial também está preparando um outro, que ainda não teve o nome divulgado, com fotografias dos vinte anos do grupo.

Enfim, fui para a casa do Alberto sabendo de tudo isso. Sim, ele me recebeu no próprio apartamento, um lugar muito elegante. Falamos por um pouco mais de uma hora e eu saí já meio com medo dos monstros noturnos que aparecem por São Paulo (ainda mais depois das 21h).

Cheguei em casa vivo, obrigado. O que me chamou atenção no episódio inteiro, além da entrevista em si (Alberto é um verdadeiro lord do teatro) foi o meu dia até a chegada deste momento.

Eu saio meio cedo do trabalho (os horários em uma redação são completamente diferentes de qualquer outro trabalho “normal”), então resolvi dar uma passada na Praça Roosevelt antes da hora marcada (também moro bem longe, tanto da praça quanto do jornal, o que faz com que eu precise planejar bem os meus compromissos, para não precisar passar o dia dentro de um ônibus). Passei na padaria Santa Efigênia (só de lembrar daquelas rabanadas… já tenho coisas), enrolei o quanto pude, mas minha ansiedade me pediu para ir caminhar.

Subi e desci a Rua da Consolação umas duas vezes. Em parte porque eu estava com remorso por causa das guloseimas que acabara de comer (ai, rabanadas…) e em parte porque eu realmente não fazia ideia de onde era a rua que o Alberto mora – embora ele tenha me explicado direitinho. Cerca de meia hora antes do combinado, já cansado de caminhar e com o dia já escuro, me enfiei em uma daquelas ruas que cruzam a Paulista e fiz uma das coisas que mais me dão prazer no mundo: sentei-me na calçada.

É incrível como as pessoas ficam alarmadas quando veem alguém fora de um trajeto pré definido. Eu estava ali, sentado em uma elegante rua da cidade, bem próximo a um elegante restaurante, lendo uma revista (tentando ler uma revista, afinal o dia já estava escuro e a luz do poste ain’t no luz do sol). Já era o suficiente para eu ser olhado meio torto por quase todos os que passassem. Ok, eu entendo completamente o medo que as pessoas têm de bandidos, ainda mais ali onde eu estava. Mas, céus! Este pavor tão descarado não deixa todo mundo muito mais vulnerável?

Levantei porque aquilo estava me incomodando (e a pessoa que passava à minha frente nesta hora quase saiu correndo de medo. Tsc tsc). Fiquei circulando pelo quarteirão. Daí foi outra coisa que chamou atenção. Conhecem o centrão? Não é muito longe dali. É só descer a Consolação ou a Augusta que a gente já chega lá. No entanto, a visão é completamente diferente. Lá em cima, na Paulista, Bela Cintra, Haddock Lobo, todo mundo bem vestido (ou quase), elegante (ou quase), importante (ou lutando para sê-lo). Lá embaixo, gente degradada, senhores com cartazes escrito “compro ouro”, sexo fácil – e barato. Lá em cima, os cults, alternativos que se orgulham por (em suas cabeças) não fazerem parte da massa, do povo. Lá embaixo, povo que é povo e só, que cruza a cidade para chegar ao trabalho – de balconista, limpador de vidro, operário.

Lá em cima, a estação Brigadeiro, a Paraíso, a Consolação. Lá embaixo, a República, a Anhangabaú, a Sé.

São contrastes – os tais contrastes de São Paulo. Mas, céus, não estamos a quilômetros e quilômetros de distância. Isso acontece a poucos quarteirões! Basta descer uma rua, apenas uma, para que o glamour da Paulista vire a sujeira da Ipiranga. Os michês do Trianon vão para as caras boates. Os da Praça da República… e precisa deles com aqueles cinemas pornô ali? Onde, a R$ 10, qualquer homem dá e come anonimamente numa sala escura.

No entanto, mesmo com esta proximidade destes extremos, o simples fato de uma pessoa, também bem vestida e sem nenhum dos estereótipos de bandido, sentar-se na calçada, já é suficiente para causar esta hostilidade gritante, embora silenciosa.

Nesta sociedade, cada um sabe do seu lugar. Não precisa ninguém ensinar.

Descer a consolação não é só descer uma rua. É imergir na história da cidade. É sair da modernidade do progresso da Paulista e ir rumo aos prédios antigos e degradados do centro. É ir intensificando as nuances da cidade – o mega abismo entre os carrões saindo dos prédios empresariais e os carrinhos de sucata dos mendigos. Mendigos estes que estão por todos os lados, em cima e embaixo. Disso ainda não se livraram ainda, dessa fome sem nome.

É neste contexto que fica a Praça Roosevelt.

Sabem o que ficou na minha cabeça depois disso? A Praça Roosevelt só virou este fenômeno do teatro underground porque ali esta monstruosidade é personagem. O teatro feito ali joga luz no absurdo que é esta prisão que é esta cidade: uma sociedade que não percebe a vida além de seu próprio e belo quarteirão. Talvez os cults lá de cima logo se cansem. Morrendo de medo de ser “do povo”, vão embora assim que a Praça perder o hype. Mas, felizmente, e Os Satyros já provaram isso, a arte gera transformações. E estas não vão embora na época que o hype termina.

A entrevista com o Alberto? Infelizmente não posso contar nada aqui. Nem gravada ela não foi. Mas saí de lá com uma sensação boa no coração: Alberto faz todos os dias este caminho, Consolação abaixo, tal como Rodolfo e Ivam também o faziam quando moravam naquele mesmo prédio. E toda esta observação das coisas… Não é à toa que fizeram o que fizeram com aquele lugar, a Praça.

Indignação nos faz pensar bastante. É daí que vem a arte.

Dado

Tentaram me tirar da festa libertina, mas eu disse ‘não, não, não’ (ou ‘a noite em que Amy Winehouse atirou a peruca na minha cara’)

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Eu já tinha ouvido falar nas festas dos Satyros. Teve um tempo que rolava a Festa na Boate (o Espaço dos Satyros Dois é uma antiga boate), com direito a show de sexo explícito e tudo. Numa cena bastante emblemática para o enredo da coisa, Dimi Cabral, irmão do Ivam, teria cantado uma versão de Devolva-me, em que dizia “Rasgue as minhas pregas e… não me procure mais…” Uma loucura.

A festa que rolou na última madrugada não chegou a tanto. Foi o Bota Fora da Trilogia Libertina. Os Satyros estão prestes a partir para o Rio, para levar os espetáculos Liz, Monólogo da Velha Apresentadora, e a Trilogia Libertina – A filosofia na alcova, 120 dias de Sodoma e Justine. Daí  fizeram uma despedida. Enquanto o pessoal pagava a entrada, Rodolfo dizia animado: “Agora a gente não passa fome!” (vale lembrar o perrengue que rolou com eles quando partiram para a Europa – mas isso é assunto para outros posts).

Já nas escadas, para descer para o porão-boate-teatro, um aviso, escrito em giz: “bienvenue au boudoir.” Bebidas? Muitas, com nomes bem sugestivos. “Tesão de Sade”, “Cu[ba] Libre”, além de sei-lá-o-quê de “Me[n]ta”. Na bilheteria, um libertino vestido a caráter. Parecia saído de 120 dias. O cara usava um sobretudo roxo, todo ornamentado, botas de sola grossa e uma calça… não, o cara estava sem calça, com uma boxer bordô. “Vocês estão prestes a entrar no castelo de Silling [onde os amigos libertinos aprisionam os jovens em 120 dias]. Agora precisam decidir se querem ser libertinos ou se querem ser vítimas.” Adivinhem o que as pessoas ali queriam ser.

(Pausa para o relato da Teoria da Dissonância Cognitiva: Ana Raquel diz “Frio nas pernocas?” Libertino faz pausa de alguns segundos, e responde um cordial ”Obrigado”. Vai entender.)

Os próprios atores comandavam o bar, a chapelaria e o som – tudo muito colaborativo. Rodolfo chegou a alertar: “Vocês vão conhecer a Cláudia Leitte!” Como assim, Rô? Axé numa festa libertina? “Mas é a Cláudia Leitte da Praça!” Ah, bom.

Alguns ex-homens realmente subiram ao palco para performances de dublagem. Uma loucura. Cada modelito… Teve até um rapaz do bar do Satyros Um (na hora que ele apareceu, alguém gritou “Olha lá, parece o André!”). Mas quem roubou a cena mesmo foi a Amy Winehouse. A atriz Erika Forlim encorporou a diva bêbada como ninguém. Subia no palco e fazia sinais na garganta, tentando gritar “TÔ SEM VOZ!”, até que o Ivam resolveu roubar a cena, fazendo o que sempre faz (dizem as más línguas) nas festas dos Satyros: abaixar as calças.

Uma loucura.

Daí, depois que uns cinco homens subiram para encoxar a Amy (e o Henrique Mello resolveu enfiar a cabeça debaixo da saia dela – uma loucura), ela resolveu rasgar a fantasia. Deve ter olhado para a plateia e se perguntado “quem será que precisa de um mega tufo de cabelo, hein?”, e nesta hora me viu. “Ah, aquele careca ali!” Batata. Eu, conversando com o povo, nem pude ver aquela tonelada de cabelo vindo em minha direção. Foi em cheio na cara. Dado o volume capilar, compreendam que eu quase fui ao chão (Amy, querida, como é que você equilibra isso na cabeça?).

Na pista, muito Michael Jackson (querido, para sempre em nossos corações), inclusive, foi a primeira música da noite. O DJ pára tudo e pergunta “Tem alguém bêbado aí?”. Quem sabe a pergunta era se tinha alguém que não estava bêbado ali. Quando começou a tocar Thriller, quem aparece? Erika. De Amy? Não, de indiana. Foi uma mistura de Maya de Caminho das Índias com passeio de canga na praia, tudo em clima de muita sensualidade. Uma loucura.

Alguns hits dos Backstreet Boys, Spice Girls e Britney Spears depois, era hora de recarregar – porque né? Saí da pista deixando meu casaco num cafofo que dá acesso ao camarim (sem ter notado a existência de uma chapelaria na festa). Acabei ficando pelo bar mesmo. Encontrei algumas pessoas, com quem fui confabular sobre o livro (ja tem até título, sabia?). Aliás, Carmem, Giza, Erika e Samira, um beijo – vocês são umas fofas.

Também encontramos o Ivam, bem louco, no caminho do banheiro, mas ele estava num estado que me impede de tentar reproduzir o diálogo que se seguiu.

Dia clareando, a festa já ficando vazia (por que será que nessas horas sempre tocam as músicas mais legais?) um povo dormindo nos cantos… Vamos embora? Vamos. Lá vai o Dado buscar o casaco no cafofo. Em vez do casaco, o que encontro? Um pessoal se pegando geral. Jesus, uma loucura. Segundo meu irmão, são quase sinônimos: “cafofo” + “festa” = “abate” (adicione à equação a variável “libertina” que o resultado fica imprevisível). A ética jornalistica não me permite citar quem estava bem louca e sem sutiã, liberando geral lá dentro. Três palavras: se joga, mona.

Enfim, assim terminou a minha noite libertina. Se alguém encontrar um casaco preto meio amassado, meio embebido em álcool, por favor me liga. Sobre o que rolou, só digo o seguinte: foi uma loucura.

Pessoal, estamos aguardando a próxima!

Dado

O dia em que conheci Vinícius de Morais – e ele cantou ‘O Canto de Ossanha’ para mim (ou ‘Os cães da Praça Roosevelt, parte 1′)

Conheci dois mendigos na Praça Roosevelt no último dia 12, uma fria – e bota fria nisso – sexta, enquanto fuçava os fivros do Sebo do Bac.

Eram uma mulher e um rapaz. A mulher devia ter cerca de 1,60 m, cabelos raspados, uma blusa vermelha e, segundo ela, 39 anos (“Com essa cútis?”, perguntei, e ela: “É, mas com barriguinha de pochete”). Vestida com roupas simples, mas muito limpa.

Ela se apresentou, dizendo “Olá, eu sou Yvone, a mendiga mais chique de São Paulo”, e nos cumprimentou, se referindo a cada um como “moço bonito!”. Pediu um cigarro, um salgado, um dinheiro, uma cachaça, qualquer coisa. “Eu sou escritora, autora do livro Ninguém me quer: do Sergipe a São Paulo.” Eu, como sou chegado em gente com histórias pra contar, comecei a dar corda:

“Então você vem do Sergipe?”, “Venho. Meu pai abandonou a minha mãe. Viemos para São Paulo. Minha mãe conheceu meu padrasto. Fui estuprada pelo meu padrasto dos sete aos 14 anos…”, e por aí foi.

“Ainda peguei Aids. É mole?”

Enquanto falava comigo, o rapaz – que tinha chegado com ela – conversava com Anselmo (mas não recebia a mesma atenção que eu estava dando para Yvone). Dada a aparente impaciência do interlocutor, o rapaz começou a interromper a fala de Yvone. Ela ficou meio brava. “Puta merda, cara problemático. Olha só, eu sou prima desse moleque. Conheço ele desde que nasceu. Rapaz de 22 anos, problemático. 22 anos é assim mesmo, cara com problema.” Daí os dois começaram a gritar e ninguém mais conseguia se fazer compreender.

No meio da gritaria, só deu pra ver o rapaz levantar a barra de um dos lados da calça e mostrar a tatuagem feita na bela perna. “Isso aqui sou eu que desenho. Eu sou artista!”. Daí eu perguntei “Mas você tatuou em você mesmo?”, e ele, meio noiado “Eu fiz a metade e o outro fez a metade” – algo que eu não entendi muito bem, mas beleza. Alguns gritos depois, ele se cansou, levantou e saiu andando com um lado da calçca mais alto que o outro.

Yvone continuou comigo. “Vou escrever um negócio pra você. Um negócio bem chique. Vou te passar meu MSN e meu orkut.” Pegou um papel da mão do Anselmo e começou a rabiscar. “Toma. Lê”, me deu o papel. Mas quando fui guardar, ela disse “Lê agora!”. Li.

“Por favor, poderia me ajudar com um salgado?” No verso, dois endereços de MSN, um número de telefone, e a explicação: “Moradora de rua do Paissandu. Doença Grátis.”

– 

Guardei o papel. Ela pegou meu braço e fez a feição mais desesperada que pôde: “A Prefeitura fechou oito abrigos públicos. Acho que o Kassab quer abrir um brechó: toda noite vem alguém roubar nosso cobertor!”.

Antes de ir embora, um último apelo: “Se tiver um cobertor sobrando, uma blusa de frio, um cachecou, manda pra mim, vai! Eu moro ali atrás da floricultura.”

“Vê se pode? Com uma vida dessas, ainda tenho leucemia.”

“É um desses todo dia?”, perguntei para o Anselmo. “Deus que me livre! Se fosse, eu já tinha saído daqui”, disse, pegando o livro que estava lendo (Pornopopeia) e indo para dentro do teatro.

A confusão com a chegada desses dois foi meio bizarra, mas depois que Yvone foi embora, a conversa que tive com o rapaz rendeu bastante. Como eu me perdi um pouco no pensamento dele - o pobre estava visivelmente sob efeito de drogas -, vou colocar algumas das frases que me fizeram conversar com ele por quase uma hora:

“Cara, eu fiz uma coisa que eu sei que tá errada.”, “Me conta”, eu disse. “Eu tava comendo uma mina, daí eu falei ‘vou ali tomar um conhaque’. Peguei vinte conto na bolsa dela, peguei o cartão dela, deixei minha cueca lá, saí e ela deve estar esperando até agora.”

“Como assim? A que horas foi isso?” Ele explicou: “Foi meio-dia. Peguei ela na Augusta” “Era puta?” “Não, mas era dada. Queria dar pra alguém.” “E foi bom?” “Mais pra ela do que pra mim.”

“Me paga uma pinga aê. Tou há quatro noites sem dormir. Preciso de uma pinga.”

“Eu tenho casa. Moro em Higienópolis. Faço faculdade.”

“Minha mãe é a única que ainda acredita em mim.”

Perguntei: “E porque você não vai para a sua casa?”

Ele diz: “Porque minha mãe não vai abrir a porta pra mim.”

E continua: “Por causa da droga.”

“Meu nome é Vinícius de Moraes. ‘Pergunte pro seu orixá: o amor só é bom se doer’. Tou te zuando. É Marcos Vinícius de Moraes.”

“Tem gente que não acredita. Eu faço viagem astral”

O que mais me deixou com pena: “Sabe, eu estou conversando aqui com você porque você me dá atenção.”

O que me fez rir contente: “Comprei essa rosa pra dar de presente pra uma mina. Porque é bom, né, fazer uma gentileza. As meninas gostam. Aquela ali é gatinha, né?”. Eu disse “Gostou? Vai lá, dá a rosa pra ela!” Ele foi. Ficou uns minutos lá. Deu a minha hora. Entrei no teatro.

Quando saí, duas horas depois, ele ainda estava conversando com a menina. Ela tinha a rosa na mão.

Sorri pra ele, como quem diz “ehe, garanhão”, mas acho que já não lembrava mais de mim.

Dado

Um alô, Liz e Além do Horizonte

Caros assíduos leitores do In Utero (pai, mãe, professor orientador, um beijo),

Passei só para dar um alô e dizer que ainda estamos vivos. Seguinte: hoje Os Satyros estreiam Liz, no Sesc Avenida Paulista. Não tem mais ingressos há um tempão. Quando eu liguei, na segunda-feira, só tinha oito lugares (!) para a apresentação de sábado. Desta vez, não vi os ensaios. Mas assim que eu ver a peça e trocar umas figurinhas com o Rodolfo e com o Ivam, posto aqui o que eu achei.

Para quem quiser ir: Sesc Avenida Paulista. Av. Paulista, 119, tel. 0/xx/11/3179-3700. As apresentações serão nas sextas, sábados e domingos, às 21h30min, até o fim do mês. Os ingressos custam de R$ 5 a R$ 20. Já vou adiantando: a estreia está esgotada. Mas tem para os outros dias.

Domingo tem outra estreia dos Satyros, mas em vez dos palcos, esta é na TV: a minissérie Além do Horizonte, na TV Cultura, como parte do Projeto Direções. O roteiro é de Ivam Cabral e a direção, de Rodolfo Garcia Vázquez. Domingo, às 22h. São quatro episódios.

Enfim. Por aqui, as pesquisas continuam a todo vapor. Em breve, o In Utero começa uma série de posts sobre a Praça Roosevelt e sobre as peças A Filosofia na Alcova e Os 120 dias de Sodoma.

Até lá.

Dado

Desnudando Justine

Blasfêmia?; O trovão; A nova Juliette (ou ‘Desnudando Justine, partes 11, 12 e 13′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

ATENÇÃO: SPOILERS!

Chegamos hoje à última parte do Desnudando Justine. Se você ainda não viu a peça e não quer saber do final antecipadamente, não leia!

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Lá no começo do livro, quando Justine/Sofie vai começar a contar sua história, visto que reluta a contar, diz:

Contar-vos a história de minha vida (…) é oferecer-vos o exemplo mais flagrante das desgraças da inocência e da virtude. É acusar a Providência, não é queixar-se, é uma espécie de crime e não me atrevo…

Depois de tanto sofrer involuntariamente, sequer contar sua história Sofie quer. Veja: Sofie não quer pecar ao contar dos próprios atos da Providência – os próprios atos divinos em sua vida a obrigariam a blasfemar e ela não quer. Veja como Sofie se defende do próprio deus em quem ela acredita. Apesar de ocorrer no comecinho do livro, na linha do tempo este é um dos últimos fatos.

Ela acaba cedendo e conta toda a lista de infortúnios que já vimos em Desnudando Justine. Porém, agora no fim da nossa jornada, devo ressaltar que o livro possui várias versões. A que vocês viram aqui no In Utero é apenas uma. Foi mais ou menos a utilizada pelos Satyros, com inserções das outras, como a moça que abre a narrativa, falando que a história que se segue deve ajudar a ponderar sobre os Vícios e as Virtudes. E o fim também. Mas já chego lá.

Justine/Sofie termina o relato de sua vida para a Madame de Lorsange. O dia amanhece e ela já espera pela sua morte certa.

Não a temo mais; ela abreviará meus tormentos, acabará com eles. Só pode temê-la o ser feliz cujos dias correm puros e serenos. Mas para a desgraçada criatura que só pisou em cobras, cujos pés sangrentos só percorreram caminhos espinhosos, que só conheceu os homens apenas para odiá-los, que só viu o facho do dia apenas para detestá-lo, aquela a quem reveses cruéis roubaram os pais, fortuna, socorro, proteção, amigos; aquela que nada tem no mundo senão lágrimas para beber e tribulações para nutrir-se… esta, eu vos digo, deve dirigir-se para a morte sem tremer; ela a deseja como a um porto seguro onde a tranqüilidade renascerá para ele no seio de um deus justo demais para permitir que a inocência aviltada e perseguida nesta terra não encontre um dia, no céu, a recompensa pelas suas lágrimas.

Note que, apesar de ter perdido completamente a esperança no mundo, ela não perde a ideia de que sua próxima vida, no céu, será bem melhor. Esta certeza, como vimos, levou Justine/Sofie a deixar de tomar muitas atitudes durante seu caminho.

A Madade de Lorsange e o Senhor de Corville, seu marido, ficaram comovidos. Juliette/Lorsange, mesmo com tantos crimes da juventude, não perdera a sensibilidade. Por causa de um sentimento inexplicável, Lorsange se sentia ligada a Sofie.

Vós me haveis ocultado vosso nome, Sofie, e também vosso nascimento; eu vos imploro para que me reveleis vosso segredo. Não imaginai que seja apenas vã curiosidade que me leva a falar-vos assim. Se o que suspeito é verdade … Oh, Justine, se fôsseis minha irmã!

— Justine … madame, que nome!

— Ela hoje teria vossa idade.

— Oh, Juliette, é a vós que escuto, disse a infeliz prisioneira lançando-se nos braços da Senhora de Lorsange, tu… minha irmã! Oh, meu Deus, como blasfemei. Duvidei da Providência… Ah, morrerei bem menos infeliz pois pude abraçar-te mais uma vez.

As duas se abraçaram aos prantos. O Senhor de Corville, também emocionado, saiu do aposento para escrever uma carta atestando a inocência de Justine, utilizando a sua rede de contatos.

Até que o caso fosse completamente esclarecido, Justine ficaria sob a guarda do Senhor de Corville, em seu castelo, junto com a irmã, Juliette.

Justine passou a ser a pessoa mais paparicada da casa, tudo para apagar de sua vida os dias ruins. Os melhores pratos, as melhores camas… Juliette e o marido não poupavam esforços para fazê-la feliz. Até a famigerada marca feita por Rodin foi feita desaparecer, pelas mãos de um artista. O sofrimento já sumia do rosto de Justine – e as cores voltavam. Sua virtude resplandecia como nunca.

Depois de um tempo, o Senhor de Corville conseguiu finalmente limpar a barra de Justine. Nenhuma acusação, tudo resolvido.

Mas o estado de espírito de Justine mudou de repente. Sombria, inquieta, chorosa:

Não nasci para tanta felicidade, dizia ela às vezes para a Senhora de Lorsange… Oh, minha querida irmã, é impossível que ela possa durar.

Era como se, acostumada a ter um pouco de bem antes de muito mal, já prevesse um destino ainda mais cruel.

Até que um dia, na casa de campo, arma-se uma terrível tempestade. Juliette morre de medo de raios. Justine vai fechar uma das janelas, lutando contra o vento.

Então um clarão.

Justine é atingida por um raio, que a joga sem vida no meio do salão.

Aqui nós temos algumas versões. Em uma delas, o raio entra pelo seio direito e sai pela boca, desfigurando seu rosto. Na outra, o raio entra pela boca e sai pela vagina (o que gera a piadinha entre os libertinos de que os céus teriam poupado o traseiro de Justine). Numa terceira versão, enquanto ia à missa, Justine é atingida por um raio que não a poupa como o anterior: rompe da boca ao ânus. Em outra, o raio entra pelo seio e sai pelo ventre (não sem deixar a cara desfigurada).

O Senhor de Corville não quer deixar que a esposa veja a irmã daquele jeito, mas Juliette quer a todo custo:

(…) Deixa-me vê-la por um instante. Tenho necessidade de contemplá-la para me dar forças na resolução que tomei; escutaime, senhor, e não recuseis a atitude que vou tomar e da qual nada no mundo me fará desistir.

As desgraças inauditas que essa infeliz sofreu, embora tenha sempre respeitado a virtude, têm qualquer coisa de extraordinário, senhor, para que eu não abra os olhos para mim mesma. Não imagineis que esteja cega aos falsos brilhos de felicidade que vimos desfrutar durante suas aventuras aqueles perversos que a atormentaram. Estes caprichos da sorte são enigmas da Providência que não devemos desvendar, mas que jamais nos devem seduzir; a prosperidade do perverso não é senão uma prova à qual a Providência nos submete, ela é como o raio cujos fogos ilusórios embelezam por instantes a atmosfera apenas para precipitar nos abismos da morte os infelizes a quem fascina… Eis aí o exemplo aos nossos olhos; calamidades seguidas, desgraças espantosas e ininterruptas desta jovem infeliz são um aviso que o eterno me dá de me arrepender dos meus erros, de escutar a voz dos meus remorsos e de lançar-me, enfim, nos seus braços. Que tratamento devo eu temer dele, eu… cujos crimes vos fariam tremer, se os conhececeis… ou cuja libertinagem, irreligião, abandono de todos os princípios marcaram cada instante da vida… o que devo esperar, se é assim que tratam aquela que não cometeu um único erro voluntário que lhe trouxesse o arrependimento.

Separemo-nos, senhor, chegou a hora… nenhum elo nos liga, esquecei de mim e concordai que eu siga um atalho eterno para abjurar aos pés do ser supremo as infâmias com que me conspurquei. Este golpe terrível para mim era, não obstante, necessário para minha conversão nesta vida, e para a felicidade que ouso esperar na outra. Adeus, senhor, não mais me vereis. O último sinal que espero da vossa amizade é o de que não façais nenhuma indagação para saber o que aconteceu comigo; espero-vos num mundo melhor, vossas virtudes devem conduzi-lo até ele e possam as macerações do lugar onde vou, para expiar meus crimes, passar os anos infelizes que ainda me restam, permitir-me rever-vos um dia.

Juliette faz as malas, pega algum dinheiro e parte para o Convento das Carmelitas, em Paris. Lá, se torna exemplo de costumes e sabedoria.

O Marquês de Sade, tido como tão libertino, encerra a narrativa assim:

Oh, vós que ledes esta história, possais tirar dela o mesmo proveito que aquela mulher mundana e corrigida; possais convencer-vos com ela que a verdadeira felicidade está somente no seio da virtude, e que se Deus quer que ela seja perseguida na terra, e para preparar no céu a mais faustosa recompensa.

Esta seria uma versão mais branda, visto que Deus é defendido. Assim, a morte de Justine seria realmente uma recompensa (Deus – o raio – entra pelo peito e sai pela boca: toda a fé – peito – de Justine era proferida a quem quisesse fazer o mal – boca). Nas outras versões, porém, o raio é a natureza, e Justine é um mero objeto: os próprios raios a atacam de maneira libertina e Justine é punida por não se submeter às leis da natureza (a libertinagem).

O fim utilizado pelos Satyros é o que o raio entra pela boca e sai pela vagina. Justine é enterrada de forma a não deixar vestígios no mundo: sobre o túmulo são plantadas sementes e grama volta a crescer. A vida continua e pronto.

Destaque para a expressão de terror de Justine (Andressa Cabral) ao ser atingida pelo raio – a cena é repetida três vezes, uma para a esquerda, uma para a direita e uma para a plateia, num incrível jogo corporal – Andressa se contorce toda, feito quem tem convulsões).

No fim, já sem ninguém no palco, há um estrondoso som de trovão. Seria Deus no teatro?

Enfim, caros leitores, quem ainda não foi, corram. Vale super a pena. Quem foi, vá de novo. A gente do In Utero mesmo estamos prestes a ir novamente (soube que haveria novidades na montagem).

Termino esta série com as palavras do próprio Rodolfo García Vázquez, diretor da peça, em seu blog:

Justine é:

A Família que não é familiar.

A Justiça que não é justa.

O Amor que não ama.

A Empresa que não empreende.

O Deus que não é divino.

O Poder que não permite ao Outro poder.

A dor que não para de doer.

A dor. Devo dizer: pelo menos algo na vida de Justine é legítimo – e inquestionável.

Dado

Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima; Senhora Bertrand; Padre Rafael (parte 2) e o julgamento (ou ‘Desnudando Justine, partes 8, 9 e 10′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento

11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

justine4_Justine chega à parte final de seu relato. Como na peça, estas três partes são uma só, contemos tudo junto.

Nos diz a infeliz virtuosa:

Uma mulher indigna quer seduzir-me para um novo crime e torno a perder os poucos bens que possuo para salvar a fortuna de sua vítima e para evitar sua desgraça. O infeliz quer recompensar-me dando-me seu nome e expira nos meus braços antes que possa fazê-lo. Exponho-me a um incêndio para salvar uma criança que não é nada minha e eis-me pela terceira vez sob o gládio da Têmis. Imploro a proteção de um desgraçado que me desonrou, ouso esperar que ele se sensibilize com o excesso dos meus infortúnios e novamente ao preço da minha desonra é que o bárbaro me oferece ajuda.

Justine/Sofie reencontra Dubois num albergue. A mulher novamente se mostra a maior tentadora das virtudes de Justine – repare que, antes de fazer mal a Justine, Dubois a convida para tomar parte em seus planos. Oferece argumentos que balançam a fé de Sofie.

A criminosa agora se intitula baronesa e, pelo visto, sua fortuna foi construída sobre atitudes nada louváveis. Em nenhum momento a ótica de Sade aparece tão clara quanto aqui:

(…) Não é a escolha que o homem faz do vício ou da virtude, minha querida, que o faz encontrar a felicidade, pois a virtude não é, como um vício, senão um modo de se portar no mundo. Não se trata, portanto, de seguir um e não o outro, trata-se apenas de trilhar o caminho geral; aquele que se afasta dele, sempre erra. Num mundo inteiramente virtuoso, eu te aconselharia a virtude porque as recompensas a acompanhariam; a felicidade infalivelmente adviria dela; num mundo totalmente corrompido, jamais te aconselharia outra coisa senão o vício. Aquele que não segue o caminho dos outros perece inevitavelmente, tudo o que ele encontra o prejudica, e como é o mais frágil, é preciso, necessariamente, que seja vencido.

É em vão que as leis queiram restabelecer a ordem e repor o homem no caminho da virtude; pervertidas demais para consegui-lo, fracas demais para ter êxito, elas o afastam por instantes do caminho aberto, mas jamais o farão abandoná-lo. Quando o interesse geral dos homens as levar à corrupção, aquele que não se quiser corromper com eles lutará contra o interesse geral; ora, que felicidade esperam aqueles que contrariam eternamente o interesse dos outros? Dir-me-ás que é o vício que contraria os interesses dos homens; concordarei contigo quanto a um mundo composto de partes iguais de depravados e virtuosos, porque então o interesse dos primeiros se choca visivelmente com o dos outros, mas não é assim numa sociedade totalmente corrompida; meus vícios, então, não ultrajando senão os depravados, determinam nele outros vícios que os recompensam e ambos ficamos felizes. A vibração torna-se geral, é uma enorme quantidade de choques e lesões mútuas, onde cada um, recuperando imediatamente o que acaba de perder, vê-se sempre numa posição agradável. O vício não é perigoso senão para a virtude, porque, frágil e tímida, ele jamais ousa alguma coisa, mas se ela for banida da terra, o vício, não afrontando senão os depravados, não perturbará mais ninguém, fará eclodir novos vícios, mas não se alternará com as virtudes.

Objetar-me-ás com os bons efeitos da virtude? outro sofisma, eles servem somente ao fraco e são inúteis àquele que, pela sua energia, basta-se a si mesmo e que não necessita da sua sagacidade senão para corrigir os caprichos da sorte. Como queria que tudo te desse certo durante toda a tua vida, minha querida filha, se tomavas sempre o caminho contrário ao de todo mundo? Se te tivesses deixado levar pela corrente, terias encontrado o porto como eu. Aquele que deseja remar contra a corrente chegaria lá em cima com a mesma rapidez daquele que desce? Um quer contrariar a natureza, o outro se entrega a ela. Sempre me falas da Providência, e quem te prova que ela ama a ordem e, por conseguinte, a virtude? Não está ela sempre te dando exemplos dessas injustiças e dessas irregularidades? É enviando aos homens a guerra, a peste e a fome, e tendo formado um universo pervertido em todas as suas partes, que ela manifesta aos teus olhos seu extremo amor pela virtude? E por que queres que as pessoas depravadas a desagradem, já que ela própria age apenas pelos vícios, que tudo é vício e corrupção, que tudo é crime e desordem na sua vontade e nas suas obras?

E, ademais, de quem recebemos estes impulsos que nos impelem para o mal? Não é sua mão que no-los dá, haverá uma só vontade nossa, ou sensação nossa, que não venha dela? Será então razoável dizer que ela nos abandonaria ou nos daria inclinações para uma coisa que lhe seria inútil? Se, portanto, os vícios a servem, por que desejaríamos combatê-los, por que direito agiriamos para destruílos e quem diz que resistiríamos à sua voz? Um pouco mais de filosofia no mundo logo poria tudo no seu devido lugar e faria ver aos legisladores, aos magistrados, que estes vícios que eles acusam e castigam com tanto rigor, têm às vezes um grau de utilidade bem maior que essas virtudes que pregam sem jamais recompensá-las?

— Mas quando eu tiver a fraqueza, madame, (…) como conseguirieis abafar o remorso que a cada momento nasceriam no meu coração?

— O remorso é uma ilusão, Sofie, redargüiu a Dubois, ele não passa do murmúrio imbecil da alma fraca demais para ousar eliminá-lo. (…) só nos arrependemos daquilo que não estamos acostumados a fazer. Repete freqüentemente o que causa remorso e conseguirás eliminá-lo; enfrenta-o com o facho das paixões, com as leis poderosas do interesse e logo o terás dissipado. O remorso não prova o crime, mas indica somente uma alma fácil de subjugar. Se houver uma ordem absurda que te impeça de sair imediatamente deste quarto, tu não sairás daqui sem remorso, embora seja certo que não farás mal algum em sair.

Portanto, não é verdade que somente o crime é que causa remorso; convencendo-se da nulidade dos crimes ou da sua necessidade com relação ao plano geral da natureza, seria portanto possível vencer tão facilmente o remorso que se teria em cometê-los, como te seria fácil abafar aquele que nasceria da tua saída deste quarto após a ordem ilegal que terias recebido para aqui ficar. É preciso começar com uma análise exata de tudo o que os homens chamam de crime, começar por convencer-se que estes não passam de uma infração das suas leis e dos seus costumes nacionais, que eles assim caracterizam; o que chamamos de crime na França, deixa de sê-lo a algumas léguas dali, que não existe nenhuma ação que seja realmente considerada como um crime universalmente em toda a terra, e que, em conseqüência, nada no fundo merece razoavelmente o nome de crime, que tudo é uma questão de opinião e de geografia.

Dito isto, é portanto absurdo querer se submeter à prática das virtudes que não passam de vícios em outros lugares, e a fugir de crimes que são boas ações em outros climas. Pergunto-te agora se este exame feito com reflexão pode causar remorso naquele que, por seu prazer ou por seu interesse, tenha cometido na França uma virtude da China ou do Japão que, todavia, a desonrará em sua pátria. Será que ele se deterá diante dessa vil distinção, e se for um pouco filosófico, será ele capaz de lhe causar remorso? Ora, o remorso só existe por causa da defesa, surge por causa do rompimento dos freios e não por causa da ação; será sensato deixá-lo subsistir em si, não será absurdo não eliminá-lo sem demora?

(…)

— E não credes que a justiça divina recebe num mundo melhor aquele a quem o crime não assustou neste?

— Creio que se existisse um deus, haveria menos males na terra; creio que se o mal existe na terra, ou estas desordens são exigidas por esse deus, ou então ele não tem forças para impedi-las; e não temo um deus que é apenas fraco ou perverso, enfrento-o sem medo e rio-me dos seus raios.

Dado o discurso, Dubois ofecere dinheiro pela ajuda de Sofie. Justine/Sofie concorda apenas para ouvir os planos da mulher e tentar impedir (mais uma mentirinha em nome do bem). Trata-se do jovem negociante, Dubreuil (Diogo Moura). O rapaz está hospedado no albergue e confidenciou à “baronesa” Dubois que está apaixonado por Sofie. Suposta alcoviteira, Dubois prometeu intervir, mas está de olho mesmo é na grana do maroto, que fica escondida ao lado de sua cama.

Dubois já combinara tudo de antemão: Sofie sairia para passear com Dubreuil e, enquanto estivesem fora, invadiria o quarto dele, roubaria todo o ouro, despacharia para outra cidade, mas ainda não fugiria: ficaria no albergue para fingir que ajuda o moço a encontrar os pertences roubados. Só depois de apagar as suspeitas é que as duas fugiriam juntas.

Sofie ouviu tudo, decidida a contar a Dubreuil assim que se encontrassem.

Mas…

(…) se Dubreuil está apaixodo por mim, não posso conseguir mais dele avisando-o ou me vendendo a ele, do que podeis oferecer-me para traí-lo?

— É verdade, disse a Dubois, na verdade começo a crer que o céu te deu mais arte do que a mim para o crime. Está bem, continuou ela escrevendo, eis aqui minha nota de mil luíses, atreve-te a recusar agora.

Isso foi só um teste para Dubois. Não era a intenção de Sofie.

A moça então começa a conversar com Dubreuil e percebe logo sua afeição. Os dois foram ficando próximos conforme os dias foram passando. Até que chegou a data do tal passeio. Antes de deixarem o albergue, porém, o casal jantou no quarto de Dubois.

Mal saem para a rua e Sofie conta o plano de Dubois. Vai, Dubreuil, não deixe o quarto abandonado. Faça com que alguém esteja lá enquanto saímos.

Muito grato, Dubreuil deixa um amigo no quarto e os dois partem para o passeio. É nesta hora que ele a pede em casamento.

Sofie fica nas nuvens. Finalmente sua sorte iria mudar. Porém, no meio do passeio, após percorrerem duas léguas, Dubreuil começa a sentir dores e a vomitar horrivelmente.

De volta ao albergue, o diagnóstico do médico: envenenamento. Pânico. Sofie procura Dubois – ela já fugiu, após arrombar os armários do quarto de Sofie, em vingança, levando seus pertences e dinheiro.

Dubois planejara tudo: antes do passeio, envenenara a comida de Dubreuil (que jantaraem sua casa) para que ele, ao retornar e encontrar seus pertences roubados, só se ocupasse em tentar salvar a própria vida.

Dubreuil defende Sofie enquanto agoniza. Proíbem que a persigam, atesta sua inocência.

Desgraçada criatura que eu sou, será preciso que a felicidade só me seja oferecida para que eu sinta mais intensamente a tristeza de jamais poder alcançá-la?

O filme de Sofie não fica dos melhores. Apesar da palavra de Dubreuil a favor dela, antes de morrer, não havia mais nada que provasse sua inocência. Ao contrário: ela estivera com o rapaz antes dos fatos que o causaram óbito.

Assim sendo,ela decide partir. O amigo de Dubreuil lhe dá algum dinheiro e indica uma mulher a Sofie, a quem ela poderá pedir trabalho como criada. É uma comerciante que está no albergue, indo de volta para Chalon-sur-Saône após alguns dias de negócios. É a Senhora Bertrand.

Bertrand (Gisa Gutervil) tem uma filha pequena, de 18 meses, que ainda mama no peito. Sofie fica muito apegada à bebê e tem uma boa relação com Bertrand, que é meio grossa, meio tagarela. Durante a longa viagem, chegam a Villefranche, onde resolvem passar a noite em um outro albergue.

Durante a madrugada, porém, ocorre um incêndio no prédio. Todos fogem desesperados. Bertrand, inclusive, sem nem lembrar da filha.

Sem nada dizer-lhe corro para dentro do nosso quarto, em meio às chamas que me cegam e queimam-me várias partes do corpo, agarro a pobre criaturinha e corro a levá-la para sua mãe. Mas ao apoiar-me sobre uma trave meio queimada, falta-me o pé e meu primeiro movimento é estender as mãos. Esse impulso da natureza me deixa cair o fardo precioso que seguro e a infeliz criança cai nas chamas aos olhos da mãe.

Um adendo: note que é a primeira vez que Sofie se refere à natureza para se referir ao impulso. Note também que qualquer personagem de Sade, virtuoso ou devasso, faz uso da natureza para legitimar suas atitudes: para o libertino, o vício é impulso da natureza e, como tal, não deve ser ignorado. Para o puro, contrariar a natureza é agir contra as supostas leis divinas.

Bertrand fica louca da vida. Culpa Sofie pela morte da criança – ainda mais ao notar, depois do incêndio controlado, que o berço não seria atingido.

Bertrand denuncia Sofie para o juiz da cidade. Na sua sede de vingança, ela descreve uma Sofie nada virtuosa para o juiz: uma garota de vida fácil, que fugira da forca na outra cidade, que possuía amantes e por aí vai.

Durante o processo, as testemunhas montam uma história na qual Sofie é a incêndiária, a assassina da criança, e cúmplice dos ladrões (que botaram fogo no albergue para facilitar sua ação).

Veredito: condenada.

Coincidentemente, ali era o lugar onde o padre Antonin, um dos devassos do convento, estava vivento (não o albergue, mas a região). Sofie, em seu desespero para não ser condenada, pede para falar com ele. Ele aparece, mas finge não conhecê-la. Até que ela pede para que eles conversem em particular.

Nesta conversa, o padre até oferece ajuda a Sofie, mas com uma condição: ela, livre das acusações, entraria para o convento. E pelo resto da vida, teria que se submeter aos desejos dos padres devassos.

Não. Sem liberdade sob estas condições. Sofie dispensa o padre.

Não te servirei, nem te aborrecerei, mas se disseres uma só palavra contra mim, eu te acusarei de crimes ainda maiores e eliminarei num instante qualquer meio que possas ter para defender-te. Pensa bem antes de falar e compreenda o espírito das palavras que direi ao carcereiro ou eu te esmago de uma vez por todas.

Cara de pau, ele ainda fala para o juiz que a moça se confundiu, que devia estar pensando em outro padre Antonin.

Sofie é então condenada por unanimidade.

Os pensamentos mais amargos e dolorosos surgiram então para acabar de me estraçalhar o coração.

Depois, ela seria transportada até Paris, para ser julgada pelas instâncias superiores. Foi quando seu caminho se cruzou com a madame de Lorsange.

É nesta hora que ela faz aquele relato com o qual nós aqui do In Utero começamos a nossa análise e que nos serviu de introdução para todos os posts – um parágrafo no qual, após passar horas falando de seus infortúnios, ela resume tudo o que lhe ocorreu.

Enfim, vamos à peça:

A montagem deste trecho foi uma verdadeira revolução: estas três partes se tornaram apenas uma. Foi mais ou menos assim: ao sair do moinho de Dalville, Sofie conhece um rapaz que se sensibiliza com sua história e dá um pouco de dinheiro para ela (este seria o amigo de Dubreuil no enredo original, mas note que Dubreuil ainda nem apareceu). Este rapaz indica uma mulher para quem Sofie pode trabalhar como criada, a Senhora Bertrand, no albergue. E lá vai Sofie.

No albergue, trabalhando para Bertrand e cuidando de sua filha, Sofie reencontra Dubois. Dubois ofecere o plano maldito envolvendo Dubreuil. Sofie e Dubreuil se apaixonam e saem para passear. Sofie conta para Dubreuil todo o plano de Dubois. Dubreuil sai correndo chamando pelo seu amigo, rumo ao quarto, mas já chega lá morto. É nesta hora que começa o incêndio (sim, aqui só tem um albergue) e a criança morre. Ufa, haja fôlego!

Daí, enquanto Sofie tenta se explicar, já começa o julgamento, num jogo de cena bastante dinâmico. Semelhante ao primeiro julgamento (referente ao roubo do anel da Senhora du Harpin), os jurados aparecem no mezanino desferindo xingamentos contra sofie (“sua celerada! sua latifundiária!”). Então ocorre uma reconstituição do crime, em tom pra lá de cômico: Robson Catalunha e a máquina de fumaça mandam superbem.

Até o padre Antonin aparece para depor (eu sei que eu coloquei Rafael no título, mas foi para definir a continuidade do tema do convento), mas ele apenas diz que nunca nem esteve no convento citado por Sofie.

Enfim, ela é condenada.

As soluções cênicas são das mais inventivas: como Bertrand aparece no restaurante do albergue, suas cenas são sempre à mesa: Gisa Gutervil fica sentada numa espécie de carrinho, onde tem uma mesinha montada com prato e tudo. Este carrinho é empurrado para o palco por um garçom (Danilo Amaral), vestindo apenas o avental (e nu por baixo). Deixando Bertrand lá, ela tem sua refeição enquanto Dubois se encontra com Sofie, perto de outra mesa (outro carrinho, só que maior, empurrado por Henrique Mello, igualmente vestido apenas com o avental). Este segundo carrinho fica ali no canto o tempo todo. Curiosamente, depois da fuga, a cabeça de Dubois vai parar na bandeja que está sobre aquela mesa, na hora do julgamento – veja que coisa: sendo Dubois a personagem mais chave em relação à filosofia sadeana nesta história, a presença dela é necessária para esclarecer algumas questões em cenas que não estão presentes no livro, como o julgamento. Repare: Sofie dirá que Dubois roubou seus pertences. Esta “presença” de Dubois vai dizer: “Mas eu sou uma baronesa. Por que eu roubaria os pertences desta moça pobre?”

O processo que culpará Sofie, no próprio livro, já tem um tom farsesco. Na peça ele assume proporções maiores na parte da reconstituição do ocorrido. Robson Catalunha, sob comando de Ruy Andrade, mede a altura da janela, quantos passos tem da cama pra porta, a quantidade de fumaça, o barulho de gente caindo e gritando, enfim, uma comédia (ele aparece com a língua presa, fazendo um débil sotaque). Nesta parte, Luisa Valente assume a pele de Sofie para remontar o crime. Ela aparece no meio da confusão cheia de joias, roubadas de Bertrand, dizendo “olha aqui a sua linda criança que eu estou salvando”, cheia de ironia. Mais tarde, a loira ainda aparece atirando o bebê pela sacada, causando desespero de Bertrand.

Antes de tudo isso vir à tona, porém, cabe ressaltar como que ocorre esta virada na cena: relembrando os bons momentos com Dubreuil, de repente ele grita “mas foi ela que planejou tudo!” e de repente aparece o julgamento (o martelo do juiz, Rodrigo Souza, é um enorme dildo). No meio do julgamento, outra virada, quando alguém grita “reconstituição!”, e tudo muda outra vez.

Nos momentos finais da peça, uma cena com ritmo incrivelmente mais dinâmico que todas as outras.

Enfim, o relato de Sofie para a madame de Lorsange termina aqui. Mas o livro ainda não termina. Elas ainda precisam descobrir que são irmãs. E a Providência também precisa dar as caras. Afinal, estamos falando de Sade.

Dado

Dalville, o falsário, e o moinho (ou ‘Desnudando Justine, parte 7′)

1 Vícios e Virtudes
2 Senhor du Harpin, o velho sovina
3 Dubois, a prisioneira (parte 1), o incêndio e os ladrões
4 Marquês de Bressac, o devasso, e seu vício de amar homens
5 Senhor Rodin, o médico
6 Padre Rafael (parte 1) e o convento dos devassos
7 Dalville, o falsário, e o moinho
8 Dubois, a baronesa (parte 2), no albergue, e Dubreuil, a vítima
9 Senhora Bertrand
10 Padre Rafael (parte 2) e o julgamento
11 Blasfêmia?
12 O trovão
13 A nova Juliette

justine-moinho

Nosso relato vai chegando às últimas etapas (apesar de estarmos na parte 7, de 13, os próximos capítulos são meio agrupados).

Havíamos parado na saída de Justine/Sofie do convento. Nos diz a pobre ex-donzela:

Quero ajudar um pobre, e ele me rouba. Ajudo um homem desfalecido, o perverso faz-me girar uma roda como besta de carga. Esmaga-me com chicotadas quando as forças me faltam, todos os favores da sorte lhe são dados e estou prestes a perder a vida por ter trabalhado a força para ele.

Sofie já começa esta etapa blasfemando. Ela fica sabendo da sorte do Senhor Rodin, o médico: ele se tornara o primeiro médico do rei da Suécia, uma grande honra. Ao saber disso, Sofie já não pondera muito os pensamentos:

Que ele seja feliz, o perverso, que o seja pois a Providência o quer, e tu, desgraçada criatura, sofre sozinha, sofre sem te queixares, pois está escrito que as tribulações e os sofrimentos devem ser a partilha terrível da virtude.

Nossa heroína continua sua caminhada, quando uma senhora pede esmola (Gisa Gutervil). Doce como sempre, Sofie tenta ajudar, mas ao abrir a bolsa para pegar algo, a velha lhe dá um golpe, rouba seus pertences e corre para junto de quatro comparsas, todos com feições ameaçadoras: não chegue perto.

Sofie se levanta praguejando e continua sua jornada, até encontrar um homem caído no chão, sendo pisoteado por dois cavalos, comum homem montado em casa. Os cavaleiros partiram e deixaram o homem aparentemente morto. Só aparentemente.

Sofie, a voluntariosa, vai ajudá-lo. Faz com que o homem respire um pouco de álcool, para acordar. Cuida de seus ferimentos, lava o corpo sujo de sangue. Dá vinho para ele beber.

O homem se recupera e quer saber “quem é o anjo” que o salvara. Assim, Sofie conta sua história de desventuras para ele.

O tal então faz uma proposta: diz que se chama Dalville e que tem um palácio nas montanhas. Sua mulher bem que precisa de uma boa moça para ajudá-la. Que tal? Sofie aceita.

(Na peça, os mesmos bandidos que estão junto com a velha são os que espancam Dalville – sem os cavalos).

Dalville aluga duas mulas, escoltadas por um criado do albergue, e seguem para seu palácio, nos confins do país, no meio das montanhas (antes de chegar às montanhas, porém, Sofie nota algo: Dalville nunca faz o caminho mais óbvio: ele sempre faz trilhas alternativas, supostos atalhos, feito quem não quer ser encontrado).

O castelo se aproxima. Um lugar isolado, para além de todo caminho e habitação humanos, perto “do fim do universo”, um lugar “propício somente a cabras”, de tão sinuoso, de tanto que era preciso que o caminho fosse mais escalado do que percorrido.

Sofie começa a temer, ainda mais depois de ter passado pela floresta do conveto (ela passa a ter aversão a lugares ermos). Como pode morar num local tão perigoso?

Oh, perigoso, não, disse-me Dalville, olhando-me disfarçadamente à medida que avançávamos, não é nada perigoso, minha menina, mas tampouco é morada de gente honesta.

Os temores se confirmam: Dalville é um falsário que vive de “fabricar o próprio dinheiro”. Mostra para Sofie qual será seu local de trabalho: um poço onde mulheres nuas e agrilhoadas empurram uma roda, que leva água para o castelo. Doze horas por dia. Algum pão e um prato de favas. No ritmo, sempre. Castigos quando perder o ritmo. Nunca mais verá o céu. Quando morrer, será jogada num buraco, “em cima de trinta ou quarenta que já estão ali e poremos outra em teu lugar”.

Sofie pede que o falsário se lembre que ela acabara de salvar sua vida. Mas ele não é muito chegado a gratidão:

Que entendes, diga-me, pelo sentimento de gratidão com que imaginas ter me conquistado. Pensa melhor, criatura vil, que fazias tu quando me socorreste? Entre a possibilidade de seguires teu caminho e a de vires comigo, escolheste a última, como teu coração te inspirou. Pensavas então em alegrias? Por que diabos pensas que sou obrigado a te recompensar pelos prazeres que me deste e como te pode chegar à cabeça que um homem como eu, que nada no ouro e na opulência, um homem com mais de um milhão de renda, e pronto para ir a Veneza para desfrutar destas rendas à vontade, se digna aviltar-se e dever alguma coisa a uma miserável como tu?

Tivesses dado-me a vida, não te deveria nada, pois trabalhaste apenas para ti. Ao trabalho, escrava, ao trabalho. Aprende que a civilização, ao derrubar as instituições da natureza, não lhe roubou nenhum dos seus direitos. Ela criou seres fortes e seres fracos, sua intenção sempre foi a de que estes fossem subordinados àqueles, como o cordeiro sempre é subordinado ao leão, como o inseto ao elefante. A sagacidade e a inteligência do homem variam a posição do indivíduo; não é a força física que determina a posição, é a que ele adquire com suas riquezas. O homem mais rico torna-se o homem mais forte, o mais pobre passa a ser o mais fraco, mas isto, junto com os motivos que sustêm seu poder, a prioridade do forte sobre o fraco sempre esteve nas leis da natureza, que são iguais aos grilhões que prendem o fraco e que estão nas mãos do mais rico ou do mais forte, e pelas quais ela esmaga o mais fraco ou então o mais pobre.

Mas estes sentimentos de gratidão que reclamas, Sofie, ela os ignora. Jamais esteve entre suas leis que o prazer a que um se entrega seja motivo para que aquele que o recebe relaxe seus direitos sobre o outro. Vês nos animais que nos servem exemplo desses sentimentos de que te gabas? Quando te domino pela minha riqueza ou pela minha força, será natural que eu te entregue meus direitos, ou por que tu mesma me serviste ou por que tua política mandou-te recompensares a ti mesma servindo-me?

Mas mesmo que o serviço fosse prestado de igual a igual, jamais o orgulho de uma alma elevada se deixará aviltar pela gratidão. Não é sempre o humilhado o que recebe do outro, e esta humilhação que ele sente não paga suficientemente ao outro o serviço que ele prestou — é um prazer para o orgulho elevar-se acima do seu semelhante, e se a obrigação, ao humilhar o orgulho daquele que a recebe, torna-se um fardo para ele, que direito se tem de obrigá-lo a suportá-lo? Por que devo consentir em deixar-me humilhar toda vez que olho para aquele a quem devo obrigações?

A ingratidão, em lugar de ser um vício, é, portanto, uma virtude das almas fortes, assim como a beneficência é a virtude das almas fracas. O escravo a prega ao seu senhor porque tem necessidade dela, também o boi ou o asno a preconizariam se soubessem falar. Porém o mais forte, mais bem guiado pelas suas paixões e pela natureza, não se deve entregar a quem o serve ou a quem o adula. Que eles sirvam tanto quanto queiras, se isto lhes dá prazer, mas que jamais exijam nada em troca.

Então Justine/Sofie é agarrada por criados e colocada no roda como as outras escravas: nua e agrilhoada. Ela é chicoteada, mesmo sem cometer deslizes, só para saber como serão seus castigos. Os comparsas de Dalville analisam seu corpo, fazem desdéns, tratam-na como objeto. Sua dor os divertia. O próprio Dalville trata de possuí-la (biblicamente falando) sempre que pode, sempre de maneira brutal.

(…) tive a cruel satisfação de aprender ali que se existem homens que, guiados pela vingança ou por indignidade voluptuosas, podem divertir-se com a dor dos outros, existem outros seres barbaramente organizados para gozar dos mesmos prazeres sem outros motivos que não o encanto do orgulho, ou a mais horrenda curiosidade. Portanto, o homem é naturalmente mau, ele está no delírio das suas paixões quase sempre como na sua calma, e em todos os casos, os males do seu semelhante podem ser prazeres execráveis para ele.

(…)

Está bem, disse para mim mesma, será possível levar mais longe o ultraje, e que diferença pode fazer-se entre tal homem e o animal menos domesticado dos bosques?

Entre as parceiras de Sofie na roda, duas haviam sido amantes de Dalville antes de serem presas no poço. Ambas foram enganadas pelo falsário.

Dalville preparava um golpe: pretendia se mudar para Veneza. Para tal, mandava suas moedas falsas para a Espanha, a fim de conseguir papeis que atestassem sua riqueza que valessem na Itália. Assim, jamais seria descoberto e sua riqueza não passaria de títulos estrangeiros válidos no país de destino.

Mas havia o risco da fraude ser descoberta antes que ele coneguisse tais papeis.

Ai de mim, disse ao saber destas coisas, a Providência será justa pelo menos uma vez; ela não permitirá que um monstro como este tenha êxito e todas nós seremos vingadas.

Veja como aqui a religiosidade passa a ser usada como uma arma: o desejo se Justine/Sofie não é mais a própria felicidade, mas ser vingada.

Numa das noites em que Dalville abusa de Sofie, ela pede que ele não seja tão cruel. Ele responde:

E com que direito, perguntou-me o bárbaro, quando suas paixões foram satisfeitas. É porque quero passar um instante contigo? Mas eu não me jogo aos teus pés pedindo teus favores de modo a que me possas exigir compensação. Não te peço nada… simplesmente pego o que desejo e não vejo nisso senão o uso de um direito que tenho sobre ti. Não há nada de amor no que faço, este é um sentimento que meu coração jamais conheceu. Sirvo-me de uma mulher por necessidade, como se serve de um vaso para uma necessidade diferente. Porém jamais dou àquele ser senão meu dinheiro ou minha autoridade a submete aos meus desejos; não há nem estima nem ternura, e não devo o que pego senão a mim mesmo e não exigindo dela senão a submissão. Não vejo por que ser-te grato por isso. Será o mesmo que dizer que o ladrão que arranca a bolsa de um homem numa floresta porque se julga mais forte que ele, lhe deve alguma gratidão pelo erro cometido. O mesmo é válido para o que se faz com uma mulher; pode ser um direito dele repeti-lo, mas jamais razão suficiente para recompensá-la por isso.

A tal fraude enfim se concretiza. Dalville aumenta sua fortuna e planeja sua viagem para Veneza.

(…) O pobre faz parte da ordem natural das coisas; ao criar os homens com forças desiguais, a natureza nos convenceu do seu desejo de que esta desigualdade se conservasse mesmo nas mudanças que nossa civilização provoca nas suas leis.

O pobre substitui o fraco, já te disse; ajudá-lo equivale a eliminar a ordem estabelecida, e combater a da natureza, é destruir o equilíbrio que se encontra na base das suas mais sublimes disposições. É trabalhar em prol de uma igualdade perigosa para a sociedade; é encorajar a indolência e a preguiça, é ensinar ao pobre a roubar o rico, quando este recusar-se a ajudá-lo, e isto por hábito, pois do contrário essa ajuda terá dado ao pobre o direito de obtê-la se trabalhar.

— Oh, senhor, como estes princípios são cruéis! Falarieis deste modo se não tivesseis sido sempre tão rico?

— É preciso que o tenha sido sempre, mas soube dominar minha sorte, soube espezinhar o fantasma da virtude que jamais conduz senão à forca ou ao hospital, soube ver logo que a religião, a beneficência e a humanidade se transformavam em obstáculos a todos os que visam alcançar a fortuna, e consolidei a minha sobre os escombros dos preconceitos do homem. Foi zombando das leis divinas e humanas, foi sacrificando sempre o fraco quando o encontrava no caminho, foi abusando da boa fé e da credulidade dos outros, arruinando o pobre e roubando o rico, que alcancei o templo escarpado da divindade a quem adorava. Por que não me imitaste? Tua fortuna estava nas tuas mãos, a virtude quimérica que preferiste àquela consolou-te dos sacrifícios que lhe fizeste? Não há mais tempo, desgraçada, não há mais tempo; chora as tuas faltas, sofre e trata de encontrares, se puderes, no seio dos fantasmas que adoras, o que a credulidade te fez perder.

Antes de partir, Dalvielle mostra mais da sua crueldade: a atual amante é colocada junto das mulheres do poço, para ser feita de escrava.

Mas como só bastam três aqui… como farei uma viagem perigosa na qual minhas armas ser-me-ão úteis, vou experimentar minhas pistolas numa de vocês.

Uma das mulheres é morta a tiros para que a outra assuma seu lugar.

Vai, disse-lhe ele queimando-lhe os miolos, vai levar notícias minhas para o outro mundo, vai dizer ao diabo que Dalville, o mais rico dos bandidos da terra, é aquele que desafia com maior insolência a mão do céu e a sua.

As coisas mudam um pouco depois da saída de Dalville. O homem que fica em seu lugar tira as moças do poço e as dá um trabalho menos cansativo. Mas como não é só com Justine que a virtude é retribuída com infortúnios, o castelo é invadido por cavaleiros da polícia.

Todos foram presos, “acorrentados feito animais” e levados para Grenoble, onde seriam julgados. Os moedeiros foram condenados à forca. Justine teria o mesmo destino, mas conquistou a piedade do juiz, o Senhor S… . Este compreende tudo o que aconteceu e concede liberdade e um certo dinheiro a Sofie.

A conselho do Senhor S…, a moça vai para Isère, onde se hospeda num albergue.

No palco:

A roda onde Sofie passa a trabalhar é metafórica. Ela se torna parte de uma espécie de linha de montagem, onde as pessoas, nuas, usam máscaras de solda e fazem gestos repetitivos, como metalúrgicos – o próprio som ambiente sugere que ali é uma fábrica, com barulho de máquinas.

Uma ótima cena é adicionada: um dos trabalhadores começa a tremer, como que tendo espasmos. Ele cai no chão (foto) e logo aparecem os capatazes para tirá-lo dali. Outra pessoa é colocada no lugar.

Outra cena adicionada: um dos capatazes fala das obrigações de Sofie. No discurso, deixa escapar que sequer ele sabe o que faz ali – o capataz usa uma máscara de gesso que lembra o Jason, mas com apenas um olho – a roupa dos capatazes lembra a roupa dos metalúrgicos que trabalham com solda.

O momento da invasão do castelo (a partida de Dalville para Veneza e o novo chefe do local não são descritos): o foco da luz fica apenas em Justine/Sofie. Os trabalhadores se juntam todos, aglutinados, como que se unindo uns aos outros na adversidade, até poderem fugir. A invasão é narrada por um dos capatazes (Gilberto Scarpa), até o momento em que “testemunhos a favor de Justine comprovam sua inocência”.

Enfim, Justine chega ao albergue em Isère.

Lá, ela encontra uma mulher que se intitula baronesa, mas que Sofie tem a impressão de já conhecer.

É Dubois.

Dado

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